domingo, 29 de janeiro de 2017


Coisas Sós
De Herculano de Lima Einloft Neto.
Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2017.

1.

Era uma rotina mental. Ler, traduzir e escrever. Eu, acostumado a solidão, até ao ponto do que é seguro. Mas a segurança espiritual ou mental talvez esteja na constância do sábio de Sêneca ou em algo mais ou menos parecido.

Tinha alguma compreensão pelas séries modernas que tratavam da relação do homem com a tecnologia, embora não as assistisse. O mundo humano sempre mudara na mesma velocidade, eu pensava. Talvez tenhamos que nos adaptar, talvez não.

Uma questão que tinha era a dos inimigos. Lima Barreto tinha desgosto por Nietzsche e por Coelho Neto. Até que ponto o desgosto se assemelhava um pouco a um gosto? O desgosto de Lima Barreto por esses dois o fez os citar, lhes dar atenção, etc. O que Nietzsche disse da amizade em algum lugar, honrar no amigo o inimigo. Todo amigo é um inimigo em potencial, era uma frase minha, hoje estou a publicando. Questão de livre arbítrio. As duas oposições ao amor, de ódio e de indiferença, foram tratadas por Freud em Os Instintos e Suas Vicissitudes, se não me engano. Em Balzac, Ilusões Perdidas, algo como "esse senhor não tem ainda inimigos que o ataquem", se não me engano. Em uma Fábula Fantástica de Bierce, o juiz diz que um homem sem inimigos não tem amigos. Possível interpretar isto como querendo dizer que os amigos sejam inimigos? Ideias sombrias, as quais é melhor deixar de lado.

2.

João Sousa trabalhava com o que queria. Era tradutor de inglês para português do Brasil por caminho. Sua amiga Marisa estava sempre procurando motivos para o colocar para baixo, mas João temia que algumas amizades se mantém mesmo com atributos doentios.

Tinha sido um hábito antigo ir a casa de Marisa depois de uma noite na Lapa, na época da Lapa, pensava ele. Já hoje em dia João Sousa não costumava sair à noite. Olhou a quantidade de suco que havia em casa, era hora de comprar mais. Lembrou-se de se comunicar com Joana, era sempre bom dizer alô para essa outra amiga. O tempo ia passando e as amizades se mantendo com dificuldade. Melhor esperar alguma coisa em uma rede social por computador.

Tentou ler alguma coisa realmente interessante. Lima Barreto era sempre algo a considerar.

3.

João Sousa era uma pessoa tranquila, tinha noção boa de suas qualidades. Era uma pessoa que ocupava seu tempo com ler, e escrever. Em algumas perambulações suas conhecera de vista mulheres de seu bairro, que mais tarde viria a encontrar numa rede social de rede de computadores. Como abrir contato através de uma rede, era uma questão com a qual se ocupava. Mas sabia que não era necessário saber o nome de uma mulher para que ela fosse uma conhecida, ao menos em algum seu criterio.

4.

João Caminha tinha trinta e cinco anos e passara sua vida construindo sua reputação. Às vezes fraquejara e viera-lhe a falsa pergunta, "por que as pessoas eram ingratas"? A lei da realidade talvez fosse essa, que cada um pensa em si, estão todos sempre em conflito, os amigos em conflito silencioso, por questão da importância que se dá a seu trabalho.

Caminha se perguntava a respeito da filosofia. Cada filósofo parecia querer dar algo a sociedade, mas ao mesmo tempo era uma pessoa interessada em si mesma. A generosidade pode ser o melhor caminho do egoísmo comum a nós. Mesmo Nietzsche pensava assim, se bem me lembro.

Saiu uma vez e foi à padaria esperar uma pessoa. Com o tempo sair se tornou algo cada vez mais raro. Vivia em contato com o mundo através da interrede de telecomunicações. Ler e escrever era a sua rotina.

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