segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015
Surprezas...
Medeiros e Albuquerque. (n. 1867-09-04, Recife, PE -- m. 1934-06-09, Rio de Janeiro, RJ)
De Surprezas..., http://www.brasiliana.usp.br/bbd/handle/1918/00171700#page/1/mode/1up , ou Surprezas..., Flores & Mano, Rio, 1934.
Transcrição de Herculano de Lima Einloft Neto.
O trem da 1 hora da tarde parou na pequena estação do lugarejo e dele deceu o unico passageiro. Era Raul.
Como não tivesse prevenido ninguem, ninguem o esperava. Sabia, porém, haver perto da estação um sujeito alugador de cavalos e foi em sua procura.
O sujeito o conhecia. Admirou-se de vê-lo. Mostrou-se, entretanto, com isso muito alegre.
-- Ao senhor eu não alugo nada. Escolha qualquer cavalo e leve-o. Depois mandarei á fazenda buscá-lo ou o senhor manda trazê-lo.
E falara um pouco da morte do pai de Raul, o Dr Edmundo, que sucumbira menos de um mez antes e era o proprietario da maior fazenda dos arredores.
O homem admirava-se de ninguem ter vindo esperar o Dr Raul. Mas este lhe explicou desejar fazer uma surpresa a sua mãe e não a ter por isso prevenido de sua chegada. Todos a ignoravam.
Aceitou o cavalo emprestado e seguiu.
O pai de Raul tinha sido um grande engenheiro. Quando, muito moço, quiz casar-se, a familia da noiva opôz-se. Claramente o pai dela lhe deu a entender considerá-lo um caçador de herdeiras ricas. Porque Irene, a moça por ele desejada para esposa, teria quando o pai morresse, tresentos ou quatrocentos contos.
Edmundo, ao perceber o motivo da oposição, especificou bem claramente só casaria com separação de bens e administração distinta. Disse mesmo ao futuro sôgro que aconselhasse a filha, indicando quem ela devia consultar sobre essa administração, porque em hipótese alguma ele interviria nisso, mesmo com a mais simples opinião.
E foi assim que afinal se fez o casamento.
Nesse tempo, Edmundo era um engenheiro de valor muito secundario. Ganhava pouco. Mas atirou-se ao trabalho com um ardor febril e rapidamente foi subindo de cotação, empreitando obras cada vez maiores até fazer uma fortuna colossal.
O sôgro morreu. A mulher herdou perto de quatrocentos contos. Varias vezes tentou consultá-lo sobre o emprego desse dinheiro. Mas ele se recusava sempre formalmente.
Beijava-a, abraçava-a, mas respondia-lhe haver tomado o compromisso de não intervir jamais na administração dos bens dela. O pai não lhe havia indicado a quem recorrer para isso? Ela confirmava o fato. E Edmundo concluia:
-- Eu ignoro e quero ignorar quanto você possue. O essencial é você em hipótese alguma precisar recorrer aos seus bens para satisfazer suas necessidades e até os seus caprichos.
E, de fato, ele lhe satisfazia mesmo os desejos de mais despropositado luxo.
Alguns anos depois do sôgro morrer, ele veio a saber ter a mulher dissipado tudo. Ao dado por ele, ela juntava o excesso de joias caras. O que não gastou nisso, perdera em transações infelizes, indicadas pelo conselheiro a quem o pai lhe dissera recorresse, na administração de seus bens.
Tinham tido um filho, o Raul. O pai encaminhou-o para o estudo de engenharia, e o moço fez um curso brilhante.
Infelizmente, quando o terminou, o pai estava paraplegico.
Viviam então na Capital. Habitavam grande casa no centro de um admiravel jardim. O edificio tinha á altura do primeiro andar uma larga varanda. De manhã, os criados ajudavam o velho engenheiro a sentar-se na espreguiçadeira em que passava os dias, lendo e cismando.
A vida da mulher se transformára muito. Pouco parava em casa. Quando parava, grande parte do tempo consumia-a ao telefone.
Edmundo, quando o filho terminou o curso, quiz que ele fosse fazer um estagio de dois anos nos Estados-Unidos. Parecia-lhe que esse era um remate necessario para qualquer curso de engenharia.
Raul partiu, triste. Ele sentira nos ultimos tempos uma mudança evidente no caráter do pai. Lembrava-se mesmo que certa ocasião, quando o criado anunciou a visita do comandante Gabriel á mulher e que este partira, sem entrar, porque ela não estava, o velho agitara frenetico, num gesto de furor e de ameaça impotente, o braço direito.
Não vira o filho que entrara pela parte da varanda a que voltava as costas. Raul ainda o encontrara com o punho cerrado e o rosto verdadeiramente demudado de furor.
-- Que é isso, papai?
O velho não respondeu. Raul perguntou em vão a si mesmo o que poderia querer dizer aquele acesso de cólera paterna. Que lhe fizera o visitante?
Depois, forçado pelo pai, partira para os Estados Unidos. Em Chicago, quatro mezes apoz haver chegado, encontrara o laconico telegrama da mãe anunciando a morte do marido e pedindo-lhe que ou viesse ou mandasse procuração para que ela o representasse. Ele respondeu que voltaria o mais depressa possivel.
E voltou imediatamente. Não quiz, porém, prevenir ninguem. Para que? Causaria á mãe uma surpresa agradavel.
Chegado num dia e sabendo que a mãe fôra para a fazenda, para lá partira no seguinte.
Ignorava absolutamente o estado dos negociso do pai e da mãe. Pois que o pai morrera, a esta contava dedicar-se e, embora na amargura de não mais vêr o seu maior amigo, tinha um certo prazer na consolação de achar-se de novo perto da mãe. E' bem verdade que ultimamente não era tão carinhosa como outrora; mas não tinha dela queixa alguma. Estava ainda forte e formosa, e ele quereria ter o orgulho de trabalhar a seu lado, levando-a por toda parte, mostrando-a perto dele.
Seguiu para a fazenda. Fazia um sol abrazador Sebes de espinheiros ladeavam o caminho. Os arbustos estavam desfolhados, sêcos. Sêcos, mirrados, queimados pelo sol estavam os capinzais. Longe via-se um morro, despido de vegetação. Parecia que alguem o raspara cuidadosamente: era um bloco de granito. No calor formidavel daquela hora canicular, a tremulina das particulas de pó fazia parecer que se via o ar vibrando. A cada passo que o cavalo dava, levantava nuvens de poeira.
No caminho ele encontrou um preto, bem encostado a uma sebe de espinheiro, dormindo, de papo para o ar, meio descomposto. Devia estar embriagado. Corria-lhe um fio de baba da boca entreaberta. Moscas pousavam nele. Era nojento..
Quando Raul se aproximou da cancela da fazenda, cães avançaram, mas reconhecendo-o, começaram a saltar, festejando-o.
Amarrou o cavalo a um tronco de arvore e entrou em casa. Esta era um sobrado de um andar. Em baixo, havia a sala de visitas e a de jantar, enormes, a cozinha e acomodações para criados. No primeiro andar, estava o quarto dos pais, o dele e o destinado aos hóspedes.
Uma criada, precisamente a criada que costumava servir a mãe, reconheceu-o e teve uma expressão de terror.
Raul gracejou:
-- O' rapariga, eu não sou uma alma do outro mundo! Onde está mamãe?
A criada indicou que estava no primeiro andar e ia precipitar-se para preveni-la, quando Raul a segurou vigorosamente e obrigou-a a retroceder.
-- Fica quieta! Eu sei o caminho.
E subiu. Subiu, de vagarinho.
A casa parecia morta e deshabitada. Ele viu que a porta do quarto da mãe estava apenas encostada, a do quarto dos hóspedes aberta.
Espiou primeiro para este e viu que se achava vazio. Alguem, entretanto, ocupara o leito, porque ainda estava desarrumado.
Quem podia ter sido?
Abriu então, de vagarinho, a porta do quarto da mãe. Gozava de antemão a deliciosa surpresa, que ia fazer-lhe. Áquela hora, segundo o costume, devia ela estar dormindo a sesta. Acordá-la-ia com um beijo. Quantas vezes o tinha feito!
No momento, porém, em que a porta semi-aberta lhe permitiu vêr o largo leito dos pais, gelou-o um assombro. A mãe dormia. Mas ao lado dela, dormindo tambem, havia um homem, cujo braço estava passado por baixo do pescoço dela. Era o comandante Gabriel.
O seu primeiro impeto foi sacar do revólver, que tinha no bolso, e liquidar os dois. Uma nuvem de sangue passou-lhe diante dos olhos Mas a reação veio logo. Que direito tinha ele, agora, de impedir os amores da mãe? Lembrou-se, é certo, do gesto de furor do pai, gesto por ele surpreendido. O caso vinha, portanto, de traz. Mas si, estando o pai vivo, teria talvez o direito de ir até o assassinato de quem lhe manchava o lar, agora, não. A mãe era livre.
E foi recuando, decendo de vagarinho a escada.
Na véspera, nas poucas horas que estivera na cidade, soubera que o testamento paterno o constituia herdeiro universal.
O sôgro do velho engenheiro morto tinha querido o casamento da filha com separação de bens, para protegê-la. A medida se voltava agora contra ela. O marido, com pleno direito de fazê-lo, a desherdara completamente.
Raul, ao saber disso, se admirara. Pareceu-lhe que o pai deixara o caso a seu cuidado e não teve duvida alguma em que repartiria com a mãe, meio a meio, toda a grande fortuna que ia receber.
Mas, agora, diante do que vira, recordando o gesto de furor impotente do pai, não tinha duvida que, antes de morrer, este já sabia o que se passava. E bem provavelmente isso devia ter apressado a sua morte.
Resolveu que aceitaria a herança tal qual -- e faria doação da metade a algum estabelecimento pio. Responderia assim aos que atribuissem o seu procedimento á avidez.
Quando chegou ao sopé da escada, segurou pelo punho colericamente a criada da mãe, ordenando-lhe que o seguisse. Tomou então um cartão de visita, escreveu num canto "a despedir-se" e recomendou á rapariga que o entregasse á mãe; mas só quando ela acordasse. Não fosse acordá-la para isso. Era uma cousa sem importancia.
Minutos depois o seu cavalo voltava a galope. Pôde apanhar o trem que passava naquele instante e dois dias após voltava para Nova-York. Quando a mãe lhe escrevia, ele lhe devolvia as cartas, com a declaração: "O destinatario recusou-se a abrir" Mais nada.
terça-feira, 17 de fevereiro de 2015
Mãe Tapuia.
Medeiros e Albuquerque.
De Mãe Tapuia, http://www.brasiliana.usp.br/bbd/handle/1918/00171100#page/1/mode/1up .
'A Marcio Nery'.
Transcrição de Herculano de Lima Einloft Neto.
Iamos subindo o rio. Passavamos nesse momento uma garganta estreitissima, quando um tronco de arvore nos fechou o caminho. A corrente era naquelle logar pouco profunda; via-se a areia do leito a tão pequena distancia da superficie, que dalli até ás nascentes era facil ir a váo. O tronco, era impossivel arredal-o. Mettemo-nos resolutamente na agua, tomámos em mãos a pequenissima canôa de fundo chato, carregámo-la por terra até além do empecilho e continuámos a subir.
As margens eram de matta densa e virgem. Distinguiam-se apenas os dous renques de arvores e mal entre elles divisavam-se outras e outras indefinidamente. Raizes nodosas e informes serpenteavam dentro do rio, cheias de curvas e cotovellos, assustando ás vezes quando a trepidação da agua parecia fazel-as mover-se como enormes cobras. As ramarias de um e outro lado encontravam-se formando sobre nós um docel de folhagem, que o sol rasgava a custo aqui e alli, abrindo na agua clara poças douradas.
Parasitas vermelhas e azues pendiam desatadas em festões; cipós, de caule em caule, teciam rêdes intrincadas; longas 'barbas de velho' escorriam dos galhos altos, dando-lhes um ar triste de melancolia e vetustez. Vinha de todos os pontos ao mesmo tempo um chilrear confuso de passaros : e, si uns, de quando em quando, cortavam o espaço deante de nós, outros, abrindo vôo atravez dos ramos mais elevados, rasgavam a cupola e perdiam-se no ceu azul, adivinhado apenas dalli onde nós estavamos. Borboletas iam e vinham, subiam e desciam, na azafama multicor das azas leves, agitando-se e pousando em perpetuo afan. E passaros ou borboletas, ao passarem sobre o rio, desdobravam-se pelo reflexo, voando dentro da agua, nadando no ar sereno...
Chegámos emfim. Meus dous companheiros, Pedro e Thiago, eram dous caboclos amazonenses de sangue cruzado, dous curibocas escuros, quasi bronzeados, filhos de paes portuguezes e mães indias. Eram tão graves e serios, que nem mesmo sabiam rir, fechados como viviam em um mutismo indolente e inerte, indifferentes a tudo...
Atámos a canôa -- a 'montaria', como lá lhe chamam no Amazonas -- e trilhámos emfim terra firme : um atalho da floresta. Tinhamos ainda uma boa legua para andar e mettemo-nos a caminho decididamente : o Pedro na frente, eu no centro e o Thiago fechando a marcha. Não se dizia palavra. Ouvia-se sómente o pisar de folhas seccas e, do caboclo que ia adeante, o quebrar dos galhos, que por acaso bracejavam para a estrada, estorvando-a.
Tinhamos andado cerca de meia hora, quando o Pedro, voltando-se, apontou á esquerda e disse ao irmão :
-- 'Parésque' é alli a tapéra da 'véia'...
E seguiu, emquanto o outro se virava com interesse. Olhei tambem. Vi um casebre miseravel, feito de troncos de arvores e coberto de sapê. Grandes ramos sobre o tecto impediam que a herva secca fosse levada pelo vento. Do abandono e ruina em que jazia, davam evidentes provas a porta desmantelada, quasi a cahir, e a herva, em torno, crescendo alta e abundante, invadindo tudo, sem uma trilha qualquer calcada de pés humanos.
Mas o que havia de notavel era na frente uma cruz enorme feita de dous immensos galhos, atados um ao outro com embiras fortissimas. O ramo vertical estava fundamente enterrado no chão, e em volta do sopé, para garantir melhor a estabilidade, pedras pesadas erguiam-se em monticulo.
Iamos depressa; passámos rapidamente. Ficou-me, porém, a curiosidade e indaguei do Thiago de quem fôra aquella maloca, hoje abandonada. O curiboca contou singelamente.
Morava alli uma tapuia velha com dous netinhos. Morrera-lhe a filha, deixando apenas á sua solicitude aquellas duas crianças: uma dellas -- um pequerrucho -- com alguns mezes sómente e a outra, uma menina, com 10 annos. A velha, que mal podia comsigo, acolheu-os, entretanto; e mezes correram de perfeita paz. Uma noite, porém, a tapuia, picada de jararáca, entrou em casa arrastando-se. Matára a cobra, mas fôra mordida em uma das pernas, que lhe doia horrivelmente.
Mandou depressa a menina ao sitio do coronel Carvalho -- sitio vizinho, para onde nós iamos -- buscar remedio contra a mordedura. O remedio era uma 'pussanga' infallivel que ella mesmo preparára e de que, todavia, não tinha em casa nesse momento. Mas a pequena -- era já quasi noite -- perdeu-se no caminho e só no outro dia chegou ao seu destino, guiada por um 'regatão' que a encontrou. Quando, pois, ella veiu, acompanhada de mais gente, já era tarde.
Encontrou a velha espichada no chão, meio núa, inchada, com o rosto contorcido de dôr, as orbitas reviradas e sangrentas, por entre os dentes brancos uma espuma vermelha e negra... As mãos crispadas enterravam-se no chão; os pés estavam torcidos em uma contractura horrorosa... Os seios magros, flacidos, pelhanquentos, appareciam hediondos e descobertos... O pequenino, pelo habito de illudir o appetite mamando aquellas têtas estereis de velha, tinha ainda uma dellas entre os labios.
Farto de chupal-a, querendo talvez acordar a mãe-tapuia, cravára os dentinhos; o sangue máu e envenenado contaminára-o. Estava morto tambem, tambem inchado...
O curiboca contou tudo isso em meia duzia de palavras rudes e simples. Voltámos ao silencio. Ouvia-se sómente o pisar de folhas seccas, e do caboclo que ia adeante o quebrar dos galhos que por acaso bracejavam para a estrada, estorvando-a...
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015
Os caçadores de ratazanas.
De Horacio Quiroga.
De El Salvaje, http://www.medellindigital.gov.co/Mediateca/repositorio%20de%20recursos/Quiroga,%20Horacio/Quiroga_Horacio-El%20Salvaje.pdf, ou El Salvaje, Alianza Losada.
Tradução de língua espanhola para língua portuguesa do Brasil.
De Herculano de Lima Einloft Neto.
Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2015.
Uma sesta de inverno, as víboras de cascavel, que dormiam estendidas sobre a greda[1], se enrolaram bruscamente ao ouvir insólito ruído. Como a visão não é sua agudeza particular, as víboras se mantiveram imóveis, enquanto prestavam ouvido.
- É o ruído que faziam aqueles... - murmurou a fêmea.
- Sim, são vozes de homem; são homens - afirmou o macho.
E passando uma por cima da outra se retiraram vinte metros. Desde ali miraram. Um homem alto e loiro e uma mulher loira e corpulenta haviam se acercado e falavam observando os arredores. Logo, o homem mediu o solo a grandes passos, em tanto que a mulher cravava estacas nos extremos de cada reta. Conversaram depois, assinalando-se mutuamente lugares distintos, e por fim se afastaram.
- Vão a viver aqui - disseram as víboras - Teremos que ir-nos. Em efeito, ao dia seguinte chegaram os colonos com um filho de três anos e uma carreta em que havia catres, caixotes, ferramentas soltas e galinhas atadas à grade. Instalaram a barraca, e durante semanas trabalharam todo o dia. A mulher interrompia-se para cozinhar, e o filho, um ursinho branco, gordo e loiro, ensaiava de um lado a outro sua marcha de pato infantil.
Tal foi o esforço da gente aquela, que ao cabo de um mês tinham poço, galinheiro e rancho prontos ainda que a este faltavam ainda as portas. Depois, o homem ausentou-se por todo um dia, voltando ao seguinte com oito bois, e a chácara começou.
As víboras, entretanto, não se decidiram a ir-se de sua paragem natal. Costumavam chegar até a linda do pasto carpido, e desde ali miravam a tarefa do matrimônio. Um entardecer em que a família inteira havia ido aa chácara, as víboras, animadas pelo silêncio, se aventuraram a cruzar o perigoso páramo e entraram no rancho. Recorreram-no, com curiosidade cautelosa, esfregando sua pele áspera contra as paredes.
Mas ali havia ratazanas; e desde então tomaram carinho aa casa. Chegavam todas as tardes até o limite do pátio e esperavam atentas a que aquela ficasse só. Raras vezes tinham essa dita. E a mais, deviam se precaver das galinhas com frangos, cujos gritos, se as vissem, delatariam sua presença.
De este modo, um crepúsculo em que a larga espera havia-as distraído, foram descobertas por uma galinheta[2], que depois de manter um momento o bico estendido, fugiu a toda ala aberta, gritando. Suas companheiras compreenderam o perigo sem ver, e a imitaram.
O homem, que voltava do poço com um balde, se deteve ao ouvir os gritos. Mirou um momento, e deixando o balde no solo se encaminhou à paragem suspeitoso. Ao sentir sua aproximação, as víboras quiseram fugir, mas unicamente uma teve o tempo necessário, e o colono achou só ao macho. O homem jogou uma rápida olhada ao redor buscando uma arma e chamou, os olhos fixos no grande rolo escuro:
- Hilda! Alcança-me a enxada, ligeiro! É uma serpente de cascavel! A mulher correu e entregou ansiosa a ferramenta a seu marido. Atiraram logo longe, mais além do galinheiro, o corpo morto, e a fêmea o achou por casualidade ao outro dia. Cruzou e recruzou cem vezes por cima dele, e se afastou ao fim, vindo a instalar-se como sempre na linda do pasto, esperando pacientemente que a casa ficasse só.
A sesta calcinava a paisagem em silêncio; a víbora havia cerrado os olhos amodorrada, quando de pronto se fechou vivamente: acabava de ser descoberta de novo pelas galinhetas, que ficaram essa vez girando em torno seu, gritando todas a contratempo. A víbora manteve-se quieta, prestando ouvido. Sentiu ao momento ruído de passos -a Morte- Creu não ter tempo de fugir, e se aprestou com toda sua energia vital a defender-se.
Na casa dormiam todos, menos o garoto. Ao ouvir os gritos das galinhetas, apareceu na porta, e o sol queimante o fez cerrar os olhos. Titubeou um instante, preguiçoso, e ao fim se dirigiu com sua marcha de pato a ver a suas amigas as galinhetas. Na metade do caminho se deteve, indeciso de novo, evitando o sol com o braço. Mas as galinhetas continuavam em alarme girante, e o ursinho loiro avançou.
De pronto lançou um grito e caiu sentado. A víbora, presta de novo a defender sua vida, deslizou-se dois metros e bateu em retirada. Viu aa mãe em combinação e os braços desnudos assomar-se inquieta; a viu correr para seu filho, levantá-lo e gritar aterrada.
- Otto, Otto! O há picado uma víbora!
Viu chegar ao homem, pálido, e o viu levar em seus braços aa criatura atontada. Olhou a carreira da mulher ao poço, suas vozes. E ao momento, depois de uma pausa, seu alarido desgarrador:
- Filho meu!...
Notas de Tradução:
[1] greda, tipo de argila, barro ou calcário; greda branca, cré, etc..
[2] gallineta, galinha de Guiné, galinha d'angola, galinheta, etc..
Cf. Dicionário Collins Gem, Espanhol-Português, Português-Espanhol, Disal.
Cf. http://michaelis.uol.com.br/escolar/espanhol/ .
Cf. http://www.wordreference.com/ .
Cf. http://www.rae.es/recursos/diccionarios/drae .
Cf. http://www.priberam.pt/dlpo/Default.aspx , norma brasileira.
Cf. www.google.com.br .
sábado, 7 de fevereiro de 2015
Eu cito e transcrevo a seguir algumas de minhas referências gramaticais e de língua portuguesa do Brasil.
Cf. Barboza, Jeronymo Soares, As Duas Linguas, ou Grammatica Philosophica da Lingua Portugueza, Comparada Com a Latina, Para Ambas se aprenderem ao mesmo tempo, Real Impressão da Universidade, Coimbra, https://archive.org/details/asduaslinguasoug00barbuoft ,
"
(...)
'Não te pareça trabalho sobejo entender tanto na propria linguagem : porque , se fores bem doutrinado nella ; levemente o serás nas alheas. Este hé o modo , que tiveram todol-os Gregos , e Latinos : tomáram por fundamento saber primeiro o seo que o alheo'.
João de Barros. 'Dial. em louvor de nossa Linguagem'. Edic. de Lisboa. 1785. pag. 227.
Introducção
ENtre todos os que entendem de materias de Educação publica passou já em axioma que o primeiro estudo do Cidadão Nobre deve ser o de sua lingua , e o primeiro passo para elle o de sua Grammatica. A prova de que huma nação está mais , ou menos civilizada he , ou o cuidado em cultivar sua lingua sem desprezar as alheas , ou o de aprender as alheas , desprezando a sua ; como o he de sua negligencia o viver da industria e terreno alheo , desprezando o proprio.
Nem em aprender primeiro as linguas sabias que a nacional se ganha tempo , cuidando se perde em aprender primeiro a que já se sabe. He outro axioma igualmente assentado que o estudo da Grammatica propria facilita tanto o das Grammaticas estranhas , que os progressos , que nestas se havião de fazer em muito tempo , principiando por ellas , se vem a fazer em metade menos , começando da propria.
(...)
".
Cf. Assis, Machado de.
Cf. Azevedo, Artur.
Cf. Rabelo, Laurindo, Compendio de grammatica da lingua portugueza, Rio de Janeiro : Typographia Esperança de Gaspar João José Vellozo, 1872, http://www.brasiliana.usp.br/bbd/handle/1918/03585400#page/1/mode/1up .
Herculano de Lima Einloft Neto.
Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2017.
domingo, 11 de janeiro de 2015
Um Diagnóstico de Morte
De Ambrose Bierce.
De "Can Such Things Be?", http://www.gutenberg.org/dirs/etext03/canbe10h.htm .
Tradução de língua Inglesa para língua Portuguesa do Brasil
De Herculano de Lima Einloft Neto.
Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2015.
"Eu não sou tão supersticioso como alguns de seus médicos - homens de ciência, como vocês se aprazem em ser chamados," disse Hawver, replicando a uma acusação que não tinha sido feita. "Alguns de vocês - somente uns poucos, eu confesso - acreditam na imortalidade da alma, e em aparições que vocês não têm a honestidade de chamar fantasmas. Eu não vou mais longe do que uma convicção de que os viventes são algumas vezes vistos onde eles não estão, mas estiveram - onde eles viveram tão longamente, talvez tão intensamente, como a terem deixado sua impressão em tudo ao redor deles. Eu sei, de fato, que o ambiente de um pode ser tão afetado pela personalidade de um como a produzir, longamente depois, uma imagem do eu de um aos olhos de outro. Indubitavelmente a personalidade impressionante tem de ser o tipo certo de personalidade como os olhos que percebem[1] têm de ser o tipo certo de olhos - os meus, por exemplo."
"Sim, o tipo certo de olhos, transmitindo sensações ao tipo errado de cérebro," disse Dr. Frayley, sorrindo.
"Obrigado; um gosta de ter uma expectativa gratificada; essa é mais ou menos a resposta que eu supunha que você iria ter a civilidade de fazer."
"Perdoe-me. Mas você diz que você sabe. Isso é um bom bocado para dizer, você não acha? Talvez você não irá se importar com o problema de dizer como você aprendeu."
"Você irá o chamar uma alucinação," Hawver disse, "mas isso não importa." E ele contou a história.
"Último verão eu fui, como você sabe, passar o termo de tempo quente na cidade de Meridian. O parente em cuja casa eu tinha tencionado ficar estava doente, então eu procurei outros quartéis. Depois de alguma dificuldade eu fui bem sucedido em alugar uma residência vaga que tinha sido ocupada por um doutor excêntrico do nome de Mannering, que tinha ido embora anos antes, ninguém sabia para onde, nem mesmo seu agente. Ele tinha construído a casa ele-mesmo e tinha vivido nela com um servente velho por cerca de dez anos. Sua prática, nunca muito extensiva, tinha depois de uns poucos anos sido deixada de lado inteiramente. Não somente isso, mas ele tinha se retirado quase totalmente de vida social e se tornado um recluso. Foi me dito pelo doutor da vila, mais ou menos a única pessoa com quem ele tinha quaisquer relações, que durante sua aposentadoria ele tinha se devotado a uma linha única de estudo, o resultado de que ele tinha exposto em um livro que não se recomendava à aprovação de seus irmãos profissionais, que, de fato, o consideravam não inteiramente são. Eu não vi o livro e não posso agora recordar o título dele, mas é me dito que ele expunha uma teoria preferivelmente surpreendente. Ele mantinha que era possível no caso de muita uma pessoa em saúde boa predizer sua morte com precisão, vários meses em adiantamento do evento. O limite, eu penso, era dezoito meses. Havia lendas locais de ele ter exercido seus poderes de prognóstico, ou talvez você iria dizer diagnóstico; e era dito que em toda instância a pessoa cujos amigos ele tinha avisado tinha morrido subitamente no tempo apontado, e de nenhuma causa assinalável. Tudo isso, contudo, não tem nada a ver com o que eu tenho para dizer; eu pensei que isso poderia entreter um médico.
"A casa era mobiliada, justo como ele tinha vivido nela. Ela era uma residência preferivelmente melancólica para um que não era nem um recluso nem um estudante, e eu penso que ela deu alguma coisa de seu caráter a mim - talvez algo do caráter de seu ocupante anterior; pois sempre eu sentia nela uma certa melancolia que não era em minha disposição natural, nem, eu penso, devida a solidão. Eu não tinha nenhuns serventes que dormissem na casa, mas eu sempre fui, como você sabe, preferivelmente afetuoso de minha sociedade própria, sendo muito inclinado a leitura, embora pouco a estudo. Qualquer que fosse a causa, o efeito era depressão e um senso de mal impendente; isso era especialmente o caso no escritório de Dr. Mannering, embora aquele cômodo fosse o mais claro e mais aerado na casa. O retrato em tamanho natural do doutor em óleo se pendurava naquele cômodo, e parecia o dominar completamente. Não havia nada incomum na figura; o homem era evidentemente preferivelmente bem aparentado, com cerca de cinquenta anos de idade, com cabelo cinza-ferro, uma face suavemente-barbeada e olhos escuros, sérios. Alguma coisa na figura sempre atraía e segurava minha atenção. A aparência do homem se tornou familiar para mim, e preferivelmente me 'assombrava'.
"Uma noite eu estava passando através desse cômodo para meu quarto, com uma lâmpada - não há gás em Meridian. Eu parei como usual diante do retrato, que parecia à luz da lâmpada ter uma expressão nova, não facilmente nomeada, mas distintamente misteriosa. Ele me interessou mas não me perturbou. Eu movi a lâmpada de um lado para o outro e observei os efeitos da luz alterada. Enquanto assim engajado eu senti um impulso de me virar. Enquanto eu o fazia eu vi um homem se movendo através do cômodo diretamente em meu sentido! Tão logo ele veio próximo o suficiente para a luz da lâmpada iluminar a face eu vi que era Dr. Mannering ele-mesmo; era como se o retrato estivesse andando!
"'Eu peço seu perdão,' eu disse, algo friamente, 'mas se você bateu eu não ouvi.'
"Ele passou por mim, dentro do comprimento de um braço, levantou seu indicador direito, como em aviso, e sem uma palavra continuou para fora do cômodo, embora eu tenha observado sua saída não mais do que eu tinha observado sua entrada.
"De curso, eu não preciso dizer a você que isso era o que você irá chamar uma alucinação e eu chamo uma aparição. Aquele cômodo tinha somente duas portas, das quais uma estava trancada; a outra levava para dentro de um quarto, do qual não havia saída. Meu sentimento em perceber isso não é uma parte importante do incidente.
"Indubitavelmente isso parece a você uma 'história de fantasmas' muito lugar-comum - uma construída sobre as linhas regulares deitadas pelos mestres velhos da arte. Se isso fosse o caso eu não deveria ter a relatado, mesmo se ela fosse verdade. O homem não estava morto; eu o encontrei hoje na rua Union. Ele passou por mim em uma multidão."
Hawver tinha terminado sua história e ambos homens estavam silenciosos. Dr. Frayley distraidamente tamborilava sobre a mesa com seus dedos.
"Disse ele qualquer coisa hoje?" ele perguntou - "qualquer coisa de que você tenha inferido que ele não estava morto?"
Hawver olhou fixamente e não respondeu.
"Talvez," continuou Frayley, "ele fez um sinal, um gesto - levantou um dedo, como em aviso. É um truque que ele tinha - um hábito quando dizendo alguma coisa séria - anunciando o resultado de um diagnóstico, por exemplo."
"Sim, ele o fez - justo como sua aparição tinha feito. Mas, bom Deus! conheceu você alguma vez ele?"
Hawver estava aparentemente ficando nervoso.
"Eu o conhecia. Eu li seu livro, como irá todo médico algum dia. É uma das mais extraordinárias e importantes das contribuições do século para ciência médica. Sim, eu o conhecia; eu o atendi em uma doença três anos atrás. Ele morreu."
Hawver se levantou de um salto de sua cadeira, manifestamente perturbado. Ele caminhou adiante e para trás através do cômodo; então se aproximou de seu amigo, e em uma voz não totalmente firme, disse: "Doutor, tem você qualquer coisa para dizer para mim - como um médico?"
"Não, Hawver, você é o homem mais saudável que eu jamais conheci. Como um amigo eu o aconselho a ir para seu cômodo. Você toca o violino como um anjo. Toque-o; toque alguma coisa leve e viva. Tire esse negócio ruim amaldiçoado fora de sua mente."
O dia seguinte Hawver foi encontrado morto em seu cômodo, o violino ao seu pescoço, o arco sobre as cordas, sua música aberta diante dele na marcha fúnebre de Chopin.
Notas de Tradução:
[1] que percebem, ou percipientes, ou perceptivos.
Cf. Houaiss, Avery, Barsa.
Assinar:
Postagens (Atom)