Michael Kohlhaas[1]
De Heinrich von Kleist.
Parte 1/2.
Tradução de língua alemã para língua inglesa,
De John Oxenford. Em http://www.gutenberg.org/ebooks/32046 , https://archive.org/details/talesfromgermanc00oxenrich/page/n5/mode/2up .
Tradução de língua inglesa para língua portuguesa do Brasil,
De Herculano de Lima Einloft Neto.
Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2020.
Às margens do Hafel, ca. do meio do século dezesseis, vivia um comerciante de cavalos, nomeado Michael Kohlhaas. Ele era filho de um mestre-escola, e era uma das pessoas mais honestas, enquanto ao mesmo tempo ele era uma das mais terríveis do período. Até seu trigésimo ano esse homem extraordinário poderia ter passado como um padrão de um bom cidadão. Em uma vila, que ainda carrega seu nome, ele mantinha uma fazenda, em que, por meios de seus negócios, ele era permitido de viver quietamente. As crianças que sua mulher lhe gerou, ele criou no temor de Deus para honestidade e indústria; e não havia um dentre seus vizinhos que não tivesse sentido o benefício de sua delicadeza ou seu senso de justiça. Em resumo, o mundo poderia ter abençoado sua memória não tivesse ele carregado uma virtude a grande demais um extremo. O sentimento de justiça o fez um ladrão e um assassino.
Ele estava uma vez cavalgando no estrangeiro, com uma linha de cavalos jovens, todos polidos e bem alimentados, e estava calculando como ele deveria gastar o lucro que ele esperava fazer nos mercados--separando parte, como um bom gerente, para ganhar lucro adicional, e parte para desfrutação presente--quando ele veio ao Elbe, e encontrou, ao lado de um castelo imponente no domínio saxão, uma barra de taxa, que ele nunca tinha visto nessa estrada. Ele imediatamente parou com seus cavalos, enquanto a chuva estava caindo, e chamou pelo tomador-de-taxa, que em breve, com uma face muito zangada, espiou fora da janela. O comerciante de cavalos lhe pediu que abrisse a estrada. "Que nova moda é essa?" disse ele, quando, após um tempo considerável, o coletor saiu de sua casa. "Um privilégio soberano", foi sua resposta, enquando ele destrancava a barra, "garantido ao Junker[2][3] Wenzel von Tronka". "Então," disse Kohlhaas, "Wenzel é o nome do Junker, é?"--e ele olhou para o castelo, que, com suas muralhas resplandecentes, observava atentamente sobre o campo. "Está o velho mestre morto?" "De uma apoplexia," respondeu o coletor, enquanto ele levantava a barra. "Isso é uma pena!" disse Kohlhaas. "Ele era um gentil-homem velho valoroso, que tomava deleite no intercurso de homens, e ajudava negócios quando ele podia. Sim, uma vez ele teve uma represa construída de pedra, porque uma égua minha quebrou sua perna lá, onde o caminho leva à vila. Agora, quanto?" ele perguntou, e com dificuldade tirou de seu manto, que tremulava no vento, o groschen requerido pelo coletor. "Sim, homem velho", disse ele, enquanto o outro murmurava, "tenha pressa", e amaldiçoou o clima.--"Se a árvore da qual essa barra foi feita tivesse permanecido na floresta, isso teria sido melhor para ambos de nós". Tendo pago o dinheiro, ele iria ter perseguido sua jornada, mas escassamente tinha ele passado a barra do que ele ouviu atrás dele uma voz nova chamando da torre:
"Alô, lá, comerciante de cavalos!" e viu o castelão fechar a janela, e vir apressadamente abaixo para ele. "Agora, alguma coisa outra nova!" disse Kohlhaas para si mesmo, parando com seus cavalos. O castelão, abotoando um colete sobre seu estômago espaçoso, veio, e ficando de pé obliquamente contra a chuva, pediu por seu passaporte. "Passaporte!" gritou Kohlhaas; adicionando, um pouco perplexo, que ele não tinha um com ele, até onde sabia; mas que ele deveria gostar de que lhe contassem que tipo de coisa isso era pois ele poderia talvez estar provido de um, não obstante. O castelão, olhando para ele de viés, observou, que sem uma permissão escrita nenhum comerciante de cavalos, com cavalos, iria ser permitido de passar a fronteira. O comerciante de cavalos afirmou que ele tinha cruzado a fronteira dezessete vezes no curso de sua vida sem qualquer tal papel; que ele conhecia perfeitamente todos os privilégios senhoriais que pertenciam a seu negócio; que isso iria apenas se provar um erro, e que ele, portanto, esperava que ele pudesse ser permitido de o repensar; e, como sua jornada era longa, não ser detido assim inutilmente nada mais. O castelão respondeu que ele não iria escapar a décima-oitava vez; que o regulamento tinha somente tardiamente aparecido, e que ele precisava ou tomar um passaporte aqui ou retornar por onde ele tinha vindo. O comerciante de cavalos, que começou a ser irritado diante dessas cobranças ilegais, desmontou de seu cavalo, depois de refletir por um tempo, e disse que ele iria falar com o Junker von Tronka ele mesmo. Ele de acordo foi acima para o castelo, seguido pelo castelão, que murmurava alguma coisa sobre brigões-por-dinheiro avaros, e a utilidade de os fazer sangrar, e ambos, se medindo um ao outro com seus olhares, adentraram o hall.
O Junker, como acontecia, estava bebendo com alguns companheiros de benção, e eles todos rebentaram em um acesso incessante de riso por algum gracejo, quando Kohlhaas se aproximou para declarar sua queixa. O Junker lhe perguntou o que ele queria, enquanto os cavaleiros, olhando para o estranho, permaneciam parados; contudo dificilmente tinha ele começado seu pedido concernindo os cavalos, que a companhia toda gritou--"Cavalos! onde estão eles?" e correram para a janela para os ver. Não antes tinham eles posto olhos no lote brilhoso do que, no movimento do Junker, para baixo eles fugiram para dentro do pátio. A chuva tinha cessado; castelão, oficial de justiça e serventes, estavam coligidos em volta, e todos examinavam os animais. Um louvava o alazão com a mancha branca em sua testa, um outro gostava do castanho-avermelhado, um terceiro dava tapinhas no manchado com manchas fulvas, e concordavam que os cavalos eram como tantos veados, e que nenhuns melhores poderiam ser criados no campo. Kohlhaas, de bom humor, respondeu que os cavalos não eram melhores que os cavaleiros que deveriam os montar, e lhes pediu que fizessem uma compra. O Junker, que foi grandemente tomado pelo garanhão castanho-avermelhado forte, perguntou o preço, enquanto o oficial de justiça o pressionava para comprar um par de negros que ele pensava que poderiam ser empregados utilmente na propriedade; mas quando o comerciante de cavalos nomeou seus termos, os cavalheiros os acharam muito altos, e o Junker disse que ele poderia cavalgar para a távola redonda e achar Rei Artur se ele fixava tais preços como esses. Kohlhaas, que viu o castelão e o oficial de justiça sussurrando juntos, enquanto eles lançavam olhadas muitíssimo significantes sobre os negros, não deixou de fazer nada, motivado como ele estava por algum pressentimento escuro, para os fazer tomar os cavalos.
"Veja, senhor," ele disse ao Junker, "Eu comprei os negros por vinte e cinco coroas de ouro, seis meses atrás. Me dê trinta e eles são seus."
Dois dos cavaleiros, que ficavam de pé perto do Junker, disseram planamente o suficiente que os cavalos valiam bem o dinheiro; mas o Junker pensava que ele poderia comprar o alazão, enquanto ele objetava tomar os negros, e fez preparações para partir, quando Kohlhaas, dizendo que eles iriam concluir uma barganha a próxima vez que ele fosse esse caminho com seus cavalos, disse adeus ao Junker, e pegou as rédeas de seu cavalo para cavalgar embora. Nesse momento o castelão deu um passo a frente do resto, e disse que ele tinha lhe dito que ele não poderia viajar sem um passaporte. Kohlhaas, se virando, perguntou ao Junker se esse era mesmo o caso, adicionando que isso iria se provar a destruição final de seu negócio. O Junker, algo confuso, respondeu enquanto ele retrocedia,
"Sim, Kohlhaas, você precisa de um passe; fale sobre isso com o castelão, e siga seu caminho." Kohlhaas lhe assegurou que ele não tinha nenhuma noção de evadir tais regulamentos como poderiam ser feitos respeitando o transporte de cavalos, prometeu, eu seu caminho por Dresden, obter um passe do escritório do secretário, e pediu que ele poderia, nessa ocasião, ser permitido de ir em frente, como ele não sabia nada da requisição. "Bem," disse o Junker, enquanto a tempestade começava de novo e chocalhava contra seus membros finos, "Deixe o companheiro ir. Venham," disse ele para seus cavaleiros, e se movendo em volta, ele estava procedendo para o castelo. O castelão, contudo, se virando para ele disse que Kohlhaas precisava ao menos deixar alguma garantia de que ele iria obter o passaporte. O Junker, sobre isso, permaneceu de pé ao portão do castelo, enquanto Kohlhaas perguntava que segurança em dinheiro ou em contribuição ele deveria deixar por conta dos cavalos negros. O oficial de justiça balbuciou fora que ele pensava que os cavalos eles mesmos poderiam tão bem ser deixados. "Certamente," disse o castelão, "Esse é o melhor plano. Quando ele tiver o passe ele pode os levar embora qualquer hora."
Kohlhaas, chocado com tão impudente uma proposição, disse ao Junker, que estava tremendo e segurando seu colete justo a seu corpo, que ele deveria gostar de lhe vender os negros; mas o último, como uma rajada de vento dirigiu um mundo de chuva através do portão, gritou, para encurtar o assunto, "Se ele não deixar seus cavalos o lance sobre a barra de volta de novo!" e assim dizendo, deixou o local. O comerciante de cavalos, que viu que ele precisava dar caminho a força, resolveu, como ele não poderia fazer de outra maneira, se sujeitar com o pedido, então ele desatou os negros, e os conduziu a um estábulo que o castelão lhe mostrou, deixou um servente atrás, lhe deu dinheiro, lhe disse para cuidar dos negros até seu retorno, e duvidando se, por conta dos avanços feitos em criação, não pudesse haver tal uma lei em Saxônia, ele continuou sua jornada com o resto de seus cavalos para Leipzig, onde ele desejava atender à feira.
Tão logo ele alcançou Dresden, onde, em um dos subúrbios ele tinha uma casa com estábulos, estando no hábito de carregar adiante seu negócio de lá com os mercados menores do campo, ele foi ao escritório do secretário, e lá aprendeu dos conselheiros, alguns dos quais ele conhecia, o que ele tinha esperado primeiramente--nomeadamente, que a estória sobre o passaporte era uma mera fábula. Os conselheiros desagradados tendo, ao pedido de Kohlhaas, lhe dado um certificado quanto à nulidade da requisição, ele riu ao gracejo do Junker magro, embora ele não visse exatamente o propósito dele; e, tendo em poucas semanas vendido seus cavalos para sua satisfação, ele retornou ao Castelo Trunkenburg sem nenhum sentimento amargo além dos aos problemas gerais do mundo. O castelão, a quem ele mostrou o certificado, não deu nenhum tipo de explicação, mas meramente disse, em resposta à questão do comerciante de cavalos, se ele poderia ter os cavalos de volta novamente, que ele poderia ir e os pegar. Já, enquanto ele cruzava o pátio, Kohlhaas ouviu as novas desagradáveis de que seu servente, por conta de conduta imprópria, como eles disseram, tinha sido espancado e mandado embora poucos dias depois de ele ter sido deixado no Tronkenburg. Ele perguntou ao homem jovem que lhe deu essa inteligência, o que o servente tinha feito, e quem tinha atendido os cavalos no meio-tempo.
Ele respondeu que ele não sabia, e abriu a baia em que eles estavam mantidos para o comerciante de cavalos, cujo coração já se dilatava com pressentimentos escuros. Quão grande foi sua perplexidade quando, em vez de seus negros bem alimentados, brilhosos, ele viu um par de criaturas gastas, muito magras, com ossos em que coisas poderiam ter sido penduradas, como em ganchos, e crinas emaranhadas por falta de cuidado; em uma palavra, uma imagem verdadeira de miséria animal. Kohlhaas, para quem os cavalos rincharam com um leve movimento, estava indignado no grau mais alto, e perguntou o que tinha acontecido com as criaturas? O servente respondeu, que nenhum infortúnio particular tinha acontecido com elas, mas que, como tinha havido uma falta de gado de tiro, eles tinham sido usados um pouco nos campos. Kohlhaas amaldiçoou esse ato prearranjado e vergonhoso de poder arbitrário; mas, sentindo sua própria fraqueza, suprimiu sua ira, e, como não havia nada mais a ser feito, se preparou para deixar o ninho do ladrão com seus cavalos, quando o castelão, atraído pela conversa, fez sua aparição, e perguntou qual era a matéria.
"Matéria!" disse Kohlhaas, "quem permitiu Junker von Tronka e suas pessoas de usar no campo os animais que eu deixei?" Ele perguntou se isso era humanidade, tentou incitar as bestas exaustas por um golpe com uma vara, e lhe mostrou que elas não podiam se mover. O castelão, depois que ele tinha olhado para ele por um tempo, insolentemente o suficiente disse, "Agora, aí está um palhaço mal educado! Por que o companheiro não agradece a seu Deus que suas bestas ainda estão vivas?" Ele perguntou de quem era o negócio de tomar conta deles quando o garoto tinha fugido, e se não era justo que os cavalos devessem ganhar nos campos a comida que era dada a eles, e concluiu por lhe dizendo para parar de tagarelar, ou ele iria chamar para fora os cachorros, e obter alguma quietude naquele caminho de qualquer forma.
O coração do comerciante de cavalos bateu forte contra seu colete, ele se sentiu fortemente inclinado a lançar a massa de gordura inútil para dentro da lama, e pôr seu pé sobre sua fisionomia impudente. Contudo seu sentimento de direito, que era certo como uma balança de ouro, ainda hesitava; diante do tribunal de seu próprio coração, ele estava ainda incerto sobre se seu adversário estava no erro; e, enquanto aceitava as afrontas, ele foi para seus cavalos e aplainou suas crinas. Silenciosamente pesando as circunstâncias, ele perguntou, em uma voz suave, sobre que motivos o servente tinha sido mandado embora do castelo. O castelão respondeu que tinha sido porque o cafajeste tinha sido impudente. Ele tinha resistido a uma mudança necessário de estábulos, e tinha desejado que os cavalos de dois jovens nobres, que tinham vindo a Tronkenburg, devessem permanecer fora toda noite na estrada[4]. Kohlhaas iria ter dado o valor dos cavalos para ter tido o servente a seu lado, e ter comparado sua declaração com aquela do castelão com lábios grossos. Ele ficou de pé um tempo e suavizou os entrançados fora das crinas, refletindo ele mesmo o que era para ser feito em sua situação, quando subitamente a cena mudou, e o Junker von Tronka, com um bando de cavaleiros, serventes, e cachorros, retornando de uma caça a lebre galopou para dentro do pátio do castelo. O castelão, quando o Junker perguntou o que tinha acontecido, tomou cuidado para falar primeiro; e, enquanto os cachorros com a vista do estranho estavam latindo para ele em um lado, com a fúria máxima, e os cavaleiros do outro lado estavam tentando os silenciar, ele descreveu, distorcendo a matéria tanto quanto possível, a perturbação que o comerciante de cavalos tinha criado, porque seus cavalos tinham sido usados um pouco. Rindo com desprezo, ele adicionou que ele tinha recusado os reconhecer como seus próprios. "Eles não são meus cavalos, sua veneração!" gritava Kohlhaas; "esses não são os cavalos que valiam trinta coroas de ouro! Eu irei ter meus cavalos bem-alimentados e perfeitos." O Junker, cuja face se tornara pálida por um momento, desmontou e disse, "Se o cafajeste não for tomar seus cavalos, ora o deixe ir então. Venha Gunther, venha Hans," gritou ele, enquanto ele escovava a poeira de seus traseiros com sua mão. "E, ho! vinho lá!" ele chamou, enquanto ele atravessava o limiar com os cavaleiros e entrava em sua morada. Kohlhaas disse que ele iria antes mandar chamar o comprador de cavalos velhos e carcaças e ter os cavalos batidos na cabeça, do que ele iria os levar em tal uma condição para seu estábulo em Kohlhaasenbrück. Ele os deixou de pé onde eles estavam, sem se incomodar mais sobre eles, e fazendo voto de que ele iria ter justiça, se jogou em cima de seu cavalo marrom, e cavalgou embora.
Ele estava justamente partindo a toda velocidade para Dresden, quando, ao pensamento do servente, e à reclamação que tinha sido feita contra ele no castelo, ele começou a andar devagar, virou a cabeça de seu cavalo antes que ele tivesse ido mil passos, e tomou a estrada para Kohlhaasenbrück, que, de acordo com suas noções de prudência e justiça, ele poderia primeiro ouvir o relato do servente da matéria. Pois um sentimento correto, bem habituado aos caminhos defectivos do mundo, o inclinava, apesar das afrontas que ele tinha recebido, a passar sobre a perda de seus cavalos, como um resultado equitativo; se, de fato, como o castelão tinha mantido, pudesse ser provado que seu servente estivesse no erro. Pelo outro lado, um sentimento igualmente honorável, que ganhava chão enquanto ele cavalgava adiante, e ouvia, onde quer que ele parasse, dos errados que viajantes tinham que suportar todo dia no Tronkenburg, lhe dizia, que se a questão toda era um esquema concertado--como, de fato, parecia ser--era seu dever usar todo esforço para obter satisfação pelas afrontas que ele tinha suportado, e assegurar seus co-cidadãos para o futuro.
Tão logo quanto, em sua chegada a Kohlhaasenbrück, ele tinha abraçado sua boa esposa Lisbeth, e beijado suas crianças, que brincavam em volta de seus joelhos, ele inquiriu sobre seu servente chefe, Herse, e se qualquer coisa tinha sido ouvida dele.
"Sim, querido Michael," disse Lisbeth, "e somente pense--esse infeliz Herse veio aqui ca. de duas semanas atrás, espancado muitíssimo barbaramente--sim, tão espancado, que ele podia mal respirar. Nós o levamos para cama, quando ele cuspiu um bom bocado de sangue, e, em resposta a nossas repetidas perguntas, contou uma história que nenhum de nós poderia entender;--como ele foi deixado para trás por você no Tronkenburg com os cavalos, que não foram permitidos de passar, como ele foi forçado, pelo maltrato mais vergonhoso, a deixar o castelo, e como ele foi incapaz de trazer os cavalos com ele."
"De fato!" disse Kohlhaas, tirando seu manto, "está ele recuperado agora?"
"Toleravelmente," ela respondeu, "com a exceção do cuspir sangue. Eu desejei imediatamente mandar um servente para o Tronkenburg, para tomar conta dos cavalos até que você fosse lá, pois Herse tem sempre sido tão honesto, de fato tão muito mais leal a nós do que qualquer um outro, que eu nunca pensei de duvidar uma declaração suportada por tantos sinais evidentes de verdade, ou de acreditar que ele tivesse perdido os cavalos em qualquer outro jeito. Contudo ele me pediu para não aconselhar ninguém a se mostrar naquele ninho de ladrões, se eu não quisesse sacrificar um ser humano."
"Está ele ainda na cama?" perguntou Kohlhaas, desatando seu cachecol.
"Pelos últimos poucos dias ele tem ido por aí no pátio," ela respondeu--"em resumo, você irá ver que tudo é verdadeiro o suficiente, e que esse caso é uma das atrocidades que as pessoas no Tronkenburg têm ultimamente perpetrado contra estranhos."
"Isso eu preciso examinar," disse Kohlhaas. "O chame aqui, Lisbeth, se ele estiver de pé." Com essas palavras ele se sentou, enquanto a dona de casa, que estava satisfeita de o ver tão paciente, foi e buscou o servente.
"O que você tem estado fazendo no Tronkenburg?" perguntou Kohlhaas, enquanto Lisbeth entrava no quarto com ele. "Eu não estou bem satisfeito com você." O servente, em cuja face pálida uma mancha de vermelho apareceu a essas palavras, esteve silencioso por um momento, e então disse --
"Você está certo, mestre, pois eu joguei para dentro do Elbe um fósforo, que, por providência de Deus, eu tinha comigo, para pôr em fogo o ninho de ladrões, de que eu fui expulso, enquanto eu ouvia uma criança chorando de dentro, e pensei para mim mesmo -- 'O relâmpago de Deus pode o consumir, mas eu não irei.'"
"Mas o que você fez para ser mandado embora do Tronkenburg?" disse Kohlhaas, muito atingido.
"Foi por conta de um pedaço ruim de negócio," disse Herse, limpando a perspiração de sua testa; "mas não importa, 'o que não pode ser curado deve ser suportado.' Eu não iria permitir os cavalos de serem arruinados por trabalho de campo, e lhes disse que eles ainda eram jovens, e nunca tinham sido usados para puxar."
Kohlhaas, se esforçando para ocultar a perturbação de sua mente, observou, que Herse não tinha dito inteiramente a verdade nessa instância, já que os cavalos tinham estado em arreio um pouco durante a primavera precedente. "Como você era um tipo de convidado no castelo, você poderia ter os favorecido uma ou duas vezes, quando eles estavam forçados a pôr para dentro sua colheita tão rápido quanto eles pudessem."
"Assim eu o fiz, mestre," respondeu Herse, "Eu pensei, enquanto eles começavam a fazer caras tortas, que isso não iria nos custar os cavalos, de qualquer maneira. Na terceira manhã eu os pus também, e trouxe três cargas de milho."
Kohlhaas, cujo coração se dilatou, fixou seus olhos no chão, e disse, "Eles não me contaram nada disso, Herse."
O homem, contudo, lhe assegurou de que assim foi. "Minha incivilidade," ele disse, "consistiu nisto: que eu não iria permitir os cavalos de serem jungidos novamente, quando eles tinham mal tomado sua alimentação ao meio-dia, e que quando o castelão e o oficial de justiça me disseram para tomar forragem grátis, e embolsar o dinheiro que tinha sido me dado, eu lhes dei uma resposta curta, virei sobre meu calcanhar, e andei embora."
"Mas," disse Kohlhaas, "não foi por essa incivilidade que você foi mandado embora do Tronkenburg."
"Deus nos livre!" disse o homem, "isso foi por conta de um pedaço malvado de injustiça. Pois ao anoitecer, os cavalos de dois cavaleiros, que tinham vindo para o Tronkenburg, foram postos no estábulo, e os meus foram amarrados à porta do estábulo. E quando eu tomei os cavalos fora da mão do castelão, e lhe perguntei onde eles eram para ser mantidos, ele me mostrou uma pocilga, construída com tábuas e ripas contra a parede do castelo."
"Você quer dizer," interrompeu Kohlhaas, "que era tal um lugar ruim para cavalos, que era mais como uma pocilga do que um estábulo."
"Eu quero dizer uma pocilga, mestre," disse Herse, "realmente e verdadeiramente uma pocilga, onde os porcos corriam para dentro e para fora, e na qual eu não poderia ficar de pé vertical."
"Talvez não houvesse nenhum outro lugar para os cavalos," observou Kohlhaas, "e aqueles dos cavaleiros tinham, em alguma medida, a preferência."
"O lugar," respondeu o servente, baixando a voz, "era de fato estreito. Sete cavaleiros no total estavam ficando no castelo; mas se tivesse sido você--você iria ter posto os cavalos um pouco mais perto um do outro juntos. Eu disse que eu iria tentar contratar um estábulo na vila, mas o castelão objetou que ele precisava ter os cavalos sob seu próprio olho, e que eu não podia me aventurar a os mover do pátio."
"Hem!" pigarreou Kohlhaas, "o que você fez então?"
"Ora, como o oficial de justiça me disse que os dois convidados iriam somente parar para a noite, e iriam partir na manhã seguinte, eu guiei os cavalos para dentro da pocilga. Mas o próximo dia passou, e nada do tipo tomou lugar; e quando o terceiro veio, eu ouvi que os visitantes iriam permanecer no castelo por algumas semanas."
"Então, no fim," disse Kohlhaas "não era tão ruim na pocilga, como pareceu, quando primeiro você a examinou."
"Verdadeiro," respondeu Herse, "quando eu tinha varrido o lugar um pouco, ele era passável. Então eu dei à garota um groschen para pôr os porcos em algum outro lugar, e durante o dia, ao menos, eu consegui deixar os cavalos de pé verticais, pois eu tirei as tábuas do tope, quando a manhã alvoreceu, e as pus de volta novamente ao anoitecer. Eles espiaram para fora do telhado como tantos gansos, e olharam para Kohlhaasenbrück, ou algum lugar de qualquer maneira, onde eles iriam estar melhor."
"Mas agora," disse Kohlhaas, "por que no mundo eles lhe mandaram embora?"
"Porque, mestre," respondeu o homem, "eles queriam se livrar de mim; porque, enquanto eu estivesse lá, eles não poderiam arruinar os cavalos. No pátio, e na sala dos serventes, eles sempre faziam caras estranhas para mim, e porque eu pensava "vocês podem torcer suas bocas fora de junção[5], se vocês quiserem,' eles conseguiram encontrar um pretexto, e me expulsaram do pátio."
"Mas a razão," disse Kohlhaas, "eles devem ter tido alguma razão."
"Oh, certamente," respondeu Herse, "e uma muito boa também. Ao anoitecer do segundo dia que eu tinha passado na pocilga, eu tomei os cavalos, que tinham se tornado sujos, e estava indo para os guiar fora para água. Quando eu estava justamente no portão, e estava prestes a virar, eu ouvi o castelão e o oficial de justiça, com serventes, cachorros, e paus, passando com pressa sobre mim desde a sala dos serventes, e gritarem 'Pare o ladrão, pare o culpado!' como se eles estivessem todos possuídos. O porteiro interceptou minha passagem, e quando eu lhe perguntei a ele e à multidão barulhenta qual era a matéria, o castelão, pegando as rédeas dos dois cavalos, gritou, 'Matéria, de fato! Aonde você está indo com os cavalos?' e assim dizendo, me pegou pela gola. Ora, onde deveria eu estar indo?' disse eu, 'Eu estou indo para banhar os cavalos.' 'Oh, para banhar!' gritou o castelão, 'Eu irei banhar você! Eu irei lhe ensinar a nadar na estrada todo o caminho para Kohlhaasenbrück.' Após isso, ele e o oficial de justiça, que tinham segurado minha perna, me jogaram traiçoeiramente do cavalo, de forma que eu jazi de corpo inteiro na lama. 'Assassinato!' gritei eu, 'Há o arreio, e as roupas de cavalos, e um pacote de linho pertencendo a mim no estábulo.' Mas o castelão e os serventes, enquanto o oficial de justiça guiava fora os cavalos, me espancaram com chicotes, e porretes, e chutes, até que eu caí, meio morto, no portão. E quando eu disse, 'Onde estão os velhacos desonestos levando os cavalos?' e me levantei, 'Fora do pátio do castelo!' gritou o castelão. 'Alô lá, Caesar!--Alô, Touzer!--Alô, Pincher!' e imediatamente mais do que uma dúzia de cachorros voaram a mim. Nisso eu quebrei um pau ou alguma coisa da cerca, e deitei três dos cães mortos a meus pés; mas quando, torturado por suas presas, eu fui forçado a dar caminho, 'Fiu!' fez uma flauta--os cachorros estavam no pátio--bang fez o portão--o ferrolho foi fechado, e abaixo na estrada eu caí, inteiramente exausto."
Kohlhaas, embora sua face estivesse branca, afetou um estilo jocoso, e disse, "Agora, não desejou você se evadir, Herse?" e quando o homem, corando, olhou para o chão, ele adicionou, "Agora confesse, você não gostava da pocilga, você pensava o estábulo em Kohlhaasenbrück muito melhor--não?" "Trovão dos Céus!" exclamou Herse, "eu deixei o arreio e roupas de cavalo, e o pacote de linho na pocilga. Não deveria eu ter assegurado as três coroas que eu deixei no lenço de pescoço de seda vermelho, escondido atrás da manjedoura? Morte e o diabo!--Quando você fala assim, você me faz desejar acender aquele fósforo de novo que eu joguei fora;" "Não, não," disse Kohlhaas, "Eu não quis falar tão mal com você, eu acredito em toda palavra que você tem falado, e se houver qualquer conversa sobre isso, eu irei tomar o sacramento sobre isso; eu estou somente triste que você não tenha passado melhor em meu serviço. Vá para cama, Herse; vá para cama. Tome um frasco de vinho e se conforte--você deve ter justiça." Ele então levantou, pediu por uma lista de coisas que o homem tinha deixado na pocilga, especificou seu valor; lhe pediu os gastos de curar seus ferimentos, e, depois de apertar mãos com ele, o deixou ir.
Ele então contou a sua esposa, Lisbeth, os particulares todos do caso; disse que ele estava resolvido a clamar justiça pública, e ficou satisfeito de ver que nesse desígnio ela concordava totalmente com ele. Pois ela disse que muitos outros viajantes, provavelmente menos pacientes que ele, iriam passar pelo castelo, que seria um trabalho pio parar desordens como essas, e que ela iria logo juntar o suficiente para as despesas do processo. Kohlhaas a chamou de uma mulher querida, passou este e o próximo dia com ela e suas crianças, e, tão logo como os negócios permitiram, foi a Dresden para fazer sua queixa perante o tribunal.
Então com a ajuda de um advogado de seu conhecimento ele elaborou uma petição, em que, depois de uma declaração circunstancial da injustiça que o Junker Wenzel von Tronka tinha feito ambos a ele, e seu servente Herse, ele clamava que ele deveria ser punido de acordo com a lei, que seus cavalos deveriam ser restaurados a sua condição prévia, e que compensação deveria ser concedida pela injustiça que ele e seu servente tinham sofrido. O caso era claro o suficiente, o fato de que os cavalos tinham sido detidos ilegalmente jogava uma luz sobre todo o resto, e mesmo se fosse assumido que eles tinham sido prejudicados meramente por acaso, o clamor de seu dono para os ter de volta em uma condição saudável, era contudo justo. Além disso Kohlhaas tinha boa quantidade de amigos bons em Dresden, que prometeram de coração suportar sua causa, seu negócio extensivo em cavalos tinha lhe ganhado um conhecimento numeroso, e a honestidade de seus negócios tinha lhe adquirido a boa vontade dos homens mais importantes no país. Ele frequentemente jantava com seu advogado, que era ele mesmo um homem de consequência, lhe deu uma soma para custear as despesas de lei, e estando totalmente satisfeito por ele quanto ao resultado do processo, retornou, depois de poucas semanas para sua esposa em Kohlhaasenbrück. Contudo meses se passaram, e o ano estava quase em um fim, e ele não tinha ainda recebido de Saxônia nem mesmo uma declaração concernindo seu processo, muito menos a decisão em si. Depois que ele tinha recorrido ao tribunal várias vezes novamente ele perguntou a seu assistente legal em uma carta confidencial, o que podia ser a causa desse atraso monstruoso, e ficou sabendo que seu processo tinha sido posto de lado inteiramente em consequência de uma alta recorrência à suprema corte de Dresden. Em resposta a uma outra carta do comerciante de cavalos, expressa em termos de alta insatisfação, e perguntando uma razão para tudo isso, o jurista respondeu, que o Junker Wenzel von Tronka era aparentado a dois jovens gentis-homens, Herr[6] Henry e Herr Conrad von Tronka, um dos quais era ligado ao lorde copeiro, enquanto o outro era tesoureiro[7]. Ele lhe aconselhou, sem proceder mais adiante no processo, a tentar obter seus cavalos de volta do Tronkenburg, lhe deu a entender que o Junker, que estava agora na capital, tinha ordenado a seu pessoal para os retornar, e finalmente pediu a ele, se ele não iria estar satisfeito, de qualquer maneira não dar a ele (o escritor) nenhumas comissões ulteriores relativas à matéria.
A esse tempo, Kohlhaas acontecia de estar em Brandenburg, onde o prefeito (Stadt-hauptmann) Heinrich von Geusau, a cuja jurisdição Kohlhaasenbrück pertencia, estava ocupado em fundar várias instituições de caridade para os pobres e doentes, uma soma considerável, que tinha vindo à posse da cidade, sendo apropriada para esse propósito. Acima de tudo ele estava empenhado em converter uma nascente mineral, a fonte de qual era em uma vila vizinha, e concernindo as virtudes da qual mais altas expectativas eram levantadas do que preenchidas pelos partidos, ao uso de inválidos, e como Kohlhaas, em consequência de muitas transações que ele tinha tido com ele, durante sua permanência passageira na corte, era bem conhecido para ele, ele permitiu o servente Herse, que não tinha sido capaz de respirar sem uma dor no peito desde o dia infeliz em Tronkenburg, de tentar a pequena fonte, que estava agora fechada e sobre-telhada. Agora ocorreu que o prefeito estava de pé ao lado da banheira, em que Herse estava deitado ao lado de Kohlhaas, para fazer certos arranjos, quando o comerciante de cavalos recebeu de um mensageiro, mandado por sua mulher, a carta desanimadora de seu advogado em Dresden. O prefeito, que enquanto ele estava falando com o médico, viu Kohlhaas derramar uma lágrima sobre a carta que ele tinha justamente recebido e aberto, foi até ele em uma maneira gentil, e lhe perguntou que infortúnio tinha acontecido; e quando o comerciante de cavalos, em vez de responder, pôs a carta em sua mão, esse homem valoroso, a quem a injustiça abominável, que tinha sido feita no Tronkenburg, e em consequência de que Herse jazia doente diante dele, talvez para o resto da vida, era bem conhecida, lhe deu tapas no ombro, e lhe disse para não se desanimar, pois ele iria o ajudar a obter justiça. Ao anoitecer, quando o comerciante de cavalos, em conformidade com suas instruções, o visitou em seu castelo, ele lhe disse que ele precisava somente elaborar uma petição para o Eleitor de Brandenburg, com uma declaração curta de fatos, a anexar à carta do advogado, e clamar proteção senhorial por conta da violência que ele tinha sofrido no território saxão. Ele prometeu fechar a petição em um pacote, que jazia pronto à mão, e assim a pôr dentro das mãos do eleitor, que iria certamente, por sua própria conta, recorrer ao Eleitor de Saxônia, tão logo como as circunstâncias permitissem. Tal um passo era tudo que faltava para obter justiça do tribunal em Dresden, apesar dos truques de Junker von Tronka e seus aderentes. Kohlhaas, altamente deleitado, agradeceu o prefeito muitíssimo cordialmente, por essa nova prova de gentileza, lhe disse que ele estava apenas triste que ele não tinha imediatamente começado procedimentos em Berlim, sem tomar quaisquer passos em Dresden, e depois que ele tinha propriamente preparado a petição no escritório do secretário, e tinha a entregado ao prefeito, ele retornou a Kohlhaasenbrück melhor satisfeito que nunca quanto aos prospectos da questão. Em poucas semanas, contudo, ele teve a mortificação de saber, através de um juiz, que estava indo para Potsdam, sobre algumas questões do prefeito, que o eleitor tinha entregado a petição ao seu chanceler, Conde Kallheim, e que o último, em vez de ir imediatamente para a corte em Dresden para examinar a matéria e infligir punição, como parecia ser seu dever, tinha primeiro recorrido a informação para Junker von Tronka ele mesmo. O juiz[8], que parou em sua carruagem diante da porta de Kohlhaas, e que parecia ter sido expressamente comissionado para fazer essa comunicação, não pôde dar nenhuma resposta satisfatória à pergunta de sua surpresa: "Mas por que eles agiram nessa maneira?" ele meramente disse, que o prefeito tinha mandado palavra, lhe implorando para ser paciente, pareceu ansioso para prosseguir sua jornada, e não foi antes do final de uma curta conversa, que Kohlhaas ficou sabendo por umas poucas palavras esporádicas, que Conde Kallheim era relacionado por casamento aos von Tronka's. Kohlhaas, que não tinha mais qualquer deleite em atender seus cavalos, ou em sua casa e fazenda--apenas em sua mulher e filhos--esperou a chegada do próximo mês com os pressentimentos mais escuros, e foi inteiramente de acordo com suas expectativas, que quando o intervalo tinha passado, Herse, que tinha sido em alguma medida aliviado pelo banho, retornou de Brandenburg com uma carta do prefeito, acompanhando um papel de dimensões maiores. A carta era para o efeito que o escritor estava triste porque ele não poderia fazer nada por ele, mas que ele lhe mandava um decreto da corte de justiça, e lhe recomendava tomar embora os cavalos, que ele tinha deixado em Tronkenburg, e deixar a matéria toda cair. De acordo com o decreto, "ele era um litigante vexatório, sobre a informação do tribunal em Dresden; o Junker com quem ele tinha deixado os cavalos não fez nada para os deter; ele poderia mandar alguém ao castelo e os buscar, ou de qualquer forma deixar o Junker saber aonde ele era para os enviar, e de qualquer maneira ele era para se abster de incomodar a corte com tais brigas." Kohlhaas, para quem os cavalos não eram o objeto chefe--tivesse sido um par de cachorros ele iria ter sido igualmente mortificado--literalmente espumava de ira quando ele tinha recebido essa carta. Onde quer que houvesse um ruído na fazenda, ele olhava com a sensação repugnante que tinha mesmo movido seu coração para o portão, esperando ver os serventes do Junker, com seus cavalos esfomeados e gastos; este era o único caso em que sua mente, de outra maneira bem-treinada pelo mundo, não podia encontrar nada que exatamente correspondesse com seus sentimentos. Pouco tempo depois ele ficou sabendo por meio de um conhecimento, que tinha viajado naquele caminho, que os cavalos ainda eram usados com os do Junker em Tronkenburg para trabalho de campo, e no meio de sua dor em vendo o mundo em tal um estado de desordem, se levantou um sentimento de contentamento interior à medida que ele achou que havia ao menos alguma coisa como ordem em seu próprio coração. Ele enviou o proprietário das terras vizinhas, que tinha há tempo entretido a noção de aumentar suas posses por comprando os pedaços de chão contíguos, e lhe perguntou, quando ele tinha tomado um assento, o que ele iria dar por suas propriedades em Brandenburg e Saxônia, tomando casa e fazenda tudo em conjunto, com ou sem fixações[9]. Sua esposa Lisbeth se tornou pálida enquanto ela ouvia essas palavras. Se virando, ela pegou acima a criança mais nova, que estava brincando no chão atrás dela, e correu rapidamente para o comerciante de cavalos, e um papel que ele segurava em sua mão, olhadelas, em que dúvida estava escrita, e que passavam através das bochechas vermelhas do garoto, que estava brincando com as fitas no pescoço dela. O fazendeiro, que observava essa maneira confusa, lhe perguntou o que tinha posto tão estranho um pensamento todo de uma vez dentro de sua cabeça. Kohlhaas, com tanta alegria quanto ele podia assumir, respondeu que a noção de vender a fazenda às margens do Havel não era inteiramente nova, que eles tinham ambos frequentemente discutido essa matéria já, que sua casa nos subúrbios de Dresden era comparativamente um mero suplemento, não a ser considerado, e finalmente que se ele iria consentir com sua oferta e tomar ambas propriedades, ele estava inteiramente pronto para concluir o contrato. Ele adicionou, com um tipo de leviandade forçada, que Kohlhaasenbrück não era o mundo; que poderia haver propósitos, em comparação com os quais aquele de presidir sobre o lar de um, como um pai ordeiro, era trivial e subordinado, e que em resumo sua mente, como ele estava vinculado a dizer, estava posta sobre grandes matérias, de que talvez o fazendeiro iria em breve ouvir. O fazendeiro satisfeito com essa explicação, disse alegremente para a esposa, que beijava sua criança de novo e de novo: "Ele não irá querer pagamento imediato, irá ele?" e então deitando sobre a mesa o chapéu e pau que ele tinha até aqui carregado entre seus joelhos, ele tomou o papel que Kohlhaas tinha em sua mão para o ler. Kohlhaas se movendo para mais perto dele, explicou que esse era um contrato condicional que ele tinha elaborado, e que se tornaria absoluto em quatro semanas; mostrou que nada era requerido senão as assinaturas e o pagamento das duas somas, nomeadamente o dinheiro de compra e o preço de redenção, em caso ele devesse retornar dentro de quatro semanas, e novamente lhe pediu em um tom alegre para fazer uma proposta, lhe garantindo que ele iria ser razoável, e não iria hesitar sobre insignificâncias. A esposa andava para cima e para baixo no cômodo, seu coração palpitando a tal um grau que seu lenço, o qual a criança estava puxando, parecia pronto para cair de seus ombros. O fazendeiro disse que ele não tinha nenhuns meios de estimar o valor da propriedade de Dresden, depois do que Kohlhaas, empurrando para ele os documentos que tinham sido trocados quando ele a comprou, respondeu que ele a avaliava em cem coroas de ouro, embora parecesse claramente o suficiente dos documentos eles mesmos, que custara a ele quase a metade de novo. O fazendeiro, que revisou o contrato mais uma vez, e viu que em seu lado também a liberdade de se retrair era especialmente provida, disse, já meio determinado, que ele não poderia fazer uso do garanhão que estava nos estábulos; mas quando Kohlhaas respondeu que ele não desejava se separar dos cavalos, e que ele também desejava manter algumas armas que estavam penduradas na sala de armas, ele pigarreou e hesitou por um momento, e por final repetiu uma oferta que, meio em gracejo, meio em sério, ele tinha feito no curso de uma caminhada, e que não era nada comparada ao valor da propriedade. Kohlhaas lhe empurrou pena e tinta que ele pudesse escrever, e quando o fazendeiro, que não poderia confiar em seus sentidos, perguntou ao comerciante de cavalos se ele estava realmente sério, e o comerciante de cavalos algo rispidamente perguntou ao fazendeiro se ele pensava que ele poderia estar de gracejo, o último, com uma fisionomia algo escrupulosa, pegou a pena e escreveu. Ele riscou fora a parte relacionada à soma a ser paga, em caso de que o vendedor devesse se arrepender de sua barganha, se vinculou a um empréstimo de cem coroas de ouro sobre a segurança da propriedade de Dresden, que ele não iria em hipótese alguma consentir em comprar, e deu a Kohlhaas liberdade plena para retroceder de seu contrato dentro de dois meses. O comerciante de cavalos, tocado por essa conduta generosa, apertou a mão do fazendeiro muito cordialmente, e depois que eles tinham concordado sobre a condição chefe, que era que um quarto do dinheiro de compra deveria ser pago em dinheiro[10], e o resto no banco de Hamburgo três meses depois, ele chamou por vinho, que eles pudessem festejar uma barganha concluída tão felizmente. Ele disse à criada, que entrou com garrafas, que seu homem Sternbald era para pôr sela no cavalo castanho, dizendo que ele precisava cavalgar para a cidade, onde ele tinha negócios a transar, e dando a entender que quando ele retornasse ele iria falar mais abertamente sobre aquilo que ele precisava agora manter em segredo. Então enchendo os copos ele perguntou sobre os poloneses e os turcos, que estavam então em guerra uns com os outros, emaranhou o fazendeiro para dentro de todos tipos de conjeturas políticas sobre o assunto, e finalmente tomou um copo de despedida ao sucesso da barganha deles, e o despediu.
Não antes tinha o fazendeiro saído do cômodo, do que Lisbeth caiu sobre seus joelhos diante de seu marido. "Se," ela gritou, "você ainda retém qualquer sentimento por mim, e pelas crianças que eu lhe pari; se nós não estamos já jogados fora--por que causa eu não sei--me diga qual é o significado dessas preparações medonhas?"
"Nada, querida esposa, que possa a incomodar, como as matérias estão," respondeu Kohlhaas. "Eu recebi um decreto, em que é me dito que meu procedimento contra Junker von Tronka é mera briga vexatória; e porque deve haver algum mal-entendido nessa matéria, eu determinei começar meu processo uma vez mais, pessoalmente, com o soberano do país ele mesmo."
"Mas por que vender sua casa?" ela exclamou, enquanto ela se levantava do chão em confusão.
O comerciante de cavalos, a abraçando gentilmente, respondeu: "Porque, querida Lisbeth, eu não irei morar em um país em que meus direitos não são protegidos. Se eu sou para ser pisoteado sob pé, eu preferiria ser um cachorro do que um homem. Eu estou certo de que, nesse ponto, minha esposa pensa comigo."
"Mas como você sabe," ela perguntou, de modo selvagem, "que eles não irão o proteger em seus direitos? Se você se aproximar de nosso soberano tão modestamente como você deveria, com sua petição, como você sabe que ela será jogada de lado, ou respondida com uma recusa a o ouvir?"
"Bem então," respondeu Kohlhaas, "se meu medo se revelar sem fundamento, minha casa, de qualquer forma, não está vendida ainda. Nosso soberano ele mesmo, eu sei, é justo; e se eu puder ser bem sucedido em me aproximar de sua pessoa, através das pessoas que o cercam, eu não tenho dúvida que eu posso obter meus direitos, e antes que a semana tenha passado, posso retornar com prazer para você e para meu velho negócio de volta de novo. Possa eu então," ele adicionou, enquanto ele a beijava, "permanecer com você até o fim de minha vida! Contudo," ele continuou, "é aconselhável que eu deveria estar preparado para todo evento, e consequentemente eu desejo que você deixe esse lugar por um tempo, se possível, e vá, com suas crianças, para sua tia em Schwerin, a quem você tem sido longamente ansiosa para visitar?"
"Como," gritou a esposa. "Eu ir para Schwerin?--eu atravessar a fronteira com minhas crianças, para ir para minha tia em Schwerin?" E a voz dela foi sufocada com horror.
"Certamente," respondeu Kohlhaas, "e, se possível, imediatamente, que eu não possa ser impedido nos passos que eu estou prestes a tomar nessa matéria."
"Oh, eu entendo você," ela exclamou. "Você não quer nada senão armas e cavalos; o resto qualquer um pode tomar que quiser." E assim dizendo, ela se jogou abaixo sobre um assento e chorou.
Kohlhaas, muito perplexo, disse: "Querida Lisbeth, o que você está fazendo? Deus me abençoou com esposa, crianças, e propriedade; devo eu desejar, pela primeira vez, que tivesse sido de outra maneira?" E ele sentou ao lado dela num ânimo bondoso, enquanto ela, a essas palavras, caiu corando sobre o pescoço dele. "Me diga," ele disse, movendo os cachos da testa dela, "o que sou eu para fazer? Devo eu desistir de minha causa? Devo eu ir a Tronkenburg, e pedir ao cavaleiro por meus cavalos, os montar, e então cavalgar para casa para você?"
Lisbeth não se aventurou a responder "Sim;" ela balançou a cabeça, chorando, o abraçou fervorosamente, e cobriu seu peito com beijos ardentes.
"Bom!" gritou Kohlhaas. "Então, se você sente que eu preciso ter justiça, se eu sou para carregar adiante meu negócio, me garanta a liberdade que é necessária para a obter." Após isto ele se levantou, e disse à servente, que lhe disse que seu cavalo castanho estava com sela, que os cavalos precisavam ser postos em arreio o dia seguinte, para levar sua esposa para Schwerin. Subitamente Lisbeth dizendo que um pensamento tinha lhe ocorrido, se levantou, limpou as lágrimas de seus olhos, e lhe perguntou, enquanto ele se sentava em uma escrivaninha, se ele não poderia lhe dar a petição, e a deixar ir a Dresden em vez dele, para a apresentar ao soberano.
Kohlhaas, golpeado por essa virada repentina, por mais razões do que uma, a trouxe para ele, e disse: "Querida esposa, isso é impossível! O soberano é cercado por muitos obstáculos, e a muitos aborrecimentos é a pessoa exposta que se aventura a se aproximar dele."
Lisbeth replicou que a aproximação iria ser mil vezes mais fácil para uma mulher do que para um homem. "Me dê a petição," ela repetiu; "e se você não deseja nada mais do que saber que ela está nas mãos dele, eu irei o garantir."
Kohlhaas, que tinha frequentemente conhecido instâncias da coragem dela tanto como de sua prudência, lhe perguntou como ela tencionava o fazer. Após o que ela lhe disse, pendurando baixa sua cabeça embaraçada, que o castelão do castelo eleitoral tinha outrora a cortejado, quando ela servia em Schwerin; que era verdade que ele era agora casado, e tinha muitos filhos, mas que ela poderia ainda não estar inteiramente esquecida--em resumo, ela lhe pediu permissão para tomar vantagem dessa e de outras circunstâncias, que seria supérfluo nomear. Kohlhaas beijou a direita dela com alegria, lhe disse que ele aceitava sua proposição, e que nada mais era necessário do que ela ficar com a esposa do castelão, para assegurar uma entrevista com o soberano, lhe deu a petição, teve os cavalos marrons de arreios postos, e a mandou embora, seguramente acompanhada sob o cuidado de seu servente leal, Sternbald.
De todos os passos mal-sucedidos que ele tinha tomado no caso esta jornada se provou a mais desafortunada. Pois, em poucos dias, Sternbald retornou à fazenda, guiando lentamente ao longo o veículo em que Lisbeth jazia esticada, com um ferimento[11] perigoso em seu seio. Kohlhaas, que se aproximou dele pálido e aterrorizado, não pôde ficar sabendo de nada conectado quanto à causa desta calamidade. O castelão, de acordo com o relato do servente, não tinha estado em casa, eles tinham, portanto, sido obrigados ficar em uma taverna na vizinhança do castelo; esta taverna Lisbeth tinha deixado na manhã seguinte, e tinha dito ao homem para permanecer com os cavalos; não foi até o anoitecer que ela retornou, na condição em que ela era vista. Parecia que ela tinha pressionado adiante muito corajosamente para o soberano, e que, sem qualquer falta da parte dele, ela tinha recebido um golpe no seio, da seta de uma lança, através do zelo rude de um dos guardas que o cercavam. Ao menos assim diziam as pessoas que, ao anoitecer, a trouxeram para a taverna em um estado de insensibilidade, pois ela ela mesma poderia falar somente pouco, sendo impedida pelo sangue que fluía de sua boca. A petição foi depois tomada dela por um cavaleiro. Sternbald disse que ele tinha desejado imediatamente partir a cavalo e informar seu mestre do infortúnio que tinha acontecido, mas que, apesar de todas as representações do cirurgião que tinha sido chamado, ela tinha insistido em ser transportada para seu marido em Kohlhaasenbrück. A jornada tinha a exaurido inteiramente, e Kohlhaas a pôs em uma cama, onde ela jazeu alguns dias tentando com dificuldade tomar sua respiração[12]. Vãos foram todos os empenhos para a resturar a consciência, que ela pudesse jogar alguma luz sobre os eventos; ela jazeu com com seus olhos fixos, e já vítreos, e não retornou nenhuma resposta. Somente uma vez, justamente antes de sua morte recuperou ela seus sentidos. Pois, como um ministro da religião luterana (a cuja fé recentemente nascida ela tinha se vinculado, através do exemplo de seu marido) estava ficando de pé ao lado de sua cama, e com uma voz alta e solene estava lendo para ela um capítulo tirado da Bíblia, ela olhou para ele subitamente, com uma expressão sombria, tomou a bíblia fora de sua mão, como se não houvesse nada nela para ser lido para ela, virou as folhas de novo e de novo, como se ela estivesse procurando por alguma coisa, e por fim indicou para Kohlhaas, que estava sentado ao lado da cama, o verso: "Perdoai vossos inimigos--faça o bem para eles que o odeiam!" Ela então pressionou a mão dele, com um golpe de vista muitíssimo significante, e expirou. "Possa Deus nunca me perdoar como eu perdôo o Junker," pensou Kohlhaas--e ele a beijou, enquanto suas lágrimas estavam fluindo rápidamente, fechou os olhos dela e saiu correndo do quarto. As cem coroas de ouro, que o fazendeiro tinha já lhe adiantado sobre os estábulos de Dresden ele tomou, e tratou de um funeral que parecia menos adequado a Lisbeth do que a uma princesa. O caixão era de carvalho, fortemente coberto com metal, as almofadas eram de seda com borlas douradas e prateadas, e a sepultura, que tinha oito varas de profundidade, estava alinhada com pedras e cal. Ele mesmo, com a criança mais nova em seus braços, ficou de pé ao lado do túmulo, e observou o progresso do trabalho. Quando o dia de enterro veio o corpo estava disposto, tão branco como neve, em um quarto, que ele tinha alinhado com tecido negro. O ministro tinha justamente terminado um discurso tocante ao lado da armação com rodas para transportar caixões, quando o decreto do soberano em resposta à petição, que a falecida tinha apresentado, foi posto nas mãos de Kohlhaas. O teor era, de que ele deveria pegar[13] os cavalos do Tronkenburg, e não fazer nenhumas recorrências posteriores nessa matéria sob pena de prisão. Kohlhaas guardou a carta, e ordenou que o caixão fosse colocado na armação com rodas. Tão logo como o montículo foi levantado, a cruz foi posta sobre ele, e os convidados, que tinham assistido ao funeral tinham sido despedidos, ele se jogou abaixo uma vez mais diante da cama deserta de sua esposa, e então começou o trabalho de vingança. Tomando um assento, ele elaborou um decreto, em que, por virtude de seu poder inato, ele condenava o Junker Wenzel von Tronka, dentro de três dias após a vista desse, a trazer de volta a Kohlhaasenbrück os cavalos que ele tinha tomado, e que ele tinha estragado por trabalho de campo, e os alimentar em pessoa em seus estábulos até que eles fossem restaurados a sua condição boa. Esse papel ele transmitiu por um mensageiro a cavalo, a quem ele instruíu a retornar a Kohlhaasenbrück imediatamente depois de ter o entregado. Os três dias tendo passado e nenhuns cavalos tendo sido entregados, ele chamou Herse a ele, o informou da nota que ele tinha dado ao Junker concernindo a alimentação, e lhe perguntou qual de duas coisas ele iria fazer: se ele iria ir com ele ao Tronkenburg e buscar o Junker, ou se, quando ele fosse trazido a ele, ele iria segurar o chicote sobre ele, em caso ele devesse se provar preguiçoso em obedecer o decreto nos estábulos de Kohlhaasenbrück. Herse gritou para fora, "Nos deixe começar hoje, mestre," e lançando seu quepe para dentro do ar jurou que ele iria ter uma correia torcida em dez nós para ensinar a arte de surrar. Kohlhaas vendeu sua casa, enviou suas crianças em um veículo sobre a fronteira, chamou, em adição a Herse, o resto de seus serventes, sete em número, e todos tão verdadeiros como aço, ao aproximar da noite, os armou, os montou, e partiu para o Tronkenburg.
A noite terceira estava avançando, quando com seu bando pequeno, cavalgando sobre o tomador-de-taxa e o porteiro, que estavam de pé conversando ao lado do portão, ele se lançou sobre o Tronkenburg. Enquanto, em meio ao estalar das dependências, em que os homens puseram fogo, Herse voou acima da escada em caracol para a torre do castelão, e cortou e espetou[14] o castelão e o oficial de justiça, que estavam em lazer, meio despidos. Kohlhaas foi correndo para dentro do castelo para achar Junker Wenzel. Assim descende o anjo de julgamento do Céu, e o Junker, que, entre gargalhadas estrepitosas, estava lendo para um grupo de jovens amigos, o decreto, que o comerciante de cavalos tinha lhe enviado, não antes ouviu a voz dele no pátio, do que ele gritou para o resto, pálido como morte, "Salvem-se a si mesmos, irmãos!" e desapareceu imediatamente. Kohlhaas, que, entrando no hall, pegou pelo peito e lançou no canto, um Junker Hans von Tronka, que estava avançando para ele, de forma que seus miolos ficaram espalhados nas pedras, perguntou, enquanto seus serventes sobrepujavam e dispersavam os outros cavaleiros, que tinham tomado acima suas armas: "Onde está Junker von Tronka?" E quando, enquanto os cavaleiros surpreendidos professavam sua ignorância, ele tinha, com um golpe de seu pé, rebentado abertas as portas de dois quartos, que levavam para dentro das alas do castelo, e depois de procurar pelo prédio espaçoso em todas direções, ainda não achou ninguém, ele foi, amaldiçoando para baixo para dentro do pátio, para que ele pudesse guardar todo egresso. No meio tempo, inflamado pelas chamas das dependências, o castelo ele mesmo, com todas suas alas, pegou fogo, e jogou volumes de fumaça preta para os céus, e enquanto Sternbald, com três companheiros ativos, dragou junto tudo em que eles puderam pôr as mãos, e o lançou sobre seus cavalos como prêmio lícito, os corpos mortos do castelão e do oficial de justiça, com suas esposas e crianças, voaram fora da janela superior, acompanhados pelos gritos de Herse. Kohlhaas, a cujos pés, enquanto ele descia as escadas, a velha governanta gotosa do Junker se atirou, lhe perguntou, enquanto ele pausava em um dos degraus: "Onde está Junker von Tronka?" Quando, com uma voz trêmula fraca, ela respondeu, que ela pensava que ele tivesse fugido para a capela; ele chamous por dois serventes com tochas, quebrou aberta uma entrada com pés de cabras e machadinhos, por falta de uma chave, e virou de cabeça para baixo os altares e bancos. Ainda nenhum Junker foi achado, para a grande tristeza de Kohlhaas. Ocorreu, justamente enquanto ele estava saindo da capela, que um garoto--um dos serventes no Tronkenburg--corria por perto para tomar os corcéis do Junker fora de um estábulo de pedra grande, que estava ameaçado pelas chamas. Kohlhaas, que nesse momento viu seus próprios dois cavalos negros em um galpão de palha pequeno, perguntou ao garoto, por que ele não salvava a 'eles', e quando o último, enquanto ele punha a chave na porta de estábulo, respondeu que o galpão já estava em chamas, ele arrancou a chave fora da porta, a lançou sobre a parede, e guiando o garoto com uma fartura de golpes do plano de sua espada, para dentro do galpão ardente, o compeliu a salvar os cavalos dentre o riso medonho dos espectadores. Quando, em poucos momentos, o garoto, pálido como morte, veio com os cavalos fora do galpão que caiu atrás dele, Kohlhaas não estava mais lá, e quando ele se juntou aos serventes no pátio, e então perguntou ao comerciante de cavalos o que ele era para fazer com os animais, Kohlhaas levantou seu pé com tal violência, que teria sido fatal tivesse o atingido, saltou para cima de seu cavalo marrom sem dar qualquer resposta, foi sob o portão do castelo, e enquanto seus homens levavam adiante o trabalho deles, quietamente esperou o alvorecer do dia. Quando a manhã chegou, o castelo todo estava queimado, com exceção das paredes nuas, e ninguém estava no local senão Kohlhaas e seus homens. Ele desmontou de seu cavalo uma vez mais nos raios brilhantes do sol, procurou todo canto do lugar, e quando, difícil como era ser convencido, ele viu que seu empreendimento no castelo tinha falhado, seu coração se dilatando com tristeza e dor, ele enviou Herse com alguns dos outros para obter inteligência sobre a direção que o Junker tinha tomado em fuga. Um convento rico, chamado Erlabrunn, que estava situado nas margens do Mulde, e a abadessa de qual, Antonia von Tronka, era bem conhecida no local como uma dama benevolente e pia, o deixou particularmente desconfortável, pois parecia para ele apenas provável demais que o Junker, privado como ele estava de todo necessário de vida, tivesse tomado refúgio neste asilo, já que a abadessa era sua tia, e tinha o educado nos seus primeiros anos. Kohlhaas sendo informado dessa circunstância, ascendeu a torre do castelão, dentro da qual ele encontrou um quarto que era ainda habitável, e preparou o que ele chamou "Mandato Kohlhaasico", em que ele desejava que o país inteiro não desse nenhuma assistência qualquer a Junker von Tronka, com quem ele estava engajado em guerra legítima, e vinculava todo habitante, não excetuando seus amigos e relações, para o entregar para ele o sobredito Junker, sob pena de vida e membro, e conflagração de tudo que pudesse ser chamado propriedade. Essa declaração ele distribuiu através do país ao redor, por meio de viajantes e estranhos. Para seu servente, Waldmann, ele deu uma cópia com o encargo especial de que ela era para ser posta nas mãos da Dama Antonia em Erlabrunn. Ele depois ganhou alguns dos serventes do Tronkenburg, que estavam descontentes com o Junker, e tentados pelo prospecto de pilhagem, desejavam entrar em seu serviço. Estes ele armou à moda de infantaria com punhais e barras, os ensinando a sentar atrás dos serventes a cavalo. Depois de ter tornado em dinheiro tudo que as tropas tinham juntado, e dividido o dinheiro entre eles, ele descansou de sua ocupação triste por algumas horas, sob o portão do castelo.
Herse retornou ca. meio-dia, e confirmou as suspeições sombrias, que ele tinha já sentido em seu coração, nomeadamente, que o Junker estava no convento em Erlabrunn, com sua tia, a dama Antonia von Tronka. Ele tinha, parecia, escapulido através de uma porta atrás do castelo, que levava para o ar aberto, e descido um estreito lance de escadas de pedra, que, sob um pequeno teto, ia abaixo para alguns barcos no Elbe. Ao menos Herse lhe disse que ca. meia-noite ele chegou a uma vila no Elbe em um barco sem um leme, para a grande surpresa das pessoas, que estavam coligidas juntas por conta do fogo no Tronkenburg, e que ele tinha procedido para Erlabrunn em um vagão. Kohlhaas suspirou profundamente a essa inteligência; ele perguntou se os cavalos tinham tido seu pasto, e quando seus homens responderam no afirmativo, ele ordenou a tropa inteira a montar, e em três horas estava diante de Erlabrunn. Enquanto uma tempestado distante estava murmurando no horizonte, ele entrou no pátio do convento com seu bando, iluminado por tochas, que ele tinha acendido diante do lugar. O servente, Waldmann, que o encontrou, lhe disse que ele tinha dado a cópia do mandato, quando ele viu a abadessa e o bedel do convento falando em uma maneira agitada abaixo do portal. O último, um homem velho pequeno, com cabelo branco como a neve, dardejando golpes de vista ferozes para Kohlhaas, ordenou sua armadura de ser lhe posta, e com uma voz corajosa disse aos serventes que estavam de pé a redor dele para tocar o sino de alarme, enquanto a abadessa com um crucifixo de prata em sua mão, descia, branca como sua própria vestimenta[15], da plataforma fixa, e com todas suas donzelas, se jogava diante dos cavalos de Kohlhaas. Kohlhaas, ele mesmo, enquanto Herse e Sternbald sobrepujavam o bedel, que não tinha espada, e estavam o levando para fora para os cavalos como um prisioneiro, lhe perguntou: "Onde está Junker von Tronka?" Quando, tirando de sua cinta um grande molho de chaves, ela respondeu: "Em Wittenberg, homem valoroso," e em uma voz trêmula, adicionou: "Tema a Deus e não faça nada errado," o comerciante de cavalos, jogado de volta para dentro do inferno de vingança desapontada, volteou seu cavalo, e estava no ponto de gritar fora: "Ponham fogo!" quando um relâmpado monstruoso caiu na terra a seus pés. Kohlhaas, novamente virando seu cavalo para ela, perguntou se ela tinha recebido seu mandato, e quando com uma voz mal audível e fraca, ela disse: "Apenas justamente agora, ca. duas horas depois de que meu sobrinho tinha partido,"--e Waldmann, sobre quem Kohlhaas lançou golpes de vista suspeitos, gaguejou fora uma confirmação da declaração, dizendo, que a água do Mulde tinha estado em cheia pela chuva, e tinha o impedido de chegar mais cedo, ele se recompôs. Uma queda de chuva súbita, que extinguiu as tochas, e matraqueou nas pedras, pareceu aliviar a angústia de seu coração desgraçado; ele mais uma vez se virou, tocando seu chapéu para a dama, e gritando: "Irmãos, me sigam,--o Junker está em Wittenberg," bateu esporas[16] em seu cavalo e deixou o convento.
Ao cair da noite ele ficou em uma taverna na estrada, onde ele teve de descansar um dia por causa da grande fadiga de seus cavalos, e como ele via planamente, que com uma tropa de dez homens (tal era sua força agora), ele não poderia atacar um lugar como Wittenberg, ele elaborou um segundo mandato, em que, depois de narrar estritamente o que tinha acontecido a ele, ele chamava, para usar suas próprias palavras, "Todo bom cristão para esposar sua causa contra Junker von Tronka, o inimigo comum de todos cristãos, com a promessa de uma soma de dinheiro, e outras vantagens de guerra." Em um terceiro mandato ele se chamava a si mesmo um "Soberano, livre do império e do mundo, sujeito a Deus só;" um pedaço desgostoso e mórbido de fanatismo, que não obstante acompanhado como estava com o tinido de dinheiro e a esperança de pilhagem, conseguiu uma acessão para seus números da populaça, a quem a paz com Polônia tinha privado de um meio de vida. De fato seu bando somava a mais de trinta, quando ele virou costas à margem esquerda do Elbe para deitar Wittenberg em cinzas. Com seus homens e cavalos ele tomou abrigo sob o teto de um galpão arruinado velho na profundeza de uma floresta sombria, que naqueles dias cercava o lugar, e ele não antes ficou sabendo de Sternbald, que o mandato, com que ele tinha o enviado para dentro da cidade disfarçado, tinha sido feito conhecido, do que ele partiu com seu bando--era véspera de Pentecostes,--e enquanto os habitantes jaziam adormecidos, pôs fogo no lugar em muitas esquinas. Ele então, com seus homens, pilhou os subúrbios, fixou um papel ao batente de porta de uma igreja, em que ele dizia que "Ele, Kohlhaas, tinha posto fogo na cidade, e que se o Junker não fosse entregado a ele, ele iria a deitar em cinzas de tal forma, que ele não teria de olhar atrás de uma parede para o encontrar." O terror dos habitantes a essa atrocidade sem paralelo foi indescritível, e as chamas, que em uma noite de verão particularmente calma, não tinham consumido mais do que dezenove casas, incluindo uma igreja, sendo extinguidas em alguma medida ca. do amanhecer, o velho governador (Landvoigt), Otto von Gorgas, enviou uma companhia de ca. cinquenta homens, para capturar o invasor medonho. O capitão dessa companhia, cujo nome era Gerstenberg, administrou tão mal, que a expedição, em vez de derrotar Kohlhaas, antes o ajudou a chegar até uma reputação militar muito perigosa; pois enquanto ele separou seus homens em várias divisões, de forma que ele pudesse, como ele pensava, cercar e controlar Kohlhaas, ele foi atacado pelo último, que manteve seus homens proximamente juntos nos diferentes pontos isolados, e foi tão batido, que ao anoitecer do dia seguinte, nem um único homem do bando todo restou para enfrentar o agressor, embora nesse bando descansassem todas as esperanças do país. Kohlhaas, que não tinha perdido nenhum de seus próprios homens no encontro, pôs fogo na cidade de novo na manhã seguinte, e seus planos criminosos foram tão bem planejados que um número de casas, e quase todos os celeiros dos subúrbios foram reduzidos a cinzas. Ele então novamente divulgou seu decreto, e isso nas esquinas da residência urbana, adicionando um relato do destino de Capitão von Gerstenberg, que o governador tinha enviado contra ele, e que ele tinha demolido. O governador, grandemente irado frente a esse desafio, se colocou com vários cavaleiros na frente de um bando de cento e cinquenta homens. A Junker von Tronka, que tinha lhe enviado uma petição escrita, ele deu uma guarda, para o proteger da violência do povo, que desejava que ele fosse expelido da cidade sem mais barulho, e depois que ele tinha posto guardas em todas as vilas ao redor, e também tinha guarnecido as paredes da cidade para a defender de uma surpresa, ele partiu no dia de São Gervas, para capturar o dragão que estava assim deitando devastado o país. O comerciante de cavalos foi habilidoso o suficiente para evitar essa tropa, e depois que ele tinha, por suas retiradas engenhosas, atraído embora o governador cinco milhas da cidade, e tinha o feito acreditar por várias preparações que se pressionado por números ele iria se jogar pasra dentro de território de Brandenburg, ele subitamente deu meia volta à aproximação da noite terceira, e galopando de volta a Wittenberg pela terceira vez para lhe pôr fogo. Esse ato medonho de audácia foi alcançado por Herse, que tinha entrado na cidade disfarçado, e a conflagração, através da ação de um vento norte cortante foi tão destrutiva, e estendeu suas devastações tão longe que em menos de três horas, quarenta e duas casas, duas igrejas, várias escolas e conventos, e a residência do governador foram niveladas com o chão. O governador, que acreditava que seu adversário estivesse em Brandenburg, ao romper do dia, encontrou a cidade em um alvoroço geral, quando tendo sido informado do que tinha se passado, ele retornou por marchas forçadas. O povo tinha se reunido por milhares diante da casa de Junker von Tronka, que estava fortificada com tábuas e paliçadas, e com as vozes de maníacos estavam demandando que ele deveria ser mandado embora da cidade. Em vão mostraram dois burgomestres, nomeados Jenkens e Otto, que apareceram à frente de toda a magistratura, vestidos em mantos de ofício, a necessidade de esperar pelo retorno de um mensageiro que tinha sido mandado à chancelaria para pedir permissão para mandar o Junker para Dresden, para onde ele ele mesmo, por muitas razões, desejava ser removido; a turba, surda a razão, e armada com piques e bastões não iria ouvir nada, e eles não apenas maltrataram alguns membros do conselho, que estavam urgindo medidas severas demais, mas eles estavam no ponto de demolir a casa do Junker, quando o governador, Otto von Gorgas, apareceu na cidade à frente de sua tropa a cavalo. Este venerável homem nobre, cuja presença sozinha tinha usualmente causado ao povo respeito e obediência, tinha sido bem-sucedido em capturando três soldados extraviados do bando do incendiário aos portões mesmos da cidade, como se por jeito de compensação pela falha de seu empreendimento; e como, enquanto esses companheiros eram carregados com correntes em vista do povo, ele assegurou os magistrados, em um endereçamento próprio, que ele pensava que ele estava em um caminho justo[17] para capturar Kohlhaas ele mesmo, e em um curto tempo o trazer, também em correntes, ele foi bem-sucedido em desarmar a ira da multidão reunida, e em os apaziguando, em alguma medida, quanto ao Junker permanecer entre eles, até o retorno do mensageiro de Dresden. Ele desmontou do cavalo, e com alguns dos seus cavaleiros, as paliçadas sendo removidas, ele entrou na casa, aonde ele achou o Junker, que estava continuamente desmaiando, nas mãos de dois médicos, que, pela ajuda de essências e estimulantes, estavam se empenhando em o restaurar a consciência. Herr Otto von Gorgas, sentindo que este não era o momento para brigar com o Junker sobre sua má conduta, meramente lhe disse, com um olhar de contempto silencioso, para se vestir, e para sua própria segurança, para o seguir para apartamentos na prisão. Quando eles tinham o posto em um gibão, e colocado um elmo sobre sua cabeça, e ele apareceu na rua com seu peito meio aberto por falta de ar, se apoiando no braço do governador e seu cunhado, Conde von Gerschau, as imprecações mais medonhas ascenderam aos céus. A turba, mantida atrás com dificuldade pelos soldados, o chamou um sanguessuga, uma peste miserável para o país, a maldição da cidade de Wittenberg, e a destruição de Saxônia. Depois de uma procissão melancólica através das ruínas, durante a qual o Junker frequentemente deixou o elmo cair de sua cabeça sem o perder, e um cavaleiro tão frequentemente o pôs de volta de detrás dele, ele chegou à prisão, e desapareceu para dentro de uma cidade sob a proteção de uma guarda forte. No meio tempo, a cidade foi jogada em novo alarme pelo retorno do mensageiro com o decreto eleitoral. Pois o governo, tendo ouvido às aplicações dos cidadãos de Dresden, não iria ouvir do Junker tomar sua residência nessa cidade principal, até que o incendiário fosse conquistado; mas encarregava o governador de o proteger, onde quer que ele pudesse estar, e se lembrar de que ele precisava estar contente com tais forças como ele tinha. Ele, contudo, informou a boa cidade de Wittenberg, para acalmar inquietação, porque uma tropa de quinhentos forte, sob o comando de Príncipe Frederic, de Misnia, estava avançando para a proteger de molestações adicionais por Kohlhaas. O governador via planamente que um decreto desse tipo não iria por nenhuns meios satisfazer o povo, já que não somente tinham as muitas pequenas vantagens que o comerciante de cavalos tinha ganhado em diferentes pontos diante da cidade, causado relatórios muitíssimo alarmantes de serem espalhados quanto a seu aumento de força, mas a guerra que ele continuava na escuridão de noite, com piche, palha, e enxofre, ajudada por uma populaça em disfarce, poderia, sem exemplo como ela era, completamente frustrar uma força protetora maior do que aquela que estava vindo com o Príncipe de Misnia. Portanto, depois de uma curta reflexão, o governador resolveu suprimir o decreto. Ele meramente divulgou nas esquinas da cidade, uma carta, em que o Príncipe de Misnia anunciava sua chegada. Uma carreta coberta, que deixou o pátio da prisão ao romper do dia, acompanhada por quatro guardas a cavalo, fortemente armados, passou ao longo da rua para Leipzig, os guardas causando que fosse vagamente relatado que ela estava indo para o Castelo Pleissenburg. O povo sendo assim apaziguado quanto ao infortunado Junker, a cuja presença fogo e espada estavam vinculados, o governador ele mesmo partiu com uma tropa de trezentos homens, para se juntar a Príncipe Frederic de Misnia. No meio tempo, Kohlhaas, pela posição singular que ele tinha tomado no mundo, tinha aumentado sua força para cento e dez pessoas; e como ele tinha obtido um bom armazém de armas em Jessen, e tinha armado seu bando na mais perfeita maneira, ele não foi antes informado do ataque duplo, do que ele resolveu o encontrar com toda velocidade possível, antes que ele devesse quebrar sobre ele. Portanto, na noite seguinte ele atacou o Príncipe de Misnia, próximo a Mühlberg, em cujo encontro, para sua grande tristeza, ele perdeu Herse, que caiu a seu lado no primeiro fogo[18]. Contudo, enfurecido por essa perda, ele derrotou de tal forma o Príncipe, que foi incapaz de coligir sua força junta, em uma disputa de três horas, que ao romper do dia, por conta de várias feridas, e da mesma maneira da desordem total de seus homens, ele foi forçado a retroceder para Dresden. Animado por essa vantagem Kohlhaas retornou sobre o governador, antes que ele pudesse ter recebido inteligência do evento, se lançou sobre ele em um campo aberto próximo à vila de Damerow em plena luz do dia, e lutou com fúria até o cair da noite, sofrendo perda terrível, mas ainda com igual vantagem. A manhã seguinte inquestionavelmente, com o restante de sua força, ele teria novamente atacado o governador, que tinha se atirado para dentro do pátio-de-igreja em Damerow, se o último não tivesse sido informado da derrota do príncipe próximo a Mühlberg, e portanto tomado como aconselhável uma vez mais retornar a Wittenberg, e esperar uma oportunidade melhor. Cinco dias depois da dispersão dessas duas forças, Kohlhaas estava diante de Leipzig, e pôs fogo na cidade em três lados. No mandato que ele distribuiu nessa ocasião ele chamou a si mesmo, "Vice-regente de Michael o Arcanjo que tinha vindo para vingar, com fogo e espada, a vilania para dentro da qual o mundo inteiro tinha caído, sobre todos os que tivessem tomado o partido do Junker nessa luta." Ao mesmo tempo desde o Castelo Lützen, de que ele tinha tomado posse, e no qual ele tinha se estabelecido, ele pedia ao povo para se juntar a ele, e trazer[19] uma ordem melhor de coisas. O mandato estava assinado, como se por um tipo de loucura: "Dado em nome de[20] nosso governo-mundial provisório, -- o Castelo de Lützen." Felizmente para os habitantes de Leipzig, o fogo não pegou por conta da chuva contínua, e além do mais os meios de extinguir sendo usados com grande prontidão, apenas umas poucas lojas por volta do Castelo Pleissenburg rebentaram em fogo. Não obstante o alarme da cidade à presença do incendiário violento, e a noção dele de que o Junker estava em Leipzig, foi indescritível; e quando um corpo de cento e oitenta cavalarianos rasos, que tinham sido enviados contra ele, retornaram à cidade em confusão, a magistratura, que não desejava pôr em perigo a propriedade do lugar, não tiveram nenhum outro curso deixado a eles senão fechar os portões, e pôr os cidadãos para vigiar dia e noite fora das paredes. Em vão divulgaram eles declarações nas vilas circunvizinhas, que o Junker não estava no Pleissenburg; o negociante de cavalos em papéis similares afirmava o contrário, e declarava que mesmo se o Junker não estivesse no Pleissenburg, ele iria não obstante proceder justamente na mesma maneira, até que eles lhe informassem onde ele realmente estava. O eleitor, instruído por um mensageiro do perigo em que a cidade de Leipzig estava, declarou que ele estava coligindo uma força de dois mil homens, e que ele iria se pôr à frente dela, para capturar Kohlhaas. Ele severamente reprovou Otto von Gorgas pelo estratagema indiscreto que ele tinha empregado para remover o incendiário da vizinhança de Wittenberg, e ninguém pode descrever o alarme que se levantou em Saxônia em geral, e na capital em particular, quando os habitantes ficaram sabendo que uma mão desconhecida tinha divulgado nas vilas perto de Leipzig, uma declaração de que Junker Wenzel estava com seus exércitos em Dresden.
Sob essas circunstâncias, Dr. Martin Luther, suportado pela autoridade que ele devia a sua posição no mundo, tomou sobre si mesmo pela força de palavras chamar de volta Kohlhaas para dentro do caminho de ordem, e confiando a um elemento próprio no coração do incendiário, causou um cartaz, redigido como segue, de ser colocado em todas as cidades e vilas do eleitorado:
"Kohlhaas--tu que pretendes que tu és deputado a manejar a espada de justiça, o que estás tu fazendo, presunçoso, na loucura de tua paixão cega, tu que estás cheio de injustiça desde a coroa de tua cabeça até a sola de teu pé? Porque teu soberano, cujo súdito tu és, tem recusado a ti justiça, tu ergues em homem sem Deus, a causa de bem mundial, com fogo e espada, e invades como o lobo do deserto sobre a comunidade pacífica que ele protege. Tu, que desencaminhas humanidade por uma declaração cheia de mentira e artifício, acreditas tu, pecador que tu és, que o mesmo pretexto irá te beneficiar diante de Deus naquele dia quando os recessos de todo coração devem ser revelados? Como podes tu dizer que justiça tem sido negada--tu, cujo coração selvagem, excitado por um espírito mau de vingança[21], inteiramente desistiu do problema de a procurar depois da falha de teus primeiros empenhos triviais? É um banco de bedéis e oficiais de justiça, que interceptam cartas, ou mantêm para si mesmos o conhecimento que eles deveriam comunicar, o poder que governa? Preciso eu te dizer, homem ímpio, que teu governante não sabe nada de teu caso? O que eu digo? Ora que o soberano contra quem tu te rebelas nem mesmo sabe teu nome, e que quando tu apareceres diante do trono de Deus, pensando em o acusar, ele com uma fisionomia serena irá dizer: 'Senhor a este homem eu não fiz nenhum mal, pois sua existência é estranha para minha alma.' Saibas que a espada que tu carregas é a espada de roubo e assassinato; tu és um rebelde e nenhum guerreiro do Deus justo. Teu fim sobre terra é a roda e a forca, e teu fim depois daqui é aquela condenação que ameaça o trabalhador de mal e impiedade.
"Wittenberg.
"MARTIN LUTHER."
No Castelo de Lützen Kohlhaas estava meditando, em sua mente doente, um plano novo para reduzir Leipzig a cinzas, não prestando nenhuma atenção à notícia fixada nas vilas, de que Junker Wenzel estava em Dresden, porque ela não tinha nenhuma assinatura, embora ele tivesse requerido uma dos magistrados; quando Sternbald e Waldmann perceberam com a maior surpresa o cartaz que tinha sido fixado à noite contra o portão do castelo. Em vão esperaram eles por muitos dias que Kohlhaas, a quem eles não desejavam se aproximar para o propósito, iria o ver. Sombrio e meditando em seus próprios pensamentos, ele meramente apareceu no anoitecer para dar alguns comandos curtos, e não viu nada, e consequentemente uma manhã, quando ele estava prestes a enforcar dois de seus homens, que tinham estado pilhando na vizinhança contra sua vontade, eles resolveram atrair sua atenção. Ele estava retornando do lugar de julgamento, com a pompa a que ele tinha se acostumado desde seu último mandato, enquanto o povo timidamente abria caminho em ambos lados. Uma grande espada de querubim sob uma almofada de couro vermelho, adornada com borlas de ouro era carregada diante dele, e doze serventes o seguiam com tochas acesas. Os dois homens, com suas espadas sob seus braços, andaram em volta do pilar ao qual o cartaz estava fixado, de forma a acordar a surpresa dele. Kohlhaas, como com suas mãos trancadas atrás dele, e afundado profundamente em pensamento, ele veio sob o portal, levantou seus olhos e estancou; e enquanto os homens timidamente se retiravam de sua vista, testemunhando a confusão, ele se aproximou do pilar com passos apressados. Mas quem deve descrever o estado de sua mente, quando ele viu sobre o pilar o papel que o acusava de injustiça, assinado com o mais caro e mais reverenciado nome que ele conhecia--o nome de Martin Luther? Um vermelho profundo cobriu sua face; tirando seu elmo ele o leu duas vezes do início ao fim; então com olhares incertos passou para trás dentre seus homens como se prestes a dizer alguma coisa, e contudo não disse nada; então tomou o papel da parede, o leu uma vez mais, e gritou enquanto ele desaparecia: "Waldmann ponha sela em meus cavalos, Sternbald me siga para dentro do castelo!" Mais do que essas poucas palavras não era necessário para o desarmar de uma vez entre todos seus propósitos de distinção.
Ele pôs o disfarce de um fazendeiro turingiano[22], disse a Sternbald que negócios de importância o chamavam a Wittenberg, lhe confiou, na presença de alguns de seus homens principais, com o comando do bando deixado em Lützen, e prometendo retornar em três dias, dentro de cujo tempo nenhum ataque era para ser temido, partiu para Wittenberg imediatamente.
Ele ficou em uma taverna sob um nome falso, e ao aproximar da noite, envolvido em seu manto, e provido de um cinto de pistolas[23] que ele tinha pegado no Tronkenburg, andou para dentro do apartamento de Luther. Luther estava sentado a sua escrivaninha, ocupado com seus livros e papéis, e tão logo ele viu o estranho de aparência extraordinária abrir a porta, e então a trancar atrás de si, ele perguntou quem ele era e o que ele queria. O homem, reverentemente segurando seu chapéu em sua mão, tinha não antes respondido, com algum receio quanto ao alarme que ele poderia ocasionar, que ele era Michael Kohlhaas, o comerciante de cavalos, do que Luther gritou "Fora contigo," e adicionou, enquanto ele levantava de sua escrivaninha para soar o sino: "Teu hálito é pestífero, e tua aproximação é destruição!"
Kohlhaas, sem se mover do local disse: "Reverendo, Senhor, esta pistola, se você tocar no sino, me deita um corpo a seus pés. Se sente e me ouça. Entre os anjos, cujos salmos você escreve, você não está mais a salvo do que comigo."
"Mas o que tu queres?" perguntou Luther, se sentando.
"Refutar sua opinião de que eu seja um homem injusto," respondeu Kohlhaas. "Você disse em seu cartaz que meu soberano não sabe nada de meus casos. Bem, me dê um salvo-conduto, e eu irei ir a Dresden, e deitá-lo diante dele."
"Homem terrível e sem Deus!" exclamou Luther, tanto perplexo quanto alarmado por essas palavras, "Quem te deu um direito para atacar Junker von Tronka, com nenhuma outra autoridade do que teu próprio decreto, e então, quando tu não o achaste no castelo, visitar com fogo e espada toda comunidade que o protegeu?"
"Agora, reverendo Senhor," respondeu Kohlhaas, "a inteligência que eu recebi de Dresden me desencaminhou! A guerra que eu continuo com a comunidade de humanidade é injusta, se eu não tenho sido expulso dela, como você me assegura!"
"Expulso dela?" gritou Luther, olhando para ele, "Que loucura é essa? Quem te expulsou da comunidade do estado em que tu estás vivendo? Quando, desde a existência de estados, houve uma instância de tal uma expulsão de qualquer um, quem quer que ele pudesse ser?"
"Eu o chamo expulso," respondeu Kohlhaas, apertando seu punho, "a quem a proteção das leis é negada! Essa proteção eu requeiro para continuar em meu negócio pacífico; é somente pelo bem dessa proteção que, com minha propriedade, eu tomo refúgio com essa comunidade, e aquele que ma nega me guia de volta para as bestas do deserto, e põe em minha própria mão, como você não pode negar, o cacete que é para me defender."
"Mas quem tem negado a ti a proteção das leis?" gritou Luther, "Não escrevi eu eu mesmo que a queixa que foi enviada por ti ao eleitor, é ainda desconhecida dele? Se seus serventes suprimem processos pelas costas dele, ou abusam de seu nome sagrado, sem conhecimento dele, quem senão Deus deve o chamar para prestar contas pela escolha de tais serventes, e quanto a ti, homem abominável, quem te autorizou a julgar dele?"
"Bem," respondeu Kohlhaas, "então se o eleitor não me expulsa, eu irei retornar de volta para a comunidade que está sob sua proteção. Me dê, como eu disse antes, um salvo-conduto para Dresden, e eu irei dispersar o bando que eu tenho reunido no Castelo de Lützen, e irei uma vez mais trazer o processo, com que eu falhei, diante do tribunal do país."
Luther, com uma fisionomia insatisfeita, virou os papéis que jaziam sobre sua mesa e ficou silencioso. A posição corajosa que esse homem tomava no estado o ofendia, e pensando sobre o decreto que tinha sido enviado para o Junker desde Kohlhaasenbrück, ele perguntou "o que ele queria do tribunal em Dresden?"
"A punição do Junker, de acordo com a lei," respondeu Kohlhaas, "a restauração de meus cavalos a sua condição prévia, e compensação pela injúria que foi sofrida por ambos eu e meu homem Herse, que caiu em Mühlberg, através da violência infligida sobre nós."
"Compensação por injúria!" gritou Luther, "Ora tu tens levantado somas pelos milhares de Judeus e Cristãos, em títulos e penhores, para a satisfação de tua vingança selvagem. Irás tu fixar um montante se devesse haver uma questão sobre isso?"
"Deus nos livre," disse Kohlhaas, "eu não peço de volta novamente minha casa e fazenda, ou a riqueza que eu possuía--não mais do que as despesas de enterrar minha mulher! A velha mãe de Herse irá trazer um relato de despesas médicas, e uma especificação do que seu filho perdeu em Tronkenburg, enquanto pelo dano que eu sustentei por não vender meus cavalos, o governo pode estabelecer isso por um arbitrador."
"Homem incompreensível e terrível," disse Luther, olhando fixamente para ele. "Quando tua espada tem infligido sobre o Junker a mais medonha vingança que pode ser concebida, o que pode te induzir a pressionar por uma sentença contra ele, a severidade de que, se ela devesse tomar efeito, iria infligir uma ferida de tal importância leve?"
Kohlhaas respondeu, enquanto uma lágrima rolava abaixo em sua bochecha: "Reverendo Senhor, o caso me custou minha mulher. Kohlhaas iria mostrar ao mundo que ela não caiu no cumprimento de nenhuma injustiça. Conceda a minha vontade nestes pontos, e deixe o tribunal falar. Em toda outra matéria que possa vir sob discussão, eu cedo."
"Olha," disse Luther, "o que tu pedes, supondo circunstâncias de serem tais como a voz geral relata, é justo; e se tu tivesses te empenhado, sem te vingares tu mesmo por tua própria conta, em pôr teu caso perante o eleitor para sua decisão, eu não tenho dúvida de que teu pedido teria sido concedido, em todo ponto. Mas todas as coisas consideradas, não irias tu ter feito melhor, se, pelo bem de teu Redentor, tu tivesses perdoado ao Junker, tomado os cavalos, magros e gastos como eles estavam, os montado, e cavalgado para casa sobre eles para os engordar no próprio estábulo deles em Kohlhaasenbrück."
"Eu poderia ou eu poderia não," respondeu Kohlhaas, indo para a janela, "Tivesse eu sabido que eu deveria ter de os instalar com o sangue do coração de minha própria mulher, então, reverendo Senhor, eu poderia ter feito como você diz, e não ter feito com má vontade por um recipiente de aveias. Mas agora elas me custaram coisas tão queridas, que a matéria, como eu penso, teria melhor tomado seu curso. Então deixe a sentença ser passada como é meu direito, e deixe o Junker alimentar meus cavalos."
Luther, no meio de pensamentos contendentes, novamente retornou a seus papéis, e disse que ele iria ele mesmo se comunicar com o eleitor sobre o caso. No meio tempo ele disse a Kohlhaas para se manter quieto no Castelo de Lützen, adicionando, que se o eleitor consentisse em um salvo-conduto ele deveria ser feito conhecido para ele por meio de cartazes. "Se," ele adicionou, enquanto Kohlhaas se inclinava para a frente para beijar sua mão, "o eleitor irá mostrar misericórdia em vez de justiça, eu não sei, pois eu entendo que ele tem coligido um exército, e está no ponto de te pegar no Castelo de Lützen. Não obstante, como eu te disse antes, não haverá nenhuma vontade de problema de minha parte." Após isso ele se levantou e parecia prestes a o despedir. Kohlhaas pensava que essa intercessão era perfeitamente satisfatória, e Luther estava sinalizando um adeus com sua mão, quando o primeiro subitamente caiu sobre seu joelho diante dele, e disse que ele tinha um pedido fundo no coração. Na semana de Pentecostes--um período quando ele estava usualmente acostumado a tomar o sacramento--ele não tinha ido à igreja, por conta de sua expedição marcial, e ele rogou que Luther tivesse a gentileza de receber sua confissão sem preparação adicional, e lhe administrar a ceia do Senhor[24].
Luther, o olhando finamente, disse depois de uma curta reflexão: "Sim, Kohlhaas, eu irei o fazer. Mas relembre que o Senhor, cujo corpo tu desejas, perdoou seu inimigo. Irás tu," ele adicionou, enquanto Kohlhaas parecia confuso, "da mesma maneira perdoar o Junker que te ofendeu, ir ao Tronkenburg, te pôr sobre teus cavalos, e cavalgar para casa para os engordar em Kohlhaasenbrück?"
"Reverendo Senhor," disse Kohlhaas, esfriando enquanto ele pegava a mão dele, "Mesmo o Senhor não perdoou todos seus inimigos. Me deixe perdoar suas altezas, os dois eleitores, o castelão e o oficial de justiça, o resto dos Von Tronkas, e quem quer que além disso possa ter me injuriado nessa matéria, mas me deixe compelir o Junker a alimentar meus cavalos."
Luther, após ouvir essas palavras, virou suas costas sobre ele com uma fisionomia descontente, e soou o sino. Kohlhaas, enquanto um servente com uma luz se anunciava na antecâmara, se levantou espantado, e secando seus olhos, do chão, e Luther tendo novamente se pôsto abaixo para seus papéis, ele abriu a porta para o homem que estava em vão lutando contra, por conta de o ferrolho estar trancado. "Mostre uma luz," disse Luther para o servente, lançando um rápido golpe de vista lateral ao estranho, depois do que o homem bastante espantado pela visita tomou abaixo a chave de casa da parede, e se retirou para a porta, que ficou meio aberta, esperando que Kohlhaas se retirasse. "Então," disse Kohlhaas, profundamente movido, enquanto ele tomava seu chapéu em ambas as mãos, "Eu não posso receber o benefício de uma reconciliação como eu pedia."
"Com teu Redentor, não!" respondeu Luther logo, "Com teu soberano--isso, como eu disse a ti, depende do sucesso de um empenho." Ele então guiou por gestos o servente a fazer como ele tinha sido ordenado, sem demora adicional. Kohlhaas, com uma expressão de profunda dor, deitou ambas suas mãos sobre seu coração, seguiu o homem, que iluminou sua descida de escada, e desapareceu.
Na manhã seguinte Luther enviou uma comunicação ao Eleitor de Saxônia, em que depois de dar um golpe de lado severo em Herrn Henry, e Conrad von Tronka, o copeiro e o tesoureiro, que tinham, como era notório, suprimido a queixa, ele lhe disse, com aquela liberdade que era peculiar a ele, que sob tais circunstâncias vexatórias nada restava senão aceitar a proposta do comerciante de cavalos, e garantir uma anistia por causa do passado, que ele pudesse renovar seu processo. Opinião pública, ele notou, estava completamente do lado deste homem, e isso até um grau perigoso; não somente isso, mas a um grau tal, que mesmo a cidade de Wittenberg, que ele tinha queimado três vezes, levantava uma voz em seu favor. Se sua oferta fosse recusada isso iria inquestionavelmente ser trazido, acompanhado por notas muito obnóxias, à observação do povo, que poderia facilmente ser tão longe levado embora que a autoridade do estado não poderia fazer nada qualquer com o transgressor. Ele concluía com a observação, que neste caso a dificuldade de tratar com um cidadão que tinha levantado armas precisava ser passada por cima; que pela conduta para com ele o homem tinha sido em uma certa maneira liberado de sua obrigação com o estado; e que em resumo, para fixar a matéria, seria melhor o considerar como uma pessoa estrangeira que tivesse invadido o país--que iria ser em alguma medida correto, como ele era de fato um estrangeiro[25]--do que como um rebelde que tivesse levantado armas contra o trono.
O eleitor recebeu esta carta justamente quando Príncipe Christian de Misnia, generalíssimo do império, e tio do Príncipe Frederic que foi derrotado em Mühlberg, e ainda estava muito doente de seus ferimentos, o alto chanceler do tribunal, Conde Wrede, Conde Kallheim, presidente da chancelaria-de-estado, e os dois von Tronkas, o copeiro, e o tesoureiro, que tinham ambos sido amigos do eleitor desde sua juventude, estavam presentes no castelo. O tesoureiro, que, como um conselheiro privado do eleitor, conduzia correspondência privada, com o privilégio de usar seu nome e cota de armas, primeiro abriu o assunto, e depois de explicar por um longo período de tempo, que sobre sua própria autoridade ele não iria nunca ter posto de lado a petição que o comerciante de cavalos tinha apresentado ao tribunal contra seu primo o Junker, se ele não tivesse sido induzido por representações falsas a a considerar um mero caso inútil e vexatório,--ele veio ao estado presente de coisas. Ele observou que nem de acordo com leis divinas nem humanas tinha o comerciante de cavalos qualquer direito de tomar tal uma monstruosa vingança, como ele tinha se permitido por causa desse descuido. Ele se estendeu sobre o lustre que iria cair sobre a cabeça ímpia de Kohlhaas, se ele fosse tratado como um partido legalmente em guerra, e a desonra que iria resultar para a pessoa sagrada do eleitor por tal um procedimento lhe parecia tão grande, que ele disse, com todo o fogo de eloquência, que ele iria preferivelmente ver o decreto do rebelde de cabeça redonda[26] atuado, e o Junker, seu primo, carregado embora para alimentar os cavalos em Kohlhaasenbrück, do que ele iria ver a proposição de Dr. Martin Luther aceitada. O alto chanceler do tribunal, meio virando para o tesoureiro, expressou seu pesar de que uma tal ansiedade tenra, como ele agora mostrava para organizar esse caso para a honra de seu soberano, não tinha o inspirado na primeira instância. Ele indicou para o eleitor sua objeção contra o empregamento de força para conduzir uma medida que era manifestamente injusta; ele aludiu ao aumento constante dos seguidores do comerciante de cavalos como uma circunstância muitíssimo importante, observando que o fio de ações más parecia estar se girando afora a um comprimento infinito, e declarou que somente um ato de justiça absoluta, que deveria imediatamente e sem reserva fazer bom o passo em falso que tinha sido tomado, poderia resgatar o eleitor e o governo desse caso detestável.
Príncipe Christian de Misnia, em resposta à pergunta do eleitor, "o que ele pensava disso," respondeu, virando respeitosamente para o alto chanceler, que os sentimentos que ele tinha justamente ouvido o enchiam com grande respeito, mas que o chanceler não considerou que enquanto ele era por ajudar Kohlhaas a seus direitos, ele estava comprometendo Wittenberg, Leipzig, e o todo do país, que ele tinha deitado devastado, em seus justos clamores a restituição ou ao menos à punição do ofensor. A ordem do estado tinha sido tão completamente distorcida no caso deste homem, que uma máxima, tirada da ciência de lei, mal poderia a pôr certa novamente. Consequentemente ele concordava com a opinião do tesoureiro de que as medidas apontadas para tais casos deveriam ser adotadas, que uma força armada de magnitude suficiente deveria ser levantada, e que o comerciante de cavalos, que tinha se estabelecido no Castelo de Lützen, deveria ser preso, ou, de qualquer forma, que seu poder deveria ser esmagado.
O tesoureiro, educadamente tomando da parede duas cadeiras para o eleitor e o príncipe, disse que ele se regozijava que um homem de tal conhecida integridade e agudez concordava com ele no meio a ser empregado em arranjando esse caso difícil. O príncipe, segurando a cadeira sem se sentar, e olhando duramente para ele, observou, que ele não tinha nenhuma razão para se regozijar, já que uma medida necessariamente conectada com a que ele tinha recomendado, iria ser ordenar sua prisão, e proceder contra ele pelo uso errado do nome do eleitor. Pois se necessidade requeria que o véu devesse ser deixado cair diante do trono de justiça, sobre uma série de iniquidades, que se mantinham aumentando indefinidamente, e portanto não poderiam mais encontrar espaço para aparecer na barra, esse não era o caso com a primeira ação má que foi a origem de tudo. Uma instauração de processo capital do tesoureiro iria só ela autorizar o estado a esmagar o comerciante de cavalos, cuja causa era notoriamente justa, e para dentro de cuja mão tinha sido impelida a espada que ele carregava.
O eleitor, a quem von Tronka olhava com alguma confusão enquanto ele ouvia essas palavras, se virou corando profundamente, e se aproximou da janela. Conde Kallheim, depois de uma pausa embaraçosa em todos lados, disse que neste jeito eles não poderiam sair do círculo mágico que os rodeava. Com direito igual poderiam procedimentos ser começados contra o sobrinho do príncipe, Príncipe Frederic, já que mesmo ele, na expedição singular que ele empreendeu contra Kohlhaas tinha, em muitas instâncias, excedido suas instruções; e, portanto, fosse o inquirimento uma vez posto de pé sobre as numerosas pessoas que tinham ocasionado a dificuldade presente, ele precisaria ser incluído na lista, e chamado a prestar contas pelo eleitor pelo que tinha tomado lugar em Mühlberg.
O copeiro, von Tronka, enquanto o eleitor com golpes de vista duvidosos se aproximava de sua mesa, então tomou acima o tema, e disse, que ele não poderia conceber como o método certo de proceder tivesse escapado homens de tal sabedoria, como aqueles reunidos inquestionavelmente eram. O comerciante de cavalos, tão longe como ele entendia, tinha prometido despedir sua força se ele obtivesse um conduto livre para Dresden, e uma investigação renovada de sua causa. Disto, contudo, não se seguia, que ele era para ter uma anistia por seus atos monstruosos de vingança; dois pontos distintos que Dr. Luther e o conselho pareciam ter confundido. "Se," ele continuou, pondo seu dedo ao lado de seu nariz, "o julgamento por causa dos cavalos--não importa que caminho ele tome--for pronunciado pelo tribunal de Dresden, não há nada para nos impedir de prender Kohlhaas sobre a base de seus roubos e incendimento. Este iria ser um golpe prudente de política, que iria unir as visões dos homens de estado em ambos lados, e assegurar o aplauso do mundo e posteridade."
O eleitor, quando o príncipe e o alto chanceler responderam a esse discurso do copeiro meramente com um golpe de vista zangado, e a discussão parecia estar em um fim, disse que ele iria por ele mesmo refletir sobre as diferentes opiniões que ele tinha ouvido até a próxima reunião do conselho. Seu coração sendo muito suscetível a amizade, a medida preliminar proposta pelo príncipe tinha extinguido nele o desejo de começar a expedição contra Kohlhaas, para o que toda preparação tinha sido feita. De qualquer maneira ele manteve com ele o alto chanceler, Conde Wrede, cuja opinião parecia a mais fazível; e quando este homem nobre mostrou a ele cartas, das quais parecia que o comerciante de cavalos tinha já adquirido uma força de quatrocentos homens, e era provável, em um curto tempo, de a dobrar e triplicar, em meio ao descontentamento que prevalecia na terra por causa das irregularidades do tesoureiro, ele resolveu sem demora adotar o conselho de Dr. Luther; ele, portanto, confiou a Conde Wrede a administração toda do caso Kohlhaas, e em uns poucos dias apareceu um cartaz, a substância de qual era como segue:
"Nós, &c., &c., Eleitor de Saxônia, tendo respeito especial à intercessão de Dr. Martin Luther, dou notícia a Michael Kohlhaas, comerciante de cavalos de Brandenburg, que, sobre condição de ele pôr abaixo armas, dentro de três dias depois da vista deste, ele deve ter conduto livre para Dresden, para o fim de que sua causa seja julgada de novo. E se, como não é para ser esperado, seu processo, concernindo os cavalos, deva ser rejeitado pelo tribunal em Dresden, então deve ele ser processado com toda a severidade da lei por tentar obter justiça por seu próprio poder; mas, em caso contrário, misericórdia em vez de justiça deve ser concedida, e uma anistia total deve ser dada a Kohlhaas e toda sua tropa."
Não antes tinha Kohlhaas recebido uma cópia dessa notícia, que foi fixada por todo o país, através das mãos de Dr. Luther, do que, não obstante a maneira condicional em que ela foi redigida, ele depediu seu bando todo com presentes, agradecimentos, e conselho próprio. Tudo que ele ganhara por pilhagem--dinheiro, armas, e implementos--ele deu para as cortes de Lützen, como propriedade do eleitor, e depois que ele tinha enviado Waldmann a Kohlhaasenbrück, com cartas para o fazendeiro, que ele pudesse, se possível, re-comprar sua fazenda, e Sternbald a Schwerin para buscar suas crianças, que ele novamente desejava ter com ele, ele deixou o Castelo de Lützen, e foi para Dresden, desconhecido, com o resto de sua pequena propriedade, que ele tinha em papel.
Era romper do dia, e a cidade toda estava ainda dormindo, quando ele bateu na porta de seu pequeno imóvel no subúrbio Pirna, que tinha sido lhe deixado através da honestidade do fazendeiro, e disse a seu velho servente, Thomas, que tinha o cuidado da propriedade, e que abriu a porta com estupefação, que ele poderia ir e dizer ao Príncipe de Misnia, na sede de governo, que ele, Kohlhaas, o comerciante de cavalos, estava lá. O Príncipe de Misnia, que, em ouvindo esse anúncio, pensou certo imediatamente se informar da relação em que esse homem ficava, viu, enquanto ele saía com um trem de cavaleiros e soldados, que as ruas levando à residência de Kohlhaas estavam já repletas com uma multidão inumerável. A inteligência de que o anjo destruidor estava lá, que perseguia os opressores do povo com fogo e espada, tinha posto toda Dresden, cidade e subúrbios, em movimento. Foi achado necessário travar a porta contra a pressão da multidão ansiosa, e as crianças trepavam para a janela para ver o incendiário, que estava ao café-da-manhã. Tão logo como o príncipe, com a assistência da guarda, que forçou uma passagem para ele, tinha pressionado adiante para dentro da casa, e tinha entrado no quarto de Kohlhaas, ele lhe perguntou, enquanto ele estava de pé meio-despido em uma mesa, "Se ele era Kohlhaas, o comerciante de cavalos?" Depois do que Kohlhaas, tirando de sua cinta um livro de bolso, com vários papéis relacionados a sua posição, e os entregando, respeitosamente disse, "Sim!" adicionando que, depois de despedir seu bando, em conformidade com o privilégio que o eleitor tinha garantido, ele tinha vindo a Dresden para trazer seu processo contra Junker Wenzel von Tronka, por causa de seus cavalos negros. O príncipe, depois de um golpe de vista apressado, em que ele o vistoriou da cabeça aos pés, e passou a vista nos papéis que ele encontrou no livro de bolso, ouviu a explicação do significado de um documento dado pela corte em Lützen, e relacionado ao depósito em favor do tesouro eleitoral. Então, tendo o examinado por todos tipos de perguntas sobre suas crianças, sua propriedade, e o tipo de vida que ele tencionava levar no futuro, e tendo assim se certificado que não havia ocasião para sentir desconforto por causa dele, ele lhe devolveu o livro de bolso e disse que não havia nada para impedir seu processo, e que ele poderia ele mesmo ir ter com Conde Wrede, o alto chanceler do tribunal, e o começar imediatamente. O príncipe então, depois de uma pausa, durante a que ele foi para a janela e viu, com surpresa, a multidão imensa diante da casa, disse: "Você irá ser obrigado a ter uma guarda pelos primeiros dias para cuidar de você aqui e quando você sair!" Kohlhaas lançou para baixo seus olhos surpreso e ficou silencioso. "Bem, não importa!" disse o príncipe, deixando a janela, "o que quer que aconteça você irá somente ter você mesmo para culpar." Ele então se moveu para a porta com o desígnio de deixar a casa. Kohlhaas, que tinha se recuperado, disse, "Faça como você quiser, gracioso príncipe! Somente me dê sua palavra de remover a guarda tão logo como eu o deseje e eu não tenho nenhuma objeção a fazer contra essa medida." "Isso não vale a pena falar sobre," disse o príncipe, que depois de dizer aos três soldados, que foram apontados como guardas, que o homem em cuja casa eles estavam colocados era livre, e que quando ele saísse eles eram meramente para o seguir para sua proteção, se despediu do comerciante de cavalos com um gesto de mão condescendente e partiu.
Cf. Dicionário Houaiss da língua portuguesa.
Cf. https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/ .
Cf. https://michaelis.uol.com.br/moderno-ingles/ .
Cf. https://www.wordreference.com/enpt/ .
Notas de Tradução:
[1] Em um ponto o tradutor dessa novela solicita a indulgência de seus leitores críticos. Um grande número de nomes oficiais e termos legais ocorrem, o significado técnico de quais não poderia ser propriamente definido por qualquer um senão um jurista alemão. Como esses nomes não têm equivalentes exatos em inglês, os nomes para os quais eles estão aqui traduzidos podem parecer arbitrários. O tradutor pode somente dizer que, onde exatidão foi impossível, ele fez seu melhor. (J. O.)
[2] Junker, título nobiliárquico alemão, derivado de Jung + Herr, mais ou menos jovem barão ou jovem Senhor.
[3] Castelão é usado para "Burgvoigt" e "Schlossvoigt". (J. O.)
[4] high road, estrada, etc.
[5] out of junction, fora de junção, etc.
[6] Herr, Freiherr, Senhor, Senhor Livre, barão, etc.
[7] chamberlain, tesoureiro, etc.
[8] "Gerichtsherr" aqui quer dizer senhor do solar com direito de judicatura (J. O.), juiz.
[9] fixtures, fixações, etc.
[10] cash down, dinheiro, etc.
[11] bruise, ferimento, etc.
[12] draw her breath, tomar sua respiração, etc.
[13] fetch, buscar, pegar, etc.
[14] cut and thrust, ação de cortar e espetar.
[15] garment, vestimenta, etc.
[16] clapped spurs to his horse, bateu esporas em seu cavalo, etc.
[17] fair way, caminho justo, etc.
[18] first fire, primeiro fogo, etc.
[19] bring about, trazer, etc.
[20] at the suit of, em nome de, etc. https://sklawyers.com.au/dictionary/ats-context-litigation/ .
[21] self-revenge, vingança, etc.
[22] Thuringian, turingiano, etc.
[23] brace of pistols, cinto de pistolas, etc.
[24] supper of the Lord, ceia do Senhor, comunhão.
[25] Isso é, um súdito de outro estado, aqui Brandenburg.
[26] round-headed, de cabeça redonda, puritano, etc.