De Herculano de Lima Einloft Neto.
Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2018.
Era noite em uma casa num município pequeno na região litorânea do Estado do Rio de Janeiro, por volta do ano 2015. E ali pelo bar, pela sinuca, pelas casas em volta, iam passando os forasteiros em carros mais ou menos silenciosos, se dirigindo para uma casa de muro amarelo. E uma reunião estava tomando lugar.
Lá dentro, atrás de janelas fechadas, pessoas em mantos de capuzes, cerca de quinze, debatiam a manutenção de uma sociedade de magia de que eu ora trato. Uma paca vivente caminhava pela sala. Essas pessoas eram todas comuns, no que diz respeito a roupa sob os mantos, homens de camisa e calça, mulheres de calça e camisa, e estavam ali por interesse teórico e prático no tema tratado. Era uma mistura dos antigos conhecimentos mágicos nativos-americanos, relacionados a histórias como as de Anhanga, Çuaçu ananga ou Catingueiro, Kupen-dyeb ou Homens-morcego, etc.. Um homem na mesa tocava uma membi, uma flauta feita de osso de tíbia de veado, em frente a alguns vasos com plantas.
Um caboclo nomeado João Silva conversava com a paca utilizando os sons dela. E essa paca esclarecia alguns fatos que estavam para ocorrer internacionalmente. A população paca era uma entidade, paca, uma sociedade desde há milênios consultada por tupis, aruaques e jês. Tal conhecimento tem se mantido oculto de grande parte da população, mas existem estudiosos como Souza Rodrigues, etc., que conhecem os verdadeiros segredos da fauna do Brasil. E a paca Igatingapaca dessa vez dava notícia de um ataque terrorista a acontecer em São Paulo durante uma feira de exposição de animais, pelo grupo Grupo Terrorismo Puro. Este era um grupo sem ideais que não o objetivo de espalhar o terrorismo, sem qualquer finalidade que não o terrorismo em suas assunções de responsabilidade, em suas notas à imprensa, e sem perspectiva alguma de algum dia alcançar um objetivo final, sendo portanto teoricamente eterno.
Dizia, em linguagem de paca, João Silva:
-- Mas em que dia exatamente ocorrerá o ataque?
-- Pela nossa conversa espiritual com as entidades e a mãe-terra que muito veem e muito sabem, o dia do ataque seria o segundo da feira de exposição de animais, a qual tem três dias, 25 de março. -- respondeu a paca Igatingapaca.
Silva ponderou. Em sua mente corriam pensamentos concernindo uma maneira de lidar com o problema com a menor interferência possível na rotina da sociedade brasileira, e para isso a conversa teria que se alongar. Pegou um computador em uma mala no chão. A paca foi passando nomes e endereços de pessoas relacionadas ao ataque, e seus itinerários previstos, enquanto Silva os digitava. Finda a comunicação, foi feita uma oferenda à paca Igatingapaca na forma de alimentos diversos da mata nacional e água.
Finda a reunião, os participantes foram deixando a casa de muro amarelo aos poucos, os carros saíam pela rua de terra, e em breve a Polícia Federal recebeu uma ligação do tenente Fernando de Souza, da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, que também ali estivera presente, explicando e informando o melhor que podia o problema. Os terroristas foram presos vinte dias antes do ataque, em acusações que, divulgadas, não chegaram a provocar terror na população. O trabalho da polícia era eficiente.
A sociedade de magia referida acima, que tinha nome Sociedade Secundária Brasileira de Magia, iria continuar se reunindo, estudando e produzindo textos sobre os temas de seu interesse, indefinidamente. Invocações de entidades totêmicas como araras e papagaios também estavam em seus protocolos. Os textos publicados por Barbosa Rodrigues, Curt Nimuendajú, Antonio Brandão de Amorim e Ermano Stradelli, na Revista do IHGB e etc., eram também referências da Sociedade.