quarta-feira, 23 de maio de 2018

Sociedade Secundária Brasileira de Magia
De Herculano de Lima Einloft Neto.
Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2018.

Era noite em uma casa num município pequeno na região litorânea do Estado do Rio de Janeiro, por volta do ano 2015. E ali pelo bar, pela sinuca, pelas casas em volta, iam passando os forasteiros em carros mais ou menos silenciosos, se dirigindo para uma casa de muro amarelo. E uma reunião estava tomando lugar.

Lá dentro, atrás de janelas fechadas, pessoas em mantos de capuzes, cerca de quinze, debatiam a manutenção de uma sociedade de magia de que eu ora trato. Uma paca vivente caminhava pela sala. Essas pessoas eram todas comuns, no que diz respeito a roupa sob os mantos, homens de camisa e calça, mulheres de calça e camisa, e estavam ali por interesse teórico e prático no tema tratado. Era uma mistura dos antigos conhecimentos mágicos nativos-americanos, relacionados a histórias como as de Anhanga, Çuaçu ananga ou Catingueiro, Kupen-dyeb ou Homens-morcego, etc.. Um homem na mesa tocava uma membi, uma flauta feita de osso de tíbia de veado, em frente a alguns vasos com plantas.

Um caboclo nomeado João Silva conversava com a paca utilizando os sons dela. E essa paca esclarecia alguns fatos que estavam para ocorrer internacionalmente. A população paca era uma entidade, paca, uma sociedade desde há milênios consultada por tupis, aruaques e jês. Tal conhecimento tem se mantido oculto de grande parte da população, mas existem estudiosos como Souza Rodrigues, etc., que conhecem os verdadeiros segredos da fauna do Brasil. E a paca Igatingapaca dessa vez dava notícia de um ataque terrorista a acontecer em São Paulo durante uma feira de exposição de animais, pelo grupo Grupo Terrorismo Puro. Este era um grupo sem ideais que não o objetivo de espalhar o terrorismo, sem qualquer finalidade que não o terrorismo em suas assunções de responsabilidade, em suas notas à imprensa, e sem perspectiva alguma de algum dia alcançar um objetivo final, sendo portanto teoricamente eterno.

Dizia, em linguagem de paca, João Silva:

-- Mas em que dia exatamente ocorrerá o ataque?

-- Pela nossa conversa espiritual com as entidades e a mãe-terra que muito veem e muito sabem, o dia do ataque seria o segundo da feira de exposição de animais, a qual tem três dias, 25 de março. -- respondeu a paca Igatingapaca.

Silva ponderou. Em sua mente corriam pensamentos concernindo uma maneira de lidar com o problema com a menor interferência possível na rotina da sociedade brasileira, e para isso a conversa teria que se alongar. Pegou um computador em uma mala no chão. A paca foi passando nomes e endereços de pessoas relacionadas ao ataque, e seus itinerários previstos, enquanto Silva os digitava. Finda a comunicação, foi feita uma oferenda à paca Igatingapaca na forma de alimentos diversos da mata nacional e água.

Finda a reunião, os participantes foram deixando a casa de muro amarelo aos poucos, os carros saíam pela rua de terra, e em breve a Polícia Federal recebeu uma ligação do tenente Fernando de Souza, da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, que também ali estivera presente, explicando e informando o melhor que podia o problema. Os terroristas foram presos vinte dias antes do ataque, em acusações que, divulgadas, não chegaram a provocar terror na população. O trabalho da polícia era eficiente.

A sociedade de magia referida acima, que tinha nome Sociedade Secundária Brasileira de Magia, iria continuar se reunindo, estudando e produzindo textos sobre os temas de seu interesse, indefinidamente. Invocações de entidades totêmicas como araras e papagaios também estavam em seus protocolos. Os textos publicados por Barbosa Rodrigues, Curt Nimuendajú, Antonio Brandão de Amorim e Ermano Stradelli, na Revista do IHGB e etc., eram também referências da Sociedade.

terça-feira, 22 de maio de 2018

Antônio Alves de Souza
De Herculano de Lima Einloft Neto.
Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2018.

Saindo de casa depois de banhar três ratos como simpatia em um ritual, Júlia Alves os carregava em uma sacola, e seguia em direção à praça XV. Tinha seguido à risca o protocolo que fora lhe passado pela feiticeira Irene de Manaus, uma velha cabocla, conhecedora dos espíritos da floresta. Os banhos nos ratos eram oferendas ao Çuaçu ananga ou Catingueiro, o veado de cor vermelha e chifres cobertos de pêlos que invade o trânsito de automóveis em aparições que os sensitivos têm condição de perceber.

Apanhou uma barca para Niterói, e depois da viagem se aproximou da praia e colocou a sacola com os ratos aberta numa parte seca da Baía de Guanabara. Certa de que eles sobreviveriam, estava consumado o feitiço. Era agora uma questão de tempo até que sua inimiga sofresse os efeitos de uma virada de poder, conquanto esta tivesse pussangas e outras medidas defensivas, em uma disputa que já durava a essa altura mais de cinco anos.

Voltou na mesma barca e olhou no relógio que marcava dez horas da manhã. Era maio e o clima estava ameno, foi caminhando da Praça XV até um seu escritório no centro do RJ. Não ia ali com frequência, controlava de seu escritório em seu apartamento a maioria das questões referentes à consultoria da empresa. Investigações virtuais por computação eram um dos ramos da empresa, que seu cunhado tinha começado e era agora levado adiante pelos seus sobrinhos e seu filho mais velho, agora com vinte e cinco anos. Seu sobrinho Antônio Alves de Souza, de trinta e oito anos, era presentemente o sócio majoritário da Souza Consultoria Ltda..  Souza e seus irmãos tinham outros interesses, eram escritores amadores, divulgando textos pequenos à medida que iam surgindo em suas mentes, contos de ficção, crônicas, pensamentos, etc., e imprimiam seu trabalho em textos e o mantinham em suas bibliotecas.

Antônio Alves de Souza tivera interação com a Sociedade Secundária Brasileira de Magia, e estivera ultimamente estudando as manifestações de Jurupari ou Anhanga no mundo atual. Embora não temesse a arte de magia, não a desprezava e considerava os despachos e rituais de candomblé com atenção. Indo ao mercado, comprou algumas verduras e legumes para sua dieta balanceada, e seguiu caminhando pelas ruas de Botafogo até seu prédio, sem observar nada que fugisse ao normal. Era alto e usava óculos.

Também em relação com a tecnologia de informação do mundo moderno percebia Antonio Alves de Souza manifestações do mundo espiritual. Certos processos mágicos de origem jê e aruaque ele já tinha utilizado para interferir no funcionamento e estabilidade de seus computadores, de forma que seria difícil de explicar a uma pessoa que não tivesse tais percepções. Inclusive aí oferendas aos deuses celtas indo-europeus que eram ligados ao mundo mitológico nativo-brasileiro, com a magia lusitana que também é parte do patrimônio brasileiro. Endovélico já tinha sido invocado em sessões de que Souza mesmo participara em companhia de araras e papagaios espirituais Uyrá-Geropary e Kaapora, nos imóveis da SSBM na região do Estado do RJ. Pensava nas mulheres de Botafogo com que sempre pretendera se relacionar, porém as dificuldes impostas por uma única mulher que fosse o faziam se manter em um equilíbrio a distância. Entretanto, seus estudos, inclusive aí seus avanços no ramo da magia, proviam recursos que ele poderia utilizar para conseguir suas coisas a esse respeito de conquistar mulheres.

Em seu quarto e escritório, Antônio Alves de Souza se sentou em seu computador e conferiu as mensagens em suas contas de correio eletrônico. Tinha obtido resposta de um seu primo no Ceará, concernindo literatura antiga cabocla das paróquias do município de Santa Quitéria. Um livro velho de feitiços Tarairius estava para ser escaneado e uma cópia poderia ser lhe enviada. Redigiu então uma mensagem para uma de suas mulheres que eram possibilidades de namoro, Fernanda Meirelles. Ambos eram parte de uma lista de discussão sobre mitologia nativo-americana na interrede. Comunicou a Meirelles a notícia do Ceará, e lhe deu as linhas gerais da obra. Ela não era membro da Sociedade Secundária Brasileira de Magia, mas ainda assim tinha algumas noções do que acontecia pelo Brasil em termos de conhecimento oculto. Antônio  pretendia uma maior aproximação com Fernanda, que contava 31 anos, mas ele não tinha afobação.

Havia anos que Antônio Alves de Souza vinha tendo os mesmos sonhos, desde que estudara em interrede as características que unem Jurupari e Anhanga, ou Janchon, como o chamam os índios Botocudos, desde conhecer a obra de Barbosa Rodrigues e Souza Rodrigues e outros que os seguiram. Sonhava com algumas pontes ligando as janelas dos escritórios no centro do Rio de Janeiro, onde passeavam pessoas de todas as épocas, espíritos que haviam vivido há tempo e hoje eram espíritos na terra, e a visão da cidade de uma distância um pouco maior, de um observador mais afastado, ia mostrando uma unidade naquela divisão, e as pontes continuavam para os outros bairros e cobriam a cidade inteira. Algumas luzes pequenas que lhe lembravam a ideia de fogo-fátuo, como nas reuniões dos espíritos segundo alguns índios jês.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

João Pedroso Sousa
De Herculano de Lima Einloft Neto.
Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2018.

Chegavam enfim a uma clareira. Tinham adentrado o mato tijucano pelo bairro de Botafogo, e já caminhavam havia duas horas ao meio-sol da tarde carioca. É aqui, disse João Pedroso Sousa. Passou a se lembrar da trajetória que os levara até ali nas últimas semanas.

João Pedroso Sousa tinha acompanhado acontecimentos de mau agouro naquele bairro no mês anterior. Alguns cães das casas vizinhas ao mato e ao morro Dona Marta tinham fugido dos donos inesperadamente, conseguindo saltar muros através de tramas que cães não costumam conseguir, e a coincidência dos eventos suscitava uma sensação desagradável nos moradores. Quando um dos cães que tinham se mantido na casa do Sr. Oliveira fugiu e retornou trazendo pelas pernas a carcaça morta de seu ex-companheiro de residência, a vizinhança percebeu que algo esquisito realmente estava ocorrendo. O cão defunto trazia marcas de chicotadas e se configurava em morte matada, estando sujo de modo a fazer crer que estivera dentro da floresta do parque. Houve um inicio de intenção de fazer uma busca pelos cerca de dez outros cães pela mata do Parque da Tijuca, mas as embrenhadas pelo matagal traziam já o risco da violência humana, então se ficou esperando alguma outra notícia.

Sousa vivia para suas atividades intelectuais, fazendo coisas diversas para seguir com a vida. Tinha um interesse na literatura e no folclore nacional e sabia que alguns relatos dos nativo-americanos eram vívidos demais e carregados de terror, desde as descrições quinhentistas. A polícia foi acionada mas não poderia fazer buscas no mato atrás de crimes contra animais que afinal haviam fugido espontaneamente, pelo relato dos vizinhos e testemunhas. Sendo amigo dos Oliveira, Sousa tomou um interesse no caso e passou a interrogar alguns moradores do entorno do mato em Botafogo. Se surpreendeu ao perceber que havia memória de tais ocorrências entre habitantes mais antigos, pois que havia segundo a fala popular pessoas que viviam na floresta clandestinamente por alguns meses, para fins ocultos. Certos cultos de entidades nativas continuavam vivos e em parte segregados mesmo dos cultos mais conhecidos do candomblé e da umbanda. E eram esses mesmos que costumavam ser praticados na floresta, com consequências por vezes funestas para cidadãos urbanos.

"São pessoas da cidade que querem mexer com as entidades nativas", disse D. Mariangela, da Rua Bambina, que costumava visitar o entorno do Palácio Guanabara. "Fazem por razões diversas, para combater inimigos e o que valha". Sousa se mantinha frio, mas não via razão para descrer dos relatos do povo, ainda quando ocorrências estranhas poderiam mais tarde lhes dar crédito.

A família Pedroso Sousa

Toda essa conversa era familiar para João Pedroso Sousa. Fazia uns cinco anos que ele se dedicava a estudar sua genealogia materna, e tinha dessa maneira obtido informações ligadas ao sobrenatural nativo-americano em sua própria família. Sua mãe Amélia dos Santos Pedroso descendia de um português do Porto, João Pedroso Santos, que tinha obtido sesmaria no interior do estado de São Paulo, nas proximidades de Itu, na década de 1740. No Arquivo Público do Estado de São Paulo, Sousa encontrara alguns processos judiciais de resolução indefinida entre este João Pedroso Santos, seu sexto-avô e seus proprietários vizinhos. Um  manuscrito anexado posteriormente a um desses processos trazia cópia de um trabalho genealógico realizado por seu bisavô, Juliano dos Santos Pedroso Filho, que ele sabia por comunicação em interrede alguns primos terem cópia, e pela qual estava procurando. O texto genealógico relatava, entre outras informações, como Juliano Pedroso Santos, seu trisavô, n. 1841, tinha se dedicado ao estudo da língua latina pelas duas cópias que a família obtivera do Compendio de  Grammatica Latina e Portugueza de José Vicente Gomes de Moura, tendo posteriormente estudado obras de conteúdo oculto europeias, notadamente De Occulta Philosophia de Cornelio Agrippa pela cópia disponível na Biblioteca Nacional do RJ. Era tido em sua família como feiticeiro, embora não tenha entrado jamais em conflito com a sociedade por conta disso. Entretanto a tradição conta que conseguira sucesso incomum no trato com os nativo-americanos dos matagais vizinhos a sua propriedade, sem ter problemas com animais predadores ou com ataques dos índios, o que lhe rendera considerável sucesso nos negócios e uma boa fortuna, dividida entre seus oito filhos. Ademais o relacionamento comercial de Juliano Pedroso Santos com os nativo-americanos era excelente e lhe traziam peixes e frutas para revenda nas épocas de fartura, e por vezes lhe vendiam caças como capivaras que rendiam banquetes em sua propriedade. Tudo isso ficava mais complexo pelo fato de que o quinto-avô Santos Pedroso de João Pedroso Sousa, Miguel dos Santos Pedroso, tinha contraído matrimônio com a filha de um pajé dos índios Aymorés, pelo que "a ancestralidade de caráter", como dizia o texto, já lhe vinha por essa quinta-avó, batizada em São Paulo como Marta Josefa. O texto configurava, sem dizer explicitamente, uma prática de feitiçaria de origem nativa em sua própria família. Não tendo havido entretanto queixas da sociedade, a Igreja Católica não incomodara, ainda porque a família residia em área remota e era assim uma pioneira na exploração do país, o que sempre era de interesse social.

terça-feira, 8 de maio de 2018

Antonio Freire de Andrade
De Herculano de Lima Einloft Neto.
Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2018.

Antonio Freire de Andrade, notário em Porto, Portugal, passou ao Brasil em 1637, com trinta e seis anos de idade, chegando à cidade do Rio de Janeiro. O núcleo da aristocracia luso-brasileira se encontrava em São Vicente, e lá Andrade contraiu matrimônio com Luiza Alvarenga, vindo residir o casal no território fluminense. Nasceram deste casamento quatro filhos, criados em Rio de Janeiro, onde Andrade prestava serviço como notário. Passados vinte e dois anos, Antonio Freire de Andrade, então com cinquenta e oito anos de idade, deixou os negócios aos cuidados de seus filhos e um cunhado e partiu em empresa pelo interior do país. Tinha conhecimento da obra de Ambrosio Fernandes Brandão, Diálogos das Grandezas do Brasil, e de outros relatos de inscrições encontradas em rochas nos sertões do Mato Grosso. Foi acompanhado por quatro nativos tupiniquins, quatro luso-fluminenses e um capitão-do-mato de nome Francisco Alves, fluminense de terceira geração e carioca, além de seu terceiro filho, João Alvarenga de Andrade, com dezesseis anos de idade. Andrade havia se tornado razoavelmente fluente na língua tupi em seus anos de serviço no Novo Mundo, e tinha a percepção de que parte do que os nativo-americanos sabiam a respeito da terra, não era compartilhado nem mesmo com os padres jesuítas que registravam a língua e os costumes nativo-brasileiros.

A empresa era arriscada, mas Antonio de Andrade tinha experiência em excursões pelo mato, e sua comitiva não era pequena demais nem despreparada. Confiava na movimentação discreta para chegar aos objetivos, as ruínas de uma civilização pré-incaica, localizadas no atual estado do Mato Grosso. Levava papel e pena para registrar o que fosse que encontrasse de interessante. Era tambem bom desenhista. Entretanto, Andrade desconhecia a extensão daquilo que ainda existisse de tal povoação. Os índios residentes ao Mato Grosso guardavam aquela região, onde o poderio bélico português não fizera esforços demasiados para o domínio por questão mesmo de preservação arqueológica. O próprio saudoso el-Rei D. João IV, seu filho D. Afonso VI e a regente Luisa de Gusmão sabiam bem da importância deste território. Alguns bandeiristas haviam sido mortos por chegar muito próximos a entradas subterrâneas, que levavam a ruínas soterradas desde há muito e mantidas pelas tribos que descendiam dos atlantes brasileiros. Andrade em seu tempo em Porto tinha tido acesso a alguns documentos extraviados, que deixavam claro que Portugal não expunha completamente algumas informações mais profundas sobre o que guarda o território do Brasil.

Passados oito dias de cavalgada, chegaram a avistar a Serra da Mantiqueira, onde os tupiniquins conheciam algo do que as nações nativas não revelavam em geral. Existiam certas reentrâncias na pedra, que davam a impressão de ser portais de pedra, mas que eram impossíveis de abrir. Na verdade se tratavam de marcas para orientar os viajantes. Percorrendo o perímetro da serra se depararam por duas vezes com semelhantes portais, sendo que no primeiro havia inscrições em um alfabeto semelhante ao grego. Andrade as anotou devidamente. O mais velho dos tupiniquins, Abaitambe, reconhecia aquela escrita. Era a escrita antiga brasileira, de alguns de seus antepassados. Embora não utilizassem a escrita em geral nos dias correntes, os tupiniquins tinham sabedoria por tradição de que ela existia e sua relevância em seu território. Algumas das galerias subterrâneas de cidades antigas ainda persistiam com certo esplendor, guardadas por ramos tupi-guaranis ligados a feitiçaria e ao oculto.

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Incidente na Serra
De Herculano de Lima Einloft Neto.
Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2018.

Na Serra de Nova Friburgo a chuva costuma cair repentinamente logo após uma manhã de sol, e os que sabem disso também não hão de duvidar das cachoeiras e lugares naturais que se encontram nos distritos menos urbanizados de Lumiar e Boa Esperança, as lagoas, as plantações de cana e as estradas que à noite, à beira do mato, são escuras e reservadas. Há anos a estrada entre Lumiar e Boa Esperança foi asfaltada, e a história que ora relato se passa em época posterior, quando os quilômetros que ligam os dois distritos não eram mais de terra em percurso sinuoso, que durante a chuva criava poças e que cansava os caminhantes noturnos, depois de uma noite na praça de Lumiar. Ali em Boa Esperança de Baixo há condomínios que alugam casas por temporadas, à beira de um rio, e durante uma estada lá, João Castro e Antonio Freitas tiveram uma experiência que jamais esqueceram, pelo inusitado e inaudito, e hoje ainda têm dificuldade em comentar o ocorrido, pois que a descrença dos ouvintes é a regra.

A colonização suiça de Nova Friburgo, parece ter trazido algumas lendas suiças também, como os gnomos que alguns moradores gostam de dizer que habitam as encostas de mato entre Lumiar e São Pedro da Serra. Castro e Freitas vieram por dois dias para uma casa na beira do rio, para tomar chá, ler e ver a paisagem. João Castro era matemático e escritor amador, Antonio Freitas era jornalista, escritor amador e amante da natureza. Ambos tinham 40 anos de idade. Desceram do ônibus que pegaram no Rio de Janeiro, pegaram o outro ônibus para o condomínio à beira do rio, e instalaram a pouca bagagem na pequena casa. Aproveitaram o primeiro dia de forma tranquila, havia mais duas casas ocupadas no condomínio, uma por um casal, e outra por um homem. Enquanto Castro se mantinha mais no condomínio, escrevendo digitando ao computador, tomando notas e lendo seus livros, Freitas saía mais para caminhar, em busca de algum movimento, algum bar, e de observações da natureza e da arquitetura local. Nesta primeira tarde Antonio Freitas caminhou bastante até encontrar uma trilha que adentrava ao lado da estrada, trilha pela qual entrou talvez animado pelo dia nublado, e que logo se revelou um pouco mais estreita e difícil do que o esperado. A mata logo começou a fechar, e Freitas teve então receio de cobras e outros incidentes perigosos, pelo que tencionou voltar; mas sua atenção foi tomada por alguns pássaros de cores vivas que observou a uns dez metros de distância, em uma reunião que julgou no mínimo peculiar. Em baixo de uma árvore, Antonio Freitas via um grupo de dez a quinze aves, cujas espécies não soube precisar, das mais diversas cores, do tamanho de araras ou papagaios, mas de bicos longos. As havia azuis, verdes, vermelhas e amarelas, e os olhos das aves pareciam emitir um brilho tênue e estranho. Freitas esfregou os olhos, e continuou observando as aves que agora tinham o notado. Como as aves o olhassem sem fazer barulho e sem piar, e continuassem o encarando, se sentiu desconfortável, e então passou a fazer o caminho de volta. Com uma rapidez e um desconforto difícil de explicar, conseguiu sair da trilha por onde tinha entrado, e seguiu viagem pela estrada até chegar a um bar que ficava aberto. Tomou uma água, ficou algum tempo apreciando um pequeno lago no local, e começou a retornar para o condomínio pelas 16:00. Enquanto retornava, Freitas tentava rever a trilha por onde tinha passado, mas malgrado todos os seus esforços e pesquisas, não conseguiu localizar o local por onde tinha caminhado havia alguma horas.

Chegando à casa no condomínio, relatou o ocorrido a Castro, que não duvidou do que ouvia, mas achou o relato peculiar e esquisito. Se propuseram a tentar localizar a trilha novamente no dia seguinte, se houvesse tempo, tinham muitas outros planos para a estadia de fim-de-semana. Nesta noite resolveram descer para a praça de Lumiar para beber água e aproveitar o movimento, e a beleza das mulheres locais.

terça-feira, 1 de maio de 2018

Entregas
De Herculano de Lima Einloft Neto.
Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2018.

De tanto andar de bar em bar, já não sabia mais aonde ir, se deciciu a rumar para casa. Que implicações haveria por suas atitudes naquele dia? Se perguntava o quanto haviam notado sua presença no restaurante do qual saira duas horas antes, no qual havia tentado ser discreto enquanto se alimentava e esperava uma ligação telefônica. Contar com o recebimento de ligações telefônicas é a desgraça de um homem, isso tinha por certo. A ligação não chegou, e não cabia perguntar ou tentar saber por que; ademais a verdade estava muito distante para ser comprovada neste caso. Se lembrou de seu contato em Copacabana, o homem de terno que havia lhe entregado a carta às treze horas, e lhe recomendado o restaurante aberto à esquina da República do Peru, área muito frequentada pelos turistas estrangeiros que visitam o Rio de Janeiro. Prestava esse tipo de pequenos serviços a uma agência de São Paulo, com interesses internacionais, mas isso era tudo o que sabia, e recebia sempre em dinheiro, como neste dia. Uma bela soma por um serviço sobre o qual não deveria fazer perguntas, mas não precisava nunca carregar flagrantes diretos de delito, só cartas, e somente a discrição era lhe recomendada. O telefone tocaria com instruções do tipo, caminhe uma quadra em direção tal, e entregue a carta ao homem de camisa verde, calça jeans e tênis branco. Imaginava que texto podia ser tão importante para que necessitassem de um nível de indireção para a entrega, mas entendia o quanto os tempos haviam mudado, as câmeras de segurança na cidade agora eram onipresentes. Sabia que podia se tratar de serviço de queima de arquivo, eliminação, mas não era um homem num tipo de condição de escrúpulos que lhe embargassem um emprego que ademais se ele se recusasse a fazer outro certamente aceitaria.

Chegou ao seu prédio, um dos prédios de muitos apartamentos dos quais o bairro de Copacabana se encontra repleto, com por vezes até três elevadores, sempre em atividade. Sim, morava ali há alguns anos, Copacabana era um bairro em que era relativamente mais fácil ser discreto, talvez porque a privacidade seja um pouco menor para todos ali. Entrou no quitinete e se deitou na cama, decidido a pensar na vida por algumas dezenas de minutos. Era imigrante de Goiás, começava a se preocupar em ser detido pela polícia ou introduzido em algum processo penal por qualquer coisa que seus empregadores houvessem feito. Gostava de adentrar as matas virgens que ainda subsistem ao longo da cidade, na Floresta da Tijuca, até o Alto da Boa Vista, e andava armado de facão nessas ocasiões, nunca se sabe o que vai se encontrar no meio do mato, além dos animais inesperados, não há população para proporcionar defesa, ali a segurança se faz por si próprio. Andaria armado de arma de fogo mas o medo de ser detido com uma lhe impedia. O mais importante para ele nessa questão era evitar qualquer conflito. Ainda assim, sabendo o quanto era inconsequente a sua atitude, o quanto era perigoso entrar sozinho no matagal carioca, tanto mais lhe aprazia os momentos de tranquilidade que obtinha em tais percursos. Sabia o quanto era difícil conseguir um local realmente privado na cidade, e ali era exatamente isso o que conseguia, ao custo de um desagradável medo.

Pensava nisso quando deu conta de um pacote em cima de sua bancada. Rebuscou na memória que pacote era aquele, do tamanho de dois livros, mas não lembrou, de que o início de susto que tomara evoluiu para um susto de verdade. Se não tinha amnésia, alguém invadira sua propriedade. Não pretendia abrir o que quer que fosse recebido desta maneira, tinha medo de cartas-bomba. Analisou o exterior do pacote e viu que nele estava escrito: Para Manoel Silva. Era ele. Tinha uma carta que não lhe diria respeito em sua posse, ao menos o pacote estava lhe endereçado; mas o pacote lhe parecia mais perigoso. Achou toda a situação um tanto inusitada e creu que a circunstância lhe permitia violar o envelope que tinha sido lhe confiado. Não precisava afinal tanto assim do emprego, abriu o envelope e constatou aquilo que já suspeitava, não podia compreender o conteúdo, era uma mensagem criptografada; essa informação ele agora tinha por certa. Com o cabo de uma vassoura mexeu um pouco no pacote, não notou nada que configurasse perigo iminente, então o colocou em duas sacolas plásticas de supermercado, o levando assim envolto para a lixeira do apartamento.

Depois desse incidente, se passou uma semana em tranquilidade, e seus antigos empregadores não lhe contactaram mais. Achou por bem procurar uma outra coisa para ganhar dinheiro, pois começava a se sentir inseguro da estabilidade do negócio.