Entregas
De Herculano de Lima Einloft Neto.
Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2018.
De tanto andar de bar em bar, já não sabia mais aonde ir, se deciciu a rumar para casa. Que implicações haveria por suas atitudes naquele dia? Se perguntava o quanto haviam notado sua presença no restaurante do qual saira duas horas antes, no qual havia tentado ser discreto enquanto se alimentava e esperava uma ligação telefônica. Contar com o recebimento de ligações telefônicas é a desgraça de um homem, isso tinha por certo. A ligação não chegou, e não cabia perguntar ou tentar saber por que; ademais a verdade estava muito distante para ser comprovada neste caso. Se lembrou de seu contato em Copacabana, o homem de terno que havia lhe entregado a carta às treze horas, e lhe recomendado o restaurante aberto à esquina da República do Peru, área muito frequentada pelos turistas estrangeiros que visitam o Rio de Janeiro. Prestava esse tipo de pequenos serviços a uma agência de São Paulo, com interesses internacionais, mas isso era tudo o que sabia, e recebia sempre em dinheiro, como neste dia. Uma bela soma por um serviço sobre o qual não deveria fazer perguntas, mas não precisava nunca carregar flagrantes diretos de delito, só cartas, e somente a discrição era lhe recomendada. O telefone tocaria com instruções do tipo, caminhe uma quadra em direção tal, e entregue a carta ao homem de camisa verde, calça jeans e tênis branco. Imaginava que texto podia ser tão importante para que necessitassem de um nível de indireção para a entrega, mas entendia o quanto os tempos haviam mudado, as câmeras de segurança na cidade agora eram onipresentes. Sabia que podia se tratar de serviço de queima de arquivo, eliminação, mas não era um homem num tipo de condição de escrúpulos que lhe embargassem um emprego que ademais se ele se recusasse a fazer outro certamente aceitaria.
Chegou ao seu prédio, um dos prédios de muitos apartamentos dos quais o bairro de Copacabana se encontra repleto, com por vezes até três elevadores, sempre em atividade. Sim, morava ali há alguns anos, Copacabana era um bairro em que era relativamente mais fácil ser discreto, talvez porque a privacidade seja um pouco menor para todos ali. Entrou no quitinete e se deitou na cama, decidido a pensar na vida por algumas dezenas de minutos. Era imigrante de Goiás, começava a se preocupar em ser detido pela polícia ou introduzido em algum processo penal por qualquer coisa que seus empregadores houvessem feito. Gostava de adentrar as matas virgens que ainda subsistem ao longo da cidade, na Floresta da Tijuca, até o Alto da Boa Vista, e andava armado de facão nessas ocasiões, nunca se sabe o que vai se encontrar no meio do mato, além dos animais inesperados, não há população para proporcionar defesa, ali a segurança se faz por si próprio. Andaria armado de arma de fogo mas o medo de ser detido com uma lhe impedia. O mais importante para ele nessa questão era evitar qualquer conflito. Ainda assim, sabendo o quanto era inconsequente a sua atitude, o quanto era perigoso entrar sozinho no matagal carioca, tanto mais lhe aprazia os momentos de tranquilidade que obtinha em tais percursos. Sabia o quanto era difícil conseguir um local realmente privado na cidade, e ali era exatamente isso o que conseguia, ao custo de um desagradável medo.
Pensava nisso quando deu conta de um pacote em cima de sua bancada. Rebuscou na memória que pacote era aquele, do tamanho de dois livros, mas não lembrou, de que o início de susto que tomara evoluiu para um susto de verdade. Se não tinha amnésia, alguém invadira sua propriedade. Não pretendia abrir o que quer que fosse recebido desta maneira, tinha medo de cartas-bomba. Analisou o exterior do pacote e viu que nele estava escrito: Para Manoel Silva. Era ele. Tinha uma carta que não lhe diria respeito em sua posse, ao menos o pacote estava lhe endereçado; mas o pacote lhe parecia mais perigoso. Achou toda a situação um tanto inusitada e creu que a circunstância lhe permitia violar o envelope que tinha sido lhe confiado. Não precisava afinal tanto assim do emprego, abriu o envelope e constatou aquilo que já suspeitava, não podia compreender o conteúdo, era uma mensagem criptografada; essa informação ele agora tinha por certa. Com o cabo de uma vassoura mexeu um pouco no pacote, não notou nada que configurasse perigo iminente, então o colocou em duas sacolas plásticas de supermercado, o levando assim envolto para a lixeira do apartamento.
Depois desse incidente, se passou uma semana em tranquilidade, e seus antigos empregadores não lhe contactaram mais. Achou por bem procurar uma outra coisa para ganhar dinheiro, pois começava a se sentir inseguro da estabilidade do negócio.
Nenhum comentário:
Postar um comentário