Antônio Alves de Souza
De Herculano de Lima Einloft Neto.
Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2018.
Saindo de casa depois de banhar três ratos como simpatia em um ritual, Júlia Alves os carregava em uma sacola, e seguia em direção à praça XV. Tinha seguido à risca o protocolo que fora lhe passado pela feiticeira Irene de Manaus, uma velha cabocla, conhecedora dos espíritos da floresta. Os banhos nos ratos eram oferendas ao Çuaçu ananga ou Catingueiro, o veado de cor vermelha e chifres cobertos de pêlos que invade o trânsito de automóveis em aparições que os sensitivos têm condição de perceber.
Apanhou uma barca para Niterói, e depois da viagem se aproximou da praia e colocou a sacola com os ratos aberta numa parte seca da Baía de Guanabara. Certa de que eles sobreviveriam, estava consumado o feitiço. Era agora uma questão de tempo até que sua inimiga sofresse os efeitos de uma virada de poder, conquanto esta tivesse pussangas e outras medidas defensivas, em uma disputa que já durava a essa altura mais de cinco anos.
Voltou na mesma barca e olhou no relógio que marcava dez horas da manhã. Era maio e o clima estava ameno, foi caminhando da Praça XV até um seu escritório no centro do RJ. Não ia ali com frequência, controlava de seu escritório em seu apartamento a maioria das questões referentes à consultoria da empresa. Investigações virtuais por computação eram um dos ramos da empresa, que seu cunhado tinha começado e era agora levado adiante pelos seus sobrinhos e seu filho mais velho, agora com vinte e cinco anos. Seu sobrinho Antônio Alves de Souza, de trinta e oito anos, era presentemente o sócio majoritário da Souza Consultoria Ltda.. Souza e seus irmãos tinham outros interesses, eram escritores amadores, divulgando textos pequenos à medida que iam surgindo em suas mentes, contos de ficção, crônicas, pensamentos, etc., e imprimiam seu trabalho em textos e o mantinham em suas bibliotecas.
Antônio Alves de Souza tivera interação com a Sociedade Secundária Brasileira de Magia, e estivera ultimamente estudando as manifestações de Jurupari ou Anhanga no mundo atual. Embora não temesse a arte de magia, não a desprezava e considerava os despachos e rituais de candomblé com atenção. Indo ao mercado, comprou algumas verduras e legumes para sua dieta balanceada, e seguiu caminhando pelas ruas de Botafogo até seu prédio, sem observar nada que fugisse ao normal. Era alto e usava óculos.
Também em relação com a tecnologia de informação do mundo moderno percebia Antonio Alves de Souza manifestações do mundo espiritual. Certos processos mágicos de origem jê e aruaque ele já tinha utilizado para interferir no funcionamento e estabilidade de seus computadores, de forma que seria difícil de explicar a uma pessoa que não tivesse tais percepções. Inclusive aí oferendas aos deuses celtas indo-europeus que eram ligados ao mundo mitológico nativo-brasileiro, com a magia lusitana que também é parte do patrimônio brasileiro. Endovélico já tinha sido invocado em sessões de que Souza mesmo participara em companhia de araras e papagaios espirituais Uyrá-Geropary e Kaapora, nos imóveis da SSBM na região do Estado do RJ. Pensava nas mulheres de Botafogo com que sempre pretendera se relacionar, porém as dificuldes impostas por uma única mulher que fosse o faziam se manter em um equilíbrio a distância. Entretanto, seus estudos, inclusive aí seus avanços no ramo da magia, proviam recursos que ele poderia utilizar para conseguir suas coisas a esse respeito de conquistar mulheres.
Em seu quarto e escritório, Antônio Alves de Souza se sentou em seu computador e conferiu as mensagens em suas contas de correio eletrônico. Tinha obtido resposta de um seu primo no Ceará, concernindo literatura antiga cabocla das paróquias do município de Santa Quitéria. Um livro velho de feitiços Tarairius estava para ser escaneado e uma cópia poderia ser lhe enviada. Redigiu então uma mensagem para uma de suas mulheres que eram possibilidades de namoro, Fernanda Meirelles. Ambos eram parte de uma lista de discussão sobre mitologia nativo-americana na interrede. Comunicou a Meirelles a notícia do Ceará, e lhe deu as linhas gerais da obra. Ela não era membro da Sociedade Secundária Brasileira de Magia, mas ainda assim tinha algumas noções do que acontecia pelo Brasil em termos de conhecimento oculto. Antônio pretendia uma maior aproximação com Fernanda, que contava 31 anos, mas ele não tinha afobação.
Havia anos que Antônio Alves de Souza vinha tendo os mesmos sonhos, desde que estudara em interrede as características que unem Jurupari e Anhanga, ou Janchon, como o chamam os índios Botocudos, desde conhecer a obra de Barbosa Rodrigues e Souza Rodrigues e outros que os seguiram. Sonhava com algumas pontes ligando as janelas dos escritórios no centro do Rio de Janeiro, onde passeavam pessoas de todas as épocas, espíritos que haviam vivido há tempo e hoje eram espíritos na terra, e a visão da cidade de uma distância um pouco maior, de um observador mais afastado, ia mostrando uma unidade naquela divisão, e as pontes continuavam para os outros bairros e cobriam a cidade inteira. Algumas luzes pequenas que lhe lembravam a ideia de fogo-fátuo, como nas reuniões dos espíritos segundo alguns índios jês.
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