sexta-feira, 4 de maio de 2018

Incidente na Serra
De Herculano de Lima Einloft Neto.
Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2018.

Na Serra de Nova Friburgo a chuva costuma cair repentinamente logo após uma manhã de sol, e os que sabem disso também não hão de duvidar das cachoeiras e lugares naturais que se encontram nos distritos menos urbanizados de Lumiar e Boa Esperança, as lagoas, as plantações de cana e as estradas que à noite, à beira do mato, são escuras e reservadas. Há anos a estrada entre Lumiar e Boa Esperança foi asfaltada, e a história que ora relato se passa em época posterior, quando os quilômetros que ligam os dois distritos não eram mais de terra em percurso sinuoso, que durante a chuva criava poças e que cansava os caminhantes noturnos, depois de uma noite na praça de Lumiar. Ali em Boa Esperança de Baixo há condomínios que alugam casas por temporadas, à beira de um rio, e durante uma estada lá, João Castro e Antonio Freitas tiveram uma experiência que jamais esqueceram, pelo inusitado e inaudito, e hoje ainda têm dificuldade em comentar o ocorrido, pois que a descrença dos ouvintes é a regra.

A colonização suiça de Nova Friburgo, parece ter trazido algumas lendas suiças também, como os gnomos que alguns moradores gostam de dizer que habitam as encostas de mato entre Lumiar e São Pedro da Serra. Castro e Freitas vieram por dois dias para uma casa na beira do rio, para tomar chá, ler e ver a paisagem. João Castro era matemático e escritor amador, Antonio Freitas era jornalista, escritor amador e amante da natureza. Ambos tinham 40 anos de idade. Desceram do ônibus que pegaram no Rio de Janeiro, pegaram o outro ônibus para o condomínio à beira do rio, e instalaram a pouca bagagem na pequena casa. Aproveitaram o primeiro dia de forma tranquila, havia mais duas casas ocupadas no condomínio, uma por um casal, e outra por um homem. Enquanto Castro se mantinha mais no condomínio, escrevendo digitando ao computador, tomando notas e lendo seus livros, Freitas saía mais para caminhar, em busca de algum movimento, algum bar, e de observações da natureza e da arquitetura local. Nesta primeira tarde Antonio Freitas caminhou bastante até encontrar uma trilha que adentrava ao lado da estrada, trilha pela qual entrou talvez animado pelo dia nublado, e que logo se revelou um pouco mais estreita e difícil do que o esperado. A mata logo começou a fechar, e Freitas teve então receio de cobras e outros incidentes perigosos, pelo que tencionou voltar; mas sua atenção foi tomada por alguns pássaros de cores vivas que observou a uns dez metros de distância, em uma reunião que julgou no mínimo peculiar. Em baixo de uma árvore, Antonio Freitas via um grupo de dez a quinze aves, cujas espécies não soube precisar, das mais diversas cores, do tamanho de araras ou papagaios, mas de bicos longos. As havia azuis, verdes, vermelhas e amarelas, e os olhos das aves pareciam emitir um brilho tênue e estranho. Freitas esfregou os olhos, e continuou observando as aves que agora tinham o notado. Como as aves o olhassem sem fazer barulho e sem piar, e continuassem o encarando, se sentiu desconfortável, e então passou a fazer o caminho de volta. Com uma rapidez e um desconforto difícil de explicar, conseguiu sair da trilha por onde tinha entrado, e seguiu viagem pela estrada até chegar a um bar que ficava aberto. Tomou uma água, ficou algum tempo apreciando um pequeno lago no local, e começou a retornar para o condomínio pelas 16:00. Enquanto retornava, Freitas tentava rever a trilha por onde tinha passado, mas malgrado todos os seus esforços e pesquisas, não conseguiu localizar o local por onde tinha caminhado havia alguma horas.

Chegando à casa no condomínio, relatou o ocorrido a Castro, que não duvidou do que ouvia, mas achou o relato peculiar e esquisito. Se propuseram a tentar localizar a trilha novamente no dia seguinte, se houvesse tempo, tinham muitas outros planos para a estadia de fim-de-semana. Nesta noite resolveram descer para a praça de Lumiar para beber água e aproveitar o movimento, e a beleza das mulheres locais.

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