quinta-feira, 30 de março de 2017


Um Estudante Clássico
De Anton Chekhov.
Tradução de língua russa para língua inglesa.
De Constance Garnett.
De https://ebooks.adelaide.edu.au/c/chekhov/anton/cooks-wedding/chapter8.html .
Tradução de língua inglesa para língua portuguesa do Brasil.
De Herculano de Lima Einloft Neto.
Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2017.


Antes de partir para seu exame em Grego, Vanya beijou todas as imagens santas. Seu estômago ele sentia como se ele estivesse de cabeça para baixo; havia um calafrio em seu coração, enquanto o coração ele mesmo pulsava e ficava parado com terror diante do desconhecido. O que ele obteria aquele dia? Um três ou um dois? Seis vezes ele foi a sua mãe para sua benção, e, enquanto ele saia, pediu a sua tia para rezar por ele. No caminho para a escola ele deu a um mendigo dois copeques, na esperança de que aqueles dois copeques iriam compensar por sua ignorância, e que, agrade a Deus, ele não iria obter os numerais com aqueles horríveis quarentas e oitentas.

Ele voltou da escola de 2.o grau tarde, entre quatro e cinco. Ele entrou, e sem ruído deitou em sua cama. Sua face fina estava pálida. Havia aneis escuros ao redor de seus olhos vermelhos.

"Bem, como você se saiu? Como você foi marcado?" Perguntou sua mãe, indo para o lado de sua cama.

Vanya piscou, torceu sua boca, e irrompeu em lágrimas. Sua mãe se tornou pálida, deixou sua boca cair aberta, e segurou suas próprias mãos. Os culotes que ela estava emendando caíram fora de suas mãos.

"Por que você está chorando? Você falhou, então?" ela perguntou.

"Eu estou reprovado.... Eu obtive um dois."

"Eu sabia que seria assim! Eu tinha um pressentimento disso," disse sua mãe. "Deus piedoso! Como é que você não passou? Qual a razão para isso? Em que matéria você falhou?"

"Em Grego.... Mãe, eu... Eles me perguntaram o futuro de phero, e eu... em vez de dizer oisomai disse opsomai. Então... então não há um acento, se a última sílaba é longa, e eu... eu fiquei perturbado.... eu esqueci que o alpha era longo nisso.... eu fui e pus dentro o acento. então Artaxerxov me disse para dar a lista das partículas enclíticas... eu o fiz, e eu acidentalmente misturei dentro um pronome... e cometi um erro... e então ele me deu um dois... eu sou uma pessoa miserável.... eu estava trabalhando a noite toda.... eu tenho estado levantando às quatro horas toda esta semana...."

"Não, não é você mas eu que sou miserável, seu garoto desventurado! Sou eu que sou miserável! Você me gastou até um papel de linha[1], seu Herodes, seu tormento, seu perdição de minha vida! Eu pago por você, seu lixo bom-para-nada; eu dobrei minhas costas labutando para você, eu estou preocupada até a morte, e, eu posso dizer, eu sou infeliz, e o que você se importa? Como você trabalha?"

"Eu ... eu trabalho. A noite toda....você o viu você mesma."

"Eu rezei a Deus para me levar, mas Ele não vai me levar, uma mulher pecadora. ... Seu tormento! Outras pessoas têm filhos como todo mundo mais, e eu tenho um somente e nenhum senso, nenhum conforto saindo dele. Bater em você? Eu iria bater em você, mas onde sou eu para encontrar a força? Mãe de Deus, onde sou eu para encontrar a força?"

A mamãe escondeu sua face nas pregas de sua blusa e quebrou em soluços. Vanya se torceu com angústia e pressionou sua testa contra a parede. A tia entrou.

"Então é assim que é. . . . Justamente o que eu esperava," ela disse, de uma vez adivinhando o que estava errado, se tornando pálida e apertando suas mãos. "Eu tenho estado deprimida a manhã toda....Há problema vindo, eu pensei ...e aqui está ele vindo...."

"O vilão, o tormento!"

"Por que você está o xingando?" gritou a tia, nervosamente puxando seu lenço cor-de-café fora de sua cabeça e se virando sobre a mãe. "Não é culpa dele! É culpa sua! Você é para ser culpada! Por que você o enviou para aquela escola secundária? Você é uma dama fina! Você quer ser uma dama? A-a-ah! Eu ouso dizer, como se você vai virar gente de boa família[2]! Mas se você tivesse o enviado, como eu lhe disse, para negócios... para um escritório, como meu Kuzya... aqui está Kuzya ganhando quinhentos por ano... Quinhentos rublos é válido de ter, não é? E você está se gastando fora, e gastando o garoto fora com este estudar, a praga o leve! Ele é magro, ele tosse... justamente olhe para ele! Ele tem treze anos, e ele não parece ter mais do que dez."

"Não, Nastenka, não, minha querida! Eu não o bati o suficiente, o tormento! Ele deveria ter sido espancado, isso é o que é! Ugh... Jesuíta, Maomé, tormento!" ela agitou seu punho para seu filho. "Você quer uma fustigação, mas eu não tenho a força. Eles me disseram anos atrás quando ele era pequeno, "Açoite-o, açoite-o!" Eu não prestei atenção neles, mulher pecadora como eu sou. E agora eu estou sofrendo por isso. Você espere um pouco! Eu irei o esfolar! Espere um pouco...."

A mamãe agitou seu punho molhado, e foi chorando para dentro do quarto de seu locatário. O locatário, Yevtihy Kuzmitch Kuporossov, estava sentado em sua mesa, lendo "Dançar Auto-didático." Yevtihy Kuzmitch era um homem de inteligência e educação. Ele falava através de seu nariz, lavado com um sabonete o cheiro do qual fazia todo mundo na casa espirrar, comia carne em dias de jejum, e estava procurando[3] por uma noiva de educação refinada, e então era considerado o mais inteligente dos locatários. Ele cantava tenor.

"Meu bom amigo," começou a mamãe, se dissolvendo em lágrimas. "Se você iria ter a generosidade -- espanque meu garoto para mim.... Me faça o favor! Ele falhou em seu exame, o incômodo de um garoto! Você iria acreditar nisso, ele falhou! Eu não posso o punir, através da fraqueza de minha saúde-doentia.... O espanque para mim, se você iria ser tão serviçal[4] e atencioso[5], Yevtihy Kuzmitch! Tenha consideração por uma mulher doente!"

Kuporossov franziu as sobrancelhas e ofegou um suspiro profundo através de seu nariz. Ele pensou um pouco, tamborilou sobre a mesa com seus dedos, e suspirando uma vez mais, foi para Vanya.

"Você está sendo ensinado, para dizer assim," ele começou, "sendo educado, estão lhe dando uma chance, sua pessoa jovem revoltante! Por que você o fez?"

Ele falou por um tempo longo, fez um discurso regular. Ele aludiu a ciência, a luz, e a escuridão.

"Sim, pessoa jovem."

Quando ele tinha terminado seu discurso, ele tirou seu cinto e tomou Vanya pela mão.

"É o único jeito de lidar com você," ele disse. Vanya se ajoelhou submissamente e enfiou sua cabeça entre os joelhos do locatário. Suas orelhas rosas proeminentes se moviam acima e abaixo contra as calças de sarja[6] novas do locatário, com listras marrons nas costuras externas.

Vanya não proferiu um único som. No conselho de família na noite, foi decidido o enviar para negócios.

Cf. Houaiss, Avery, Dicionário Barsa.
Cf. Dicionário Houaiss da língua portuguesa.
Cf. dict, GNU/Linux.
Cf. http://michaelis.uol.com.br/moderno-ingles/ .

Notas de Tradução:

[1] threadpaper, papel de linha, etc.
[2] gentry, pequena nobreza, gente de boa família, etc.
[3] on the look-out, na vigia, procurando por, etc.
[4] obliging, amável, serviçal, prestativo, etc.
[5] considerate, atencioso, considerativo, etc.
[6] serge, sarja: tecido durável.

quarta-feira, 22 de março de 2017


Pessoas Excelentes
De Anton Chekhov.
Tradução de língua russa para língua inglesa.
De Constance Garnett.
De https://ebooks.adelaide.edu.au/c/chekhov/anton/duel/chapter2.html#chapter2 .
Tradução de língua inglesa para língua portuguesa do Brasil.
De Herculano de Lima Einloft Neto.
Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2017.

Uma vez vivia em Moscou um homem chamado Vladimir Semyonitch Liadovsky. Ele tomou sua graduação na universidade na faculdade de direito e tinha um posto na junta de gerenciamento de alguma estrada de ferro; mas se você tivesse lhe perguntado o que era seu trabalho, ele iria olhar candidamente e abertamente para você com seus grandes olhos brilhantes através de seu pincenez dourado, e iria responder em um barítono ceceoso, veludoso, suave:

"Meu trabalho é literatura."

Depois de completar seu curso na universidade, Vladimir Semyonitch tinha tido um parágrafo de criticismo teatral aceito por um jornal. Deste parágrafo ele passou adiante para revisão, e um ano depois ele tinha avançado para escrever um artigo semanal sobre matérias literárias para o mesmo jornal. Mas não se depreende destes fatos que ele era um amador, que seu trabalho literário era de um caráter ocasional, efêmero. Quando quer que eu via sua figura elegante disponível, sua testa alta e longa cabeleira comprida, quando eu ouvia os seus discursos, sempre me parecia que seu escrever, inteiramenteà parte do que e como ele escrevia, era alguma coisa organicamente parte dele, como a batida de seu coração, e que seu programa literário todo precisa ter sido uma parte integral de seu cérebro enquanto ele era um bebê no útero de sua mãe. Mesmo em seu andar, seus gestos, sua maneira de sacudir fora a cinza de seu cigarro, eu podia ler esse programa todo de A a Z, com sua bazófia, tédio e sentimentos honoráveis. Ele era um homem literário completamente quando com uma face inspirada ele deitava uma coroa de funeral sobre o caixão de alguma celebridade, ou com uma face solene e grave colecionava assinaturas para algum endereçamento; sua paixão por fazer o conhecimento de homens literários distinguidos, sua faculdade para achar talento mesmo onde ele estava ausente, seu entusiasmo perpétuo, seu pulso que ia a cento e vinte por minuto, sua ignorância de vida, a agitação genuinamente feminina com que ele se atirava em concertos e noites literárias pelo benefício de estudantes destituídos, o jeito em que ele gravitava para os jovens -- tudo isso teria criado para ele a reputação de um escritor mesmo se ele não tivesse escrito seus artigos.

Ele era um desses escritores para quem frases como, "Nós somos apenas poucos," ou "O que seria a vida sem disputa? Avante!" eram preeminentemente convenientes, embora ele nunca contendesse com qualquer um e nunca fosse avante. Nem soava enjoativo quando ele se dava a discursar de ideais. Todo aniversário da universidade, no Dia de Santa Tatiana, ele ficava bêbado, cantava 'Gaudeamus' fora do tom, e sua face perspirante e radiante parecia dizer: "Vejam, eu estou bêbado; eu estou o mantendo acima!" Mas mesmo isso lhe ficava adequado.

Vladimir Semyonitch tinha fé genuína em sua vocação literária e seu programa todo. Ele não tinha dúvidas, e era evidentemente muito bem satisfeito consigo mesmo. Apenas uma coisa o afligia -- o jornal para que ele trabalhava tinha uma circulação limitada e não era muito influente. Mas Vladimir Semyonitch acreditava que mais cedo ou mais tarde ele iria ser bem sucedido em chegar a uma revista sólida onde ele iria ter escopo e poderia se exibir -- e que pouca aflição ele sentisse nessa conta era pálida ao lado do brilho de suas esperanças.

Visitando esse homem encantador, eu fiz o conhecimento de sua irmã, Vera Semyonovna, uma doutora mulher. A primeira vista, o que me impressionou sobre essa mulher foi sua aparência de exaustão e extrema má-saúde. Ela era jovem, com uma boa figura e feições preferivelmente grandes, regulares, mas em comparação com seu irmão falante, elegante e ágil ela parecia angular, indiferente, desalinhada e taciturna[1]. Havia alguma coisa forçada[2] em seus movimentos, sorrisos, e palavras; ela não era gostada[3], e era pensada orgulhosa e não muito inteligente.

Na realidade, eu imagino, ela estava descansando.

"Meu caro amigo," o irmão dela iria frequentemente dizer a mim, suspirando e lançando para trás seu cabelo em seu jeito literário pitoresco, "um não deve nunca julgar por aparências! Olhe para este livro: ele foi há longo tempo lido. Ele está torto, esfarrapado, e fica na poeira não cuidado; mas o abra, e ele irá fazer você chorar e se tornar pálido. Minha irmã é como esse livro. Levante a capa e espreite dentro da alma dela, e você irá ser atacado de horror. Vera passou em alguns três meses através de experiências que iriam ter sido amplas por um período de vida inteiro!"

Vladimir Semyonitch olhou em volta dele, me tomou pela manga, e começou a sussurrar:

"Você sabe, depois de tomar sua graduação ela se casou, por amor, com um arquiteto. É uma tragédia completa! Eles tinham apenas sido casados um mês quando -- whew -- o marido dela morreu de tifo. Mas isso não foi tudo. Ela pegou tifo dele, e quando, em sua recuperação, ela soube que seu Ivan estava morto, ela tomou uma boa dose de morphia. Se não tivesse sido por medidas vigorosas tomadas pelos amigos dela, minha Vera iria estar por agora em Paraíso. Me diga, não é uma tragédia? E não é minha irmã como uma ingénue, que tem jogado já todos os cinco atos da vida dela? A audiência pode ficar pela farsa, mas a ingénue precisa ir para casa para descansar."

Depois de três meses de miséria Vera Samyonovna tinha vindo para viver com seu irmão. Ela não estava em condições para a prática de medicina, que a exaustava e não a satisfazia; ela não dava a um a impressão de saber seu tema, e eu nunca uma vez ouvi ela dizer qualquer coisa referindo a seus estudos médicos.

Ela desistiu de medicina, e, silenciosa e desocupada, como se ela fosse uma prisioneira, gastou o restante de sua juventude em apatia sem cor, com cabeça curvada e mãos penduradas. A única coisa a que ela não era completamente indiferente, e que trazia algum brilho para o crepúsculo de sua vida, era a presença de seu irmão, a quem ela amava. Ela o amava ele-mesmo e seu programa, ela era cheia de reverência pelos artigos dele; e quando ela era perguntada o que o irmão dela estava fazendo, ela iria responder em uma voz branda como se com medo de o acordar ou distrair: "Ele está escrevendo...." Usualmente quando ele estava em seu trabalho ela costumava sentar ao lado dele, seus olhos fixos em sua mão escrevente. Ela costumava em tais momentos parecer como um animal doente se aquecendo no sol....

Uma noite de inverno Vladmir Semyonitch estava sentando em sua mesa escrevendo um artigo crítico para seu jornal: Vera Semyonovna estava sentando ao lado dele, olhando fixamente como de costume para sua mão escrevente. O crítico escrevia rapidamente, sem apagamentos ou correções. A caneta escrevinhava e guinchava. Na mesa perto da mão escrevente estava deitado aberto um volume recentemente cortado de uma grossa revista, contendo uma história de vida camponesa, assinada com duas iniciais. Vladimir Semyonitch estava entusiástico; ele pensava que o autor era admirável em seu tratar do tema, sugeria Turgenev em suas descrições de natureza, era verdadeiro, e tinha um conhecimento excelente da vida dos camponeses. O crítico ele mesmo não sabia nada de vida camponesa exceto de livros e ouvir dizer, mas seus sentimentos e suas convicções internas o forçavam a acreditar na história. Ele predizia um futuro brilhante para o autor, o assegurava que ele deveria esperar a conclusão da história com grande impaciência, e assim por diante.

"História fina!" ele dizia, se arremesando a si mesmo para trás em sua cadeira e fechando seus olhos com prazer. "O tom é extremamente bom."

Vera Samyonovna olhava para ele, bocejou alto, e subitamente perguntou uma pergunta inesperada. Na noite ela tinha um hábito de bocejar nervosamente e perguntar perguntas abruptas, curtas, nem sempre relevantes.

"Volodya," ela perguntou, "qual é o significado de não-resistência a mal?"

"Não-resistência a mal!" repetiu seu irmão, abrindo seus olhos.

"Sim. O que você compreende por isso?"

"Você vê, minha querida, imagine que ladrões ou bandidos a ataquem, e você, em vez de..."

"Não, me dê uma definição lógica.

"Uma definição lógica? Um! Bem." Vladimir Semyonitch ponderou. "Não-resistência a mal significa uma atitude de não-interferência com respeito a tudo que na esfera de mortalidade é chamado mal."

Dizendo isto, Vladimir Semyonitch se dobrou sobre a mesa e tomou acima um romance. Esse romance, escrito por uma mulher, lidava com a dor da posição irregular de uma dama de sociedade que estava vivendo sob o mesmo teto com seu amante e sua criança ilegítima. Vladimir Semyonitch estava satisfeito com a tendência excelente da história, o enredo[4] e a apresentação dela. Fazendo um breve sumário do romance, ele selecionou as melhores passagens e adicionou a elas em sua conta: "Quão verdadeiro a realidade, quão vivo, quão pitoresco! O autor não é meramente um artista; ele é também um psicólogo sutil que pode ver dentro dos corações de seus personagens. Tome, por exemplo, essa descrição vívida das emoções da heroína em encontrando seu marido," e assim por diante.

"Volodya," Vera Semyonovna interrompeu suas efusões críticas, "eu tenho sido assombrada por uma ideia estranha desde ontem. Eu me mantenho imaginando onde nós deveríamos todos estar se vida humana fosse ordenada na base de não resistência a mal?"

"Em toda probabilidade, em lugar nenhum. Não resistência a mal iria dar a rédea toda à vontade criminal, e, para não dizer nada de civilização, isso iria deixar não uma pedra ficando sobre outra em qualquer lugar sobre terra."

"O que iria ficar de resto?"

"Bashi-Bazouke e bordéis. Em meu próximo artigo eu irei falar sobre isso talvez. Obrigado por me lembrar."

E uma semana depois meu amigo mantinha sua promessa. Isso foi justamente no período -- nos anos oitenta -- quando pessoas estavam começando a falar e escrever de não-resistência, do direito de julgar, de punir, de fazer guerra; quando algumas pessoas em nosso conjunto estavam começando a ir sem serventes, a se retirar para dentro do campo, a trabalhar na terra, e a renunciar comida animal e amor carnal.

Depois de ler o artigo de seu irmão, Vera Semyonovna ponderou e dificilmente perceptivelmente deu de ombros.

"Muito bonito!" ela disse. "Mas ainda há muito que eu não entendo. Por exemplo, na história de Leskov 'Pertencente à Catedral' há um jardineiro esquisito que semeia para o benefício de todos -- para clientes, para mendigos, e qualquer um que se importe de roubar. Se comportou ele sensivelmente?"

Do tom e expressão de sua irmão Vladimir Semyonitch viu que ela não gostara de seu artigo, e, quase pela primeira vez na vida dele, sua vaidade como autor susteve um choque. Com uma sombra de irritação ele respondeu:

"Roubo é imoral. Semear para ladrões é reconhecer o direito de ladrões a existência. O que iria você pensar se eu fosse para estabelecer um jornal e, o dividindo em seções, prover para chantagem tão bem como para ideias liberais? Seguindo o exemplo desse jardineiro, eu deveria, logicamente, prover uma seção para chantagistas, os patifes intelectuais? Sim."

Vera Semyonovna não fez nenhuma resposta. Ela se levantou da mesa, se moveu languidamente para o sofa e se deitou.

"Eu não sei, eu não sei nada sobre isso," ela disse contemplativamente. "Você está certo provavelmente, mas parece para mim, eu sinto de alguma maneira, que há alguma coisa falsa em nossa resistência a mal, como se houvesse alguma coisa oculta ou não-dita. Deus sabe, talvez nossos métodos de resistir a mal pertençam à categoria de preconceitos que se tornaram tão profundamente arraigados em nós, que nós somos incapazes de nos separar deles, e portanto não podemos formar um julgamento correto deles."

"Como você quer dizer?"

"Eu não sei como explicar para você. Talvez homem esteja enganado em pensar que ele é obrigado a resistir a mal e tem um direito a o fazer, justamente como ele está enganado em pensar, por exemplo, que o coração parece como um ás de copas. É muito possível que em resistindo a mal nós não devessemos usar força, mas usar o que é o oposto mesmo de força -- se você, por exemplo, não quer esse quadro roubado de você, você deveria o dar preferivelmente que o trancar...."

"Isso é esperto, muito esperto! Se eu quiser casar com uma mulher vulgar, rica, ela devia me impedir de uma tal ação miserável por se apressando a me fazer uma oferta ela mesma!"

O irmão e irmã falaram até meia-noite sem se entenderem um ao outro. Se qualquer forasteiro tivesse os escutado ele iria dificilmente ter sido capaz de perceber para onde cada um deles estava se direcionando.

Eles usualmente passavam a noite em casa. Não havia nenhumas casas de amigos a que eles pudessem ir, e eles não sentiam necessidade nenhuma para amigos; eles apenas iam ao teatro quando havia uma nova peça -- tal era o costume em círculos literários --eles não iam a concertos, pois eles não se importavam com música.

"Você pode pensar o que você quiser," Vera Semyonovna começou de novo o dia seguinte, "mas para mim a questão está a uma grande extensão resolvida. Eu estou firmemente convencida de que eu não tenho nenhuns fundamentos para resistir a mal dirigido contra mim pessoalmente. Se eles querem me matar, os deixe. Meu me defender não irá tornar o assassino melhor. Tudo que eu tenho agora para decidir é a segunda metade da questão: como eu deveria me comportar com mal dirigido contra meus vizinhos?"

"Vera, cuide para que você não se torne rábida!" disse Vladimir Semyonitch, rindo. "Eu vejo que não-resistência está se tornando sua idée fixe!"

Ele queria desligar essas conversações tediosas com uma graça, mas de alguma forma foi além de uma graça; seu sorriso foi artificial e azedo. Sua irmã deixou de sentar ao lado de sua mesa e fitar reverentemente a sua mão escrevente, e ele sentia toda noite que atrás dele no sofá jazia uma pessoa que não concordava com ele. E suas costas se tornaram duras e dormentes, e havia um frio na alma dele. A vaidade de um autor é vingativa, implacável, incapaz de perdão, e a irmã dele foi a primeira e única pessoa que tinha deitado despida e perturbada essa sensação inquieta, que é como uma grande caixa de louça de barro, fácil de desempacotar mas impossível de empacotar novamente como ela era antes.

Semanas e meses se passaram, e a irmã dele se apegava a as ideias dela, e não sentava perto da mesa. Uma noite de primavera Vladimir Semyonitch estava sentado em sua mesa escrevendo um artigo. Ele estava revisando um romance que descrevia como uma mestre-escola de vila recusava o homem a quem ela amava e que a amava, um homem ambos rico e intelectual, simplesmente porque casamento fazia seu trabalho como mestre-escola impossível. Vera Semyonovna jazia no sofa e meditava.

"Meu Deus, quão lento é!" ela disse, esticando os membros. "Quão insípida e vazia vida é! Eu não sei o que fazer comigo mesma, e você está gastando seus melhores anos em Deus sabe o quê. Como algum alquimista, você está rebuscando em lixo velho que ninguém quer. Meu Deus!"

Vladimir Semyonitch deixou cair sua caneta e lentamente olhou em volta para sua irmã.

"É deprimente olhar para você!" disse sua irmã. "Wagner em 'Fausto' desenterrou vermes, mas ele estava procurando um tesouro, de qualquer jeito, e você está procurando vermes por causa dos vermes."

"Isso é vago!"

"Sim, Volodya; todos estes dias eu tenho estado pensando, eu tenho estado pensando dolorosamente por um longo tempo, e eu cheguei à conclusão de que você é desesperadamente reacionário e convencional. Venha, pergunte a si mesmo qual é o objeto de seu trabalho consciencioso, zeloso? Me diga, qual é? Por que, tudo foi há longo tempo extraído que pode ser extraído desde esse lixo em que você está sempre rebuscando. Você pode socar água em um pilão e a analisar por tanto tempo como você goste, você não irá fazer nada mais dela do que os químicos fizeram já...."

"De fato!" falou com lentidão Vladimir Semyonitch, se levantando. "Sim, tudo isso é lixo velho porque estas ideias são eternas; mas o que você considera novo, então?"

"Você empreende trabalhar no domínio de pensamento; é para você pensar de alguma coisa nova. Não é para mim ensinar você."

"Eu -- um alquimista!" o crítico gritou em surpresa e indignação, torcendo acima seus olhos ironicamente. "Arte, progresso -- tudo isso é alquimia?"

"Você vê, Volodya, me parece que se todas vocês pessoas pensantes tivessem se colocado para resolver problemas grandes, todas essas questões pequenas sobre que vocês espalhafatam agora iriam se resolver a si mesmas pelo caminho. Se você vai acima em um balão para ver uma cidade, você irá incidentalmente, sem qualquer esforço, ver os campos e as vilas e os rios também. Quando estearina é fabricada, você obtem glicerina como um subproduto. Me parece que pensamento contemporâneo se assentou sobre um ponto e se fixou a ele. Ele é preconceituoso, apático, tímido, com medo de tomar um vôo titânico largo, justamente como você e eu temos medo de escalar em uma montanha alta; ele é conservador."

Tais conversas não podiam senão deixar traços. As relações do irmão e irmã se tornaram mais e mais hostis[5] todo dia. O irmão se tornou incapaz de trabalhar na presença de sua irmã, e se tornou irritável quando ele sabia que sua irmã estava jazendo no sofá, olhando para suas costas; enquando a irmã franzia as sobrancelhas nervosamente e as esticava quando, tentando trazer de volta o passado, ele tentava dividir seus entusiasmos com ela. Toda noite ela reclamava de estar entediada, e falava sobre independência de mente e aqueles que estão na rotina de tradição. Enlevada[6] por suas novas ideias, Vera Semyonovna provou que o trabalho em que seu irmão era tão ocupado era convencional, que era um esforço vão de mentes conservadoras para preservar o que já tinha servido seu turno e estava desaparecendo da cena de ação. Ela não fez fim de comparações. Ela comparou seu irmão a um tempo a um alquimista, então a um Crente velho mofado que iria antes morrer do que ouvir a razão. Por degraus havia uma mudança perceptível na maneira de vida dela, também. Ela era capaz de jazer no sofá o dia inteiro não fazendo nada senão pensar, enquanto sua face vestia uma expressão seca, fria tal como um vê em pessoas unilaterais de fé forte. Ela começou a recusar as atenções dos serventes, varria e arrumava seu próprio quarto, limpava suas próprias botas e escovava suas próprias roupas. Seu irmão não podia deixar de olhar com irritação e mesmo ódio para a face fria dela quando ela ia sobre[7] o trabalho servil dela. Nesse trabalho, que era sempre realizado com uma certa solenidade, ele via alguma coisa forçada e falsa, ele via alguma coisa ambos farisaica e afetada. E sabendo que ele não podia a tocar por persuasão, ele a censurava e importunava como um garoto de escola.

"Você não irá resistir a mal, mas você resiste meu ter serventes!" ele a insultava. "Se serventes são um mal, por que você se opõe a ele? Isso é inconsistente!"

Ele sofria, era indignado e mesmo envergonhado. Ele se sentiu envergonhado quando sua irmã começou a fazer coisas estranhas diante de estranhos.

"É terrível, meu caro companheiro," ele me disse em privado, balançando suas mãos em desespero. "Parece que nossa 'ingénue' tem permanecido para desempenhar um papel na farsa, também. Ela se tornou mórbida até o tutano de seus ossos! Eu lavei minhas mãos dela, a deixava pensar como ela goste; mas por que ela fala, por que ela me excita? Ela deveria pensar o que significa para mim a ouvir. O que eu sinto quando em minha presença ela tem o desaforo de suportar seus erros por blasfemamente citando o ensinamento de Cristo! Isso me sufoca! Me faz quente por todo lado ouvir minha irmã propondo suas doutrinas e tentando distorcer o Evangelho para lhe convir, quando ela propositalmente evita mencionar como os cambistas foram expulsos do Templo. Isso é, meu caro companheiro, o que vem de ser meio educada, não desenvolvida! Isso é o que vem de estudos médicos que não proveem nenhuma cultura geral!"

Um dia em vindo para casa do escritório, Vladimir Semyonitch encontrou sua irmã chorando. Ela estava sentando no sofá com sua cabeça curvada, apertando suas mãos, e lágrimas estavam fluindo livremente abaixo suas bochechas. O bom coração do crítico pulsou com dor. Lágrimas caíram de seus olhos, também, e ele almejou mimar sua irmã, a perdoar, pedir seu perdão, e viver como eles costumavam antes.... Ele se ajoelhou abaixo e beijou a cabeça dela, suas mãos, seus ombros.... Ela sorriu, sorriu amargamente, inexplicavelmente[8], enquanto ele com um grito de alegria pulou acima, pegou a revista da mesa e disse calorosamente:

"Hurrah! Nós iremos viver como nós costumávamos, Verotchka! Com a benção de Deus! E eu tenho uma tal surpresa para você aqui! Em vez de celebrar a ocasião com champanhe, nos deixe o ler juntamente! Uma coisa maravilhosa, esplêndida!"

"Oh, não, não!" gritou Vera Semyonovna, empurrando embora o livro em alarme. "Eu o li já! Eu não o quero, eu não o quero!"

"Quando você o leu?"

"Um ano ... dois anos atrás ... Eu o li há longo tempo atrás, e eu o conheço, eu o conheço!"

"H'm! . . . Você é uma fanática!" seu irmão disse friamente, atirando a revista sobre a mesa.

"Não, você é um fanático, não eu! Você!" E Vera Semyonovna se dissolveu em lágrimas novamente. Seu irmão estava de pé diante dela, olhava para os ombros dela tremendo, e pensava. Ele pensava, não das agonias de solidão suportada por qualquer um que comece a pensar em um jeito novo próprio, não dos sofrimentos inevitáveis de uma revolução espiritual genuína, mas do ultraje de seu programa, o ultraje a sua vaidade de autor.

A partir desse tempo ele tratava sua irmã friamente, com ironia descuidada, e ele suportava a presença dela no quarto como um suporta a presença de mulheres velhas que são dependentes de um. Por sua parte, ela deixava de lado disputar com ele e respondia todos seus argumentos, zombarias, e ataques com um silêncio condescendente que o irritava mais do que nunca.

Uma manhã de verão Vera Semyonovna, vestida para viajar com uma mochila escolar sobre seu ombro, foi para seu irmão e friamente o beijou na testa.

"Onde você está indo?" ele perguntou com surpresa.

"Para a província de N. para fazer trabalho de vacinação." Seu irmão saiu fora para dentro da rua com ela.

"Então isso é o que você decidiu, sua garota esquisita," ele murmurou. "Você não quer algum dinheiro?"

"Não, obrigada. Tchau."

A irmã cumprimentou a mão do irmão e saiu.

"Por que você não tem um táxi?" gritou Vladimir Semyonitch.

Ela não respondeu. Seu irmão a fitou, assistiu sua capa impermeável de aparência enferrujada, o balançar de sua figura enquanto ela andava com porte relaxado ao longo, se forçou a suspirar, mas não foi bem sucedido em suscitar um sentimento de arrependimento. Sua irmã tinha se tornado uma estranha para ele. E ele era um estranho para ela. De qualquer jeito, ela não olhou para trás nem uma única vez.

Indo de volta para seu quarto, Vladimir Semyonitch de uma vez sentou à mesa e começou a trabalhar em seu artigo.

Eu nunca vi Vera Semyonovna novamente. Onde ela está agora eu não sei. E Vladimir Semyonitch continuou escrevendo seus artigos, colocando coroas em caixões, cantando Gaudeamus, se ocupando com a Sociedade de Ajuda Mútua de Jornalistas de Moscou.

Ele caiu doente com uma inflamação dos pulmões; ele esteve doente de cama por três meses -- primeiramente em casa, e depois no Hospital Golitsyn. Um abscesso se desenvolveu em seu joelho. Pessoas diziam que ele deveria ser enviado para a Crimeia, e começaram a levantar uma coleta para ele[9]. Mas ele não foi para a Crimeia -- ele morreu. Nós o enterramos no Cemitério Vagankovsky, no lado esquerdo, onde artistas e homens literários são enterrados.

Um dia nós escritores estávamos sentando no restaurante dos Tatars. Eu mencionei que eu tinha ultimamente estado no Cemitério Vagankovsky e tinha visto o túmulo de Vladimir Semyonitch lá. Ele estava completamente negligenciado e quase indistinguível do resto do chão, a cruz tinha caído; era necessário coletar alguns poucos rublos para o por em ordem.

Mas eles ouviram o que eu disse despreocupadamente, não fizeram resposta, e eu não pude coletar uma insignificância. Ninguém se lembrava de Vladimir Semyonitch. Ele foi completamente esquecido.

Cf. Houaiss, Avery, Dicionário Barsa.
Cf. Dicionário Houaiss da língua portuguesa.
Cf. http://michaelis.uol.com.br/moderno-ingles/ .
Cf. http://www.wordreference.com/enpt/ , Dicionário Inglês-Português (Brasil).

Notas de Tradução:

[1] angular, listless, slovenly, and sullen.
[2] strained, hostil, cansada, forçada.
[3] liked.
[4] plot.
[5] strained, hostis, cansadas.
[6] carried away, enlevada, carregada embora, etc.
[7] went about her menial work, ia sobre seu trabalho servil, etc.
[8] unaccountably, irresponsavelmente, inexplicavelmente.
[9] and began getting up a collection for him.

terça-feira, 7 de março de 2017


Celephais
De H. P. Lovecraft.
De http://www.hplovecraft.com/writings/texts/fiction/c.aspx .
Tradução de língua inglesa para língua portuguesa do Brasil.
De Herculano de Lima Einloft Neto.
Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2017.

Em um sonho Kuranes viu a cidade no vale, e a costa marítima além, e o pico nevado olhando de cima o mar, e as galés pintadas alegremente que navegam fora do porto para as regiões distantes onde o mar encontra o céu. Em um sonho foi também que ele veio por encontrar seu nome de Kuranes, pois quando acordado ele era chamado por um outro nome. Talvez era natural para ele sonhar um nome novo; pois ele era o último de sua família, e só entre os milhões indiferentes de Londres, então não havia muitos para falar a ele e o lembrar de quem ele tinha sido. Seu dinheiro e terras eram idos, e ele não se importava com as maneiras de pessoas ao redor dele, mas preferia sonhar e escrever de seus sonhos. O que ele escrevia era rido de por aqueles a quem ele o mostrava, de forma que depois de um tempo ele mantinha seus escritos para ele mesmo, e finalmente cessou de escrever. Quanto mais ele se retirava do mundo ao redor dele, mais maravilhosos se tornavam seus sonhos; e teria sido inteiramente fútil tentar os descrever em papel. Kuranes não era moderno, e não pensava como outros que escreviam. Enquanto eles se esforçavam por desnudar da vida seus mantos ornados de mito, e para mostrar em feiúra nua a coisa suja que é realidade, Kuranes procurava por beleza só. Quando verdade e experiência falhavam em a revelar, ele a procurava em fantasia e ilusão, e a achava em seu degrau da porta mesmo, entre as memórias nebulosas de contos de infância e sonhos.

Não há muitas pessoas que saibam que maravilhas estão abertas a elas nas histórias e visões de sua juventude; pois quando como crianças nós ouvimos e sonhamos, nós pensamos apenas pensamentos meio-formados, e quando como homens nós tentamos lembrar, nós estamos tornados estúpidos e prosaicos com o veneno de vida. Mas alguns de nós acordam na noite com fantasmas estranhos de colinas e jardins encantados, de fontes que cantam no sol, de rochedos íngremes dourados se projetando sobre mares murmurantes, de planos[1] que se estendem abaixo para cidades dormentes de bronze e pedra, e de companhias sombrias de heróis que cavalgam cavalos brancos ajaezados ao longo das bordas de florestas densas[2]; e então nós sabemos que nós temos olhado para trás através dos portões de marfim para dentro do mundo de maravilha que era nosso antes que nós fossemos sábios e infelizes.

Kuranes veio muito subitamente sobre seu mundo velho de infância. Ele tinha estado sonhando da casa onde ele nasceu; a grande casa de pedra coberta com hera, onde treze gerações de seus ancestrais tinham vivido, e onde ele tinha esperado morrer. Era luar, e ele tinha andado nas pontas dos pés para fora para dentro da noite de verão fragrante, através dos jardins, abaixo os terraços, passando pelos grandes carvalhos do parque, e ao longo da estrada branca longa para a vila. A vila parecia muito velha, carcomida[3] na borda como a lua que tinha começado a minguar, e Kuranes se perguntava se os tetos em pico das casas pequenas escondiam sono ou morte. Nas ruas estavam lanças de capim longo, e os vidros de janelas em ambos os lados estavam ou quebrados ou olhando fixamente de uma maneira membranosa. Kuranes não tinha se demorado, mas tinha caminhado lenta e penosamente adiante como se invocado para algum objetivo. Ele não ousava desobedecer aa invocação por medo que isso pudesse se provar uma ilusão como os desejos e aspirações da vida de vigília, que não levam a qualquer objetivo. Então ele tinha sido puxado abaixo uma travessa que levava fora da rua de vila para os rochedos íngremes de canal, e tinha chegado ao fim de coisas--ao precipício e o abismo onde toda a vila e todo o mundo caiam abruptamente para dentro do vazio sem eco de infinidade, e onde mesmo o céu em frente era vazio e não iluminado pela lua se esmigalhando e as estrelas perscrutantes[4]. Fé tinha o encorajado adiante, sobre o precipício e para dentro do golfo, onde ele tinha flutuado abaixo, abaixo, abaixo; passando por sonhos não-sonhados, sem forma, escuros, esferas brilhando fracamente que podem ter sido sonhos parcialmente sonhados, e coisas aladas ridentes que pareciam escarnecer os sonhadores de todos os mundos. Então uma fenda pareceu se abrir na escuridão diante dele, e ele viu a cidade do vale, brilhando radiantemente longe, longe abaixo, com um pano de fundo de mar e céu, e uma montanha de pico nevado[5] perto da costa.

Kuranes tinha acordado no momento mesmo em que ele contemplava a cidade, contudo ele sabia desse breve vislumbrar que ela não era nenhuma outra senão Celephais, no Vale de Ooth-Nargai além das Colinas Tanarianas, onde seu espírito tinha morado toda a eternidade de uma hora uma tarde de verão muito tempo atrás, quando ele tinha deixado discretamente sua enfermeira e deixado a brisa do mar morna o embalar para dormir enquanto ele assistia as nuvens do rochedo íngreme perto da vila. Ele tinha protestado então, quando eles tinham o achado, o acordado, e o carregado para casa, pois justamente enquanto ele era despertado ele tinha estado prestes a velejar em uma galé dourada para aquelas regiões atraentes[6] onde o mar encontra o céu. E agora ele estava igualmente ressentido de acordar, pois ele tinha achado sua cidade fabulosa depois de quarenta anos cansativos.

Mas três noites depois Kuranes veio novamente a Celephais. Como antes, ele sonhou primeiro da vila que estava adormecida ou morta, e do abismo abaixo de que um precisa flutuar silenciosamente; então a fenda apareceu novamente, e ele contemplou os minaretes brilhantes da cidade, e viu as galés graciosas estando ancoradas no porto azul, e observou as árvores gingko de Monte Aran balançando na brisa marítima. Mas dessa vez ele não foi arrebatado fora[7], e como um ser alado se assentou gradualmente sobre um declive gramado até que finalmente seus pés descansaram gentilmente sobre o gramado. Ele tinha de fato vindo novamente para o Vale de Ooth-Nargai e a cidade esplêndida de Celephais.

Abaixo a colina entre gramas cheirosas e flores brilhantes andou Kuranes, sobre o Naraxa borbulhante sobre a ponte de madeira pequena onde ele tinha entalhado seu nome tantos anos atrás, e através do bosque sussurrante para a ponte de pedra grande perto do portão da cidade. Tudo era como de antigamente, nem estavam as paredes de mármores descoloridas, nem as estátuas de bronze polido sobre elas deslustradas. E Kuranes viu que ele não precisava tremer para que as coisas que ele conhecia não desaparecessem; pois mesmo as sentinelas sobre as muralhas[8] eram as mesmas, e ainda tão jovens como ele se lembrava delas. Quando ele entrou na cidade, passando os portões de bronze e sobre os pavimentos de ônix, os mercadores e dirigidores de camelo o saudaram como se ele nunca tivesse estado ausente; e foi o mesmo no templo turquesa de Nath-Horthath, onde os clérigos com coroas de orquídea lhe disseram que não há tempo em Ooth-Nargai, mas somente juventude perpétua. Então Kuranes andou através da Rua de Pilares para a parede em direção do mar, onde se juntavam os comerciantes e marinheiros, e homens estranhos das regiões onde o mar encontra o céu. Lá ele ficou por longo tempo, olhando fixamente para fora sobre o porto brilhante onde os rastelos faiscavam sob um céu desconhecido, e onde flutuavam levemente as galés de lugares distantes sobre a água. E ele olhou fixamente também por sobre Monte Aran se levantando regiamente desde a costa, suas inclinações mais baixas verdes com árvores balançantes e seu cume branco tocando o céu.

Mais do que nunca Kuranes desejou velejar em uma galé para os lugares distantes de que ele tinha ouvido tantos contos estranhos, e ele procurou novamente o capitão que tinha concordado em o carregar tanto tempo atrás. Ele achou o homem, Athib, sentado no mesmo baú de especiarias[9] em que ele tinha sentado anteriormente, e Athib parecia não perceber que qualquer tempo tinha passado. Então os dois remaram para uma galé no porto, e dando ordens aos remadores, começaram a navegar para fora para dentro do revolto Mar Cereneriano que leva para o céu. Por vários dias eles deslizaram ondulantemente sobre a água, até que finalmente eles vieram ao horizonte, onde o mar encontra o céu. Aqui a galé não pausou absolutamente, mas flutuou facilmente dentro do azul do céu entre nuvens lanosas coloridas com rosa. E longe sob a quilha Kuranes podia ver terras estranhas e rios e cidades de beleza excelente, espalhadas indolentemente na luz do sol que parecia nunca diminuir ou desaparecer. Finalmente Athib lhe disse que sua jornada deles estava perto de seu fim, e que eles iriam em breve entrar no porto de Serannian, a cidade de mármore rosa das nuvens, que é construída sobre aquela costa etérea onde o vento oeste flui para dentro do céu; mas enquanto as mais altas das torres entalhadas da cidade vinham em vista houve um som em algum lugar em espaço, e Kuranes acordou em seu sótão de Londres.

Por muitos meses depois disso Kuranes procurou a cidade maravilhosa de Celephais e suas galés vinculadas ao céu em vão; e embora seus sonhos o carregassem a muitos lugares grandiosos e inauditos, ninguém que ele encontrava podia lhe dizer como encontrar Ooth-Nargai, além dos Morros Tanarianos. Uma noite ele foi voando sobre montanhas escuras onde havia fogueiras de acampamento fracas, solitárias separadas a grandes distâncias, e rebanhos felpudos, estranhos com sinos tinindo nos líderes; e na parte mais selvagem desse país montanhoso, tão remoto que poucos homens podiam alguma vez ter o visto, ele achou uma parede ou calçada de pedra horrendamente antiga ziguezagueando ao longo das cordilheiras e vales; gigantesco demais para alguma vez ter se levantado por mãos humanas, e de uma tal extensão que nenhuma extremidade dela podia ser vista. Além dessa parede na alvorada cinzenta ele veio a uma terra de jardins estranhos e árvores de cereja, e quando o sol se levantou ele contemplou tal beleza de flores brancas e vermelhas, folhagem e gramado verdes, caminhos brancos, riachos de diamante, pequenos lagos azuis, pontes entalhadas, e templos pagãos[10] de telhado vermelho, que ele por um momento esqueceu Celephais em deleite íngreme. Mas ele se lembrou dela novamente quando ele caminhou abaixo um caminho branco para um pagode de telhado vermelho, e teria questionado o povo daquele país sobre isso, não tivesse ele visto que não havia pessoas lá, mas somente pássaros e abelhas e borboletas. Em uma outra noite Kuranes andou acima de uma escadaria espiral de pedra úmida infinitamente[11], e veio a uma janela de torre olhando de cima uma poderosa planície e rio iluminados pela lua cheia; e na cidade silenciosa que se espalhava fora desde a margem do rio ele pensou que ele contemplava alguma feição ou arranjamento que ele tinha conhecido anteriormente. Ele iria ter descendido e perguntado o caminho para Ooth-Nargai não tivesse uma aurora medonha estalado acima desde algum lugar remoto além do horizonte, mostrando a ruína e antiguidade da cidade, e a estagnação do rio cheio de junco, e a morte jazendo sobre aquele país, como ela tinha jazido desde que Rei Kynaratholis veio para casa de suas conquistas para achar a vingança dos deuses.

Então Kuranes procurou infrutiferamente pela cidade maravilhosa de Celephais e suas galés que navegam para Serannian no céu, enquanto isso vendo muitas maravilhas e uma vez escassamente[12] escapando do alto-clérigo não para ser descrevido, que veste uma máscara de seda amarela sobre sua face e mora todo sozinho em um monastério de pedra pré-histórico no platô de deserto frio de Leng. Com o tempo ele se tornou tão impaciente dos intervalos desertos[13] de dia que ele começou a comprar drogas com o fim de aumentar seus períodos de sono. Haxixe ajudou um grande bocado, e uma vez o enviou para uma parte de espaço onde forma não existe, mas onde gases incandescentes estudam os segredos de existência. E um gas de cor violeta lhe disse que essa parte de espaço era fora do que ele tinha chamado infinidade. O gas não tinha ouvido de planetas e organismos antes, mas identificava Kuranes meramente como um da infinidade onde matéria, energia e gravidade existem. Kuranes estava agora muito ansioso para retornar para Celephais guarnecida de minaretes, e aumentou suas doses de drogas; mas finalmente[14] ele não tinha mais dinheiro restante, e não podia comprar nenhumas drogas. Então um dia de verão ele foi despejado de seu sótão, e vagou sem rumo através das ruas, vagueando sobre uma ponte para um lugar onde as casas se tornavam mais finas e mais finas. E foi lá que satisfação[15] veio, e ele encontrou o cortejo de cavaleiros vindos de Celephais para o carregar para lá para sempre.

Belos cavaleiros eles eram, montados em cavalos ruãos e vestidos em armadura brilhante com tabardos de roupa-de-ouro curiosamente emblasonados. Tão numerosos eles eram, que Kuranes quase os tomou erradamente por um exército, mas seu líder deles lhe disse que eles eram enviados em sua honra dele; desde que era ele quem tinha criado Ooth-Nargai em seus sonhos, em qual conta ele era agora para ser apontado seu deus chefe para eternidade. Então eles deram a Kuranes um cavalo e o colocaram na cabeça da cavalgada, e todos montaram a cavalo majestosamente através dos terrenos colinosos cobertos de relva[16] de Surrey e em diante para a região onde Kuranes e seus ancestrais nasceram. Era muito estranho, mas enquanto os cavaleiros iam em diante eles pareciam galopar de volta através de Tempo; pois quando quer que eles passavam através de uma vila no crepúsculo eles viam apenas tais casas e vilas como Chaucer ou homens antes dele podiam ter visto, e algumas vezes eles viam cavaleiros a cavalo com pequenas companhias de serventes. Quando se tornou escuro eles viajaram mais rapidamente, até que logo eles estavam voando esquisitamente como se no ar. Na alvorada indistinta eles vieram sobre a vila que Kuranes tinha visto viva em sua infância, e adormecida ou morta em seus sonhos. Ela estava viva agora, e aldeões matinais cortejavam[17] enquanto os cavaleiros se moviam com esprépito rua abaixo[18] e saiam para dentro da travessa que termina no abismo de sonho. Kuranes tinha previamente entrado nesse abismo somente a noite, e se perguntou como ele iria parecer de dia; então ele assistiu ansiosamente enquanto a coluna se aproximava de sua beira. Justamente enquanto eles galopavam acima do chão ascendente para o precipício um resplendor dourado veio de algum lugar fora do leste e escondeu toda a paisagem em seus drapejamentos fulgurantes. O abismo era agora um caos fervente de esplendor rosado e cerúleo, e vozes invisíveis cantavam exultantemente enquanto o séquito cavaleiroso se lançava sobre a beira e flutuava graciosamente abaixo passando por nuvens brilhantes e coruscações argênteas. Interminavelmente abaixo os cavaleiros flutuaram, seus cavalos de batalha batendo com as patas no éter como se galopando sobre areias douradas; e então os vapores luminosos se espalharam separadamente para revelar um brilho maior, o brilho da cidade Celephais, e a costa marítima além, e o pico nevado olhando de cima o mar, e as galés pintadas alegremente que navegam fora do porto para regiões distantes onde o mar encontra o céu.

E Kuranes reinou depois disso sobre Ooth-Nargai e todas as regiões vizinhas de sonho, e manteve sua corte alternadamente em Celephais e na Serannian formada de nuvens. Ele reina lá ainda, e irá reinar felizmente para sempre, embora abaixo dos rochedos íngremes em Innsmouth as correntes[19] de canal brincavam zombeteiramente com o corpo de um vagabundo que tinha tropeçado através da vila meio-deserta na alvorada; brincavam zombeteiramente, e o lançavam sobre as rochas perto de Torres Trevor cobertas de hera, onde um cervejeiro milionário especialmente ofensivo e notavelmente gordo desfruta a atmosfera comprada de nobreza extinta.

Cf. Houaiss, Avery, Barsa.
Cf. Dicionário Houaiss da língua portuguesa.
Cf. http://michaelis.uol.com.br/moderno-ingles/ .
Cf. http://www.wordreference.com/enpt/ , Dicionário Inglês-Português (Brasil).

Notas de Tradução:

[1] plains, planícies, prados, campinas.
[2] thick, densas, grossas.
[3] eaten away, carcomida, desgastada, corroída.
[4] peering, despontantes, perscrutantes.
[5] snow-capped mountain, montanha de pico nevado, etc.
[6] alluring, atraentes, etc.
[7] snatched away, arrebatado embora, arrebatado fora, etc.
[8] ramparts, muralhas, plataformas, defesas, trincheiras, etc.
[9] spices, especiarias, temperos, condimentos.
[10] pagodas, pagodes, templos pagãos.
[11] endlessly, infinitamente, interminavelmente, etc.
[12] barely, apenas, escassamente, etc.
[13] bleak.
[14] eventually.
[15] fulfillment.
[16] downs.
[17] early villagers courtesied.
[18] clattered down the street.
[19] tides, marés, correntes, etc.

sexta-feira, 3 de março de 2017


Nyarlathotep
De H. P. Lovecraft.
De http://www.hplovecraft.com/writings/texts/fiction/n.aspx .
Tradução de língua inglesa para língua portuguesa do Brasil.
De Herculano de Lima Einloft Neto.
Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2017.

Nyarlathotep... o caos rastejante... eu sou o último... eu irei dizer ao vazio ouvinte...

Eu não me lembro distintamente quando começou, mas foi meses atrás. A tensão geral era horrível. A uma estação de revolta social e política foi adicionada uma estranha e remoedora apreensão de perigo físico horrível; um perigo muito difundido e tudo-envolvendo, um tal perigo como pode ser imaginado somente nos mais terríveis fantasmas da noite. Eu lembro que as pessoas iam para lá e para cá com faces pálidas e preocupadas, e sussurravam avisos e profecias que ninguém ousava repetir conscientemente ou reconhecer para si mesmo que ele tinha ouvido. Um senso de culpa monstruosa estava por sobre a terra, e fora dos abismos entre as estrelas corriam correntes frias que faziam homens tremerem em lugares solitários e escuros. Havia uma alteração demoníaca na sequência das estações--o calor de outono se mantinha medonhamente, e todos sentiam que o mundo e talvez o universo tinha passado do controle de deuses ou forças conhecidos para aquele de deuses ou forças que eram desconhecidos.

E foi então que Nyarlathotep veio fora do Egito. Quem ele era, ninguém podia dizer, mas ele era do sangue nativo velho e parecia com um Faraó. Os fellahin se ajoelhavam quando eles o viam, contudo não podiam dizer por quê. Ele dizia que ele tinha se levantado acima fora da pretidão de vinte-e-sete séculos, e que ele tinha ouvido mensagens de lugares não nesse planeta. Para dentro das terras de civilização veio Nyarlathotep, moreno, delgado, e sinistro, sempre comprando instrumentos estranhos de vidro e metal e os combinando em instrumentos ainda mais estranhos. Ele falava muito das ciências--de eletricidade e psicologia--e dava exibições de poder que enviavam seus espectadores embora atônitos, contudo que inchavam sua fama a magnitude excessiva. Homens aconselhavam uns aos outros a ver Nyarlathotep, e tremiam. E aonde Nyarlathotep ia, descanso desaparecia; pois as horas de madrugada eram alugadas com os gritos de pesadelo. Nunca dantes tinham os gritos de pesadelo sido um tal problema público; agora os homens sábios quase desejavam que eles pudessem proibir sono nas horas de madrugada, que os guinchos de cidades pudessem menos horrivelmente perturbar a pálida, compassiva lua enquanto ela brilhava sobre águas verdes deslizando sob pontes, e velhos campanários caindo em pedaços contra um céu doentio.

Eu me lembro quando Nyarlathotep veio para minha cidade--a grande, a velha, a terrível cidade de crimes inumeráveis. Meu amigo tinha me falado dele, e da fascinação impelente e encantamento[1] de suas revelações dele, e eu queimei com ansiedade para explorar seus mistérios máximos dele. Meu amigo disse que eles eram horríveis e impressionantes além de minhas mais febris imaginações; que o que era jogado em uma tela no quarto escurecido profetizava coisas que ninguém senão Nyarlathotep ousava profetizar, e que no estrépito[2] de suas faíscas havia tomado de homens aquilo que não tinha nunca sido tomado antes contudo que se mostrava somente nos olhos. E eu ouvi sugerido no exterior que aqueles que conheciam Nyarlathotep olhavam sobre vistas que outros não viam.

Foi no outono quente que eu fui através da noite com as multidões agitadas[3] para ver Nyarlathotep; através da noite abafadiça e acima as escadas intermináveis para dentro do quarto sufocante. E sombreadas sobre uma tela, eu vi formas encapuzadas dentre ruinas, e faces más amarelas espiando desde detrás de monumentos caídos. E eu vi o mundo batalhando contra pretidão; contra as ondas de destruição desde espaço último; redemoinhando, se agitando; lutando ao redor do sol esfriante, escurecente. Então as faíscas brincaram surpreendentemente ao redor das cabeças dos espectadores, e cabelo ficou de pé sobre fim enquanto sombras mais grotescas do que eu posso dizer vieram fora e se agacharam sobre as cabeças. E quando eu, que era mais frio e mais científico do que o resto, murmurei um protesto trêmulo sobre "impostura" e "eletricidade estática", Nyarlathotep nos dirigiu todos para fora, abaixo as escadas vertiginosas para dentro das ruas de meia-noite desertas, quentes, levemente úmidas. Eu gritei alto que eu 'não' tinha medo; que eu nunca podia ter medo; e outros gritaram comigo por consolo. Nós juramos um ao outro que a cidade 'era' exatamente a mesma, e ainda viva; e quando as luzes elétricas começaram a enfraquecer nós amaldiçoamos a companhia de novo e de novo, e rimos às faces esquisitas que nós fazíamos.

Eu acredito que nós sentimos alguma coisa vindo abaixo desde a lua esverdeada, pois quando nós começamos a depender de sua luz nós vagueamos para dentro de formações involuntárias curiosas e parecíamos saber nossas destinações embora nós não ousássemos pensar delas. Uma vez nós olhamos o pavimento e achamos os blocos soltos e deslocados por grama, com apenas uma linha de metal enferrujado para mostrar onde as linhas de bonde tinham corrido. E novamente nós vimos um carro-bonde, solitário, sem janelas, dilapidado, e quase sobre seu lado. Quando nós olhamos fixamente ao redor do horizonte, nós não podíamos achar a torre terceira pelo rio, e notamos que a silhueta da torre segunda estava esfarrapada no topo. Então nós nos dividimos em colunas estreitas, cada uma das quais parecia puxada em uma direção diferente. Uma desapareceu em uma aleia estreita para a esquerda, deixando somente o eco de um gemido chocante. Outra marchou em fila abaixo uma entrada de metrô sufocada por ervas daninhas, berrando[4] com um riso que era louco. Minha própria coluna foi sugada para o campo aberto, e presentemente sentiu um calafrio[5] que não era do outono quente; pois enquanto nós nos aproximávamos silenciosamente for sobre o pântano escuro, nós contemplamos em volta de nós o brilho-de-lua infernal de neves más. Neves inexplicáveis, sem trilha, varridas separadamente em uma direção somente, onde jazia um golfo tanto mais preto por suas paredes resplandecentes[6]. A coluna parecia muito fina de fato enquanto ela caminhava lenta- e penosamente sonhadoramente para dentro do golfo. Eu me demorei atrás, pois a fenda preta na neve iluminada-de-verde era medonha, e eu pensava que eu tinha ouvido as reverberações de uma lamentação desinquietadora enquanto meus companheiros desapareciam; mas meu poder de me demorar era pouco. Como se chamado com gesto  por aqueles que tinham ido antes, eu meio flutuei entre os montes de neve acumulada titânicos, tremendo e com medo, para dentro do vórtice invisível[7] do inimaginável.

Agudamente sentiente, silenciosamente delirante, apenas os deuses que foram podem dizer. Uma sombra sensitiva, repugnada se retorcendo em mãos que não são mãos, e rodopiada cegamente por meias-noites horríveis de criação apodrecedora, cadáveres de mundos mortos com feridas[8] que eram cidades, ventos sepulcrais que escovam as estrelas pálidas e as fazem bruxulear baixo. Além dos mundos fantasmas vagos de coisas monstruosas; colunas meio-vistas de templos não-santificados[9] que descansam sobre rochas sem nome abaixo do espaço e se estendem acima[10] para vácuos vertiginosos sobre as esferas de luz e escuridão. E através desse cemitério revoltante do universo o abafado, enlouquecedor bater de tambores, e lamento monótono, fino de flautas blasfemas desde câmaras não-iluminadas, inconcebíveis além de Tempo; o bater[11] e tocar de flautas detestáveis para onde dançam lentamente, desajeitadamente, e absurdamente os deuses últimos tenebrosos, gigantescos--as gárgulas sem mente, sem voz, cegas cuja alma é Nyarlathotep.


Cf. Houaiss, Avery, Dicionário Barsa.
Cf. Dicionário Houaiss da língua portuguesa.
Cf. http://michaelis.uol.com.br/moderno-ingles/ .
Cf. http://www.wordreference.com/enpt/ , Dicionário Inglês-Português (Brasil).

Notas de Tradução:

[1] allurement.
[2] sputter.
[3] restless crowds.
[4] howling.
[5] chill, frio, calafrio.
[6] glittering walls.
[7] sightless.
[8] sore, chaga, ferida.
[9] unsanctified, não-santificados.
[10] reach up, se estendem acima.
[11] pounding, bater, etc.