terça-feira, 7 de março de 2017


Celephais
De H. P. Lovecraft.
De http://www.hplovecraft.com/writings/texts/fiction/c.aspx .
Tradução de língua inglesa para língua portuguesa do Brasil.
De Herculano de Lima Einloft Neto.
Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2017.

Em um sonho Kuranes viu a cidade no vale, e a costa marítima além, e o pico nevado olhando de cima o mar, e as galés pintadas alegremente que navegam fora do porto para as regiões distantes onde o mar encontra o céu. Em um sonho foi também que ele veio por encontrar seu nome de Kuranes, pois quando acordado ele era chamado por um outro nome. Talvez era natural para ele sonhar um nome novo; pois ele era o último de sua família, e só entre os milhões indiferentes de Londres, então não havia muitos para falar a ele e o lembrar de quem ele tinha sido. Seu dinheiro e terras eram idos, e ele não se importava com as maneiras de pessoas ao redor dele, mas preferia sonhar e escrever de seus sonhos. O que ele escrevia era rido de por aqueles a quem ele o mostrava, de forma que depois de um tempo ele mantinha seus escritos para ele mesmo, e finalmente cessou de escrever. Quanto mais ele se retirava do mundo ao redor dele, mais maravilhosos se tornavam seus sonhos; e teria sido inteiramente fútil tentar os descrever em papel. Kuranes não era moderno, e não pensava como outros que escreviam. Enquanto eles se esforçavam por desnudar da vida seus mantos ornados de mito, e para mostrar em feiúra nua a coisa suja que é realidade, Kuranes procurava por beleza só. Quando verdade e experiência falhavam em a revelar, ele a procurava em fantasia e ilusão, e a achava em seu degrau da porta mesmo, entre as memórias nebulosas de contos de infância e sonhos.

Não há muitas pessoas que saibam que maravilhas estão abertas a elas nas histórias e visões de sua juventude; pois quando como crianças nós ouvimos e sonhamos, nós pensamos apenas pensamentos meio-formados, e quando como homens nós tentamos lembrar, nós estamos tornados estúpidos e prosaicos com o veneno de vida. Mas alguns de nós acordam na noite com fantasmas estranhos de colinas e jardins encantados, de fontes que cantam no sol, de rochedos íngremes dourados se projetando sobre mares murmurantes, de planos[1] que se estendem abaixo para cidades dormentes de bronze e pedra, e de companhias sombrias de heróis que cavalgam cavalos brancos ajaezados ao longo das bordas de florestas densas[2]; e então nós sabemos que nós temos olhado para trás através dos portões de marfim para dentro do mundo de maravilha que era nosso antes que nós fossemos sábios e infelizes.

Kuranes veio muito subitamente sobre seu mundo velho de infância. Ele tinha estado sonhando da casa onde ele nasceu; a grande casa de pedra coberta com hera, onde treze gerações de seus ancestrais tinham vivido, e onde ele tinha esperado morrer. Era luar, e ele tinha andado nas pontas dos pés para fora para dentro da noite de verão fragrante, através dos jardins, abaixo os terraços, passando pelos grandes carvalhos do parque, e ao longo da estrada branca longa para a vila. A vila parecia muito velha, carcomida[3] na borda como a lua que tinha começado a minguar, e Kuranes se perguntava se os tetos em pico das casas pequenas escondiam sono ou morte. Nas ruas estavam lanças de capim longo, e os vidros de janelas em ambos os lados estavam ou quebrados ou olhando fixamente de uma maneira membranosa. Kuranes não tinha se demorado, mas tinha caminhado lenta e penosamente adiante como se invocado para algum objetivo. Ele não ousava desobedecer aa invocação por medo que isso pudesse se provar uma ilusão como os desejos e aspirações da vida de vigília, que não levam a qualquer objetivo. Então ele tinha sido puxado abaixo uma travessa que levava fora da rua de vila para os rochedos íngremes de canal, e tinha chegado ao fim de coisas--ao precipício e o abismo onde toda a vila e todo o mundo caiam abruptamente para dentro do vazio sem eco de infinidade, e onde mesmo o céu em frente era vazio e não iluminado pela lua se esmigalhando e as estrelas perscrutantes[4]. Fé tinha o encorajado adiante, sobre o precipício e para dentro do golfo, onde ele tinha flutuado abaixo, abaixo, abaixo; passando por sonhos não-sonhados, sem forma, escuros, esferas brilhando fracamente que podem ter sido sonhos parcialmente sonhados, e coisas aladas ridentes que pareciam escarnecer os sonhadores de todos os mundos. Então uma fenda pareceu se abrir na escuridão diante dele, e ele viu a cidade do vale, brilhando radiantemente longe, longe abaixo, com um pano de fundo de mar e céu, e uma montanha de pico nevado[5] perto da costa.

Kuranes tinha acordado no momento mesmo em que ele contemplava a cidade, contudo ele sabia desse breve vislumbrar que ela não era nenhuma outra senão Celephais, no Vale de Ooth-Nargai além das Colinas Tanarianas, onde seu espírito tinha morado toda a eternidade de uma hora uma tarde de verão muito tempo atrás, quando ele tinha deixado discretamente sua enfermeira e deixado a brisa do mar morna o embalar para dormir enquanto ele assistia as nuvens do rochedo íngreme perto da vila. Ele tinha protestado então, quando eles tinham o achado, o acordado, e o carregado para casa, pois justamente enquanto ele era despertado ele tinha estado prestes a velejar em uma galé dourada para aquelas regiões atraentes[6] onde o mar encontra o céu. E agora ele estava igualmente ressentido de acordar, pois ele tinha achado sua cidade fabulosa depois de quarenta anos cansativos.

Mas três noites depois Kuranes veio novamente a Celephais. Como antes, ele sonhou primeiro da vila que estava adormecida ou morta, e do abismo abaixo de que um precisa flutuar silenciosamente; então a fenda apareceu novamente, e ele contemplou os minaretes brilhantes da cidade, e viu as galés graciosas estando ancoradas no porto azul, e observou as árvores gingko de Monte Aran balançando na brisa marítima. Mas dessa vez ele não foi arrebatado fora[7], e como um ser alado se assentou gradualmente sobre um declive gramado até que finalmente seus pés descansaram gentilmente sobre o gramado. Ele tinha de fato vindo novamente para o Vale de Ooth-Nargai e a cidade esplêndida de Celephais.

Abaixo a colina entre gramas cheirosas e flores brilhantes andou Kuranes, sobre o Naraxa borbulhante sobre a ponte de madeira pequena onde ele tinha entalhado seu nome tantos anos atrás, e através do bosque sussurrante para a ponte de pedra grande perto do portão da cidade. Tudo era como de antigamente, nem estavam as paredes de mármores descoloridas, nem as estátuas de bronze polido sobre elas deslustradas. E Kuranes viu que ele não precisava tremer para que as coisas que ele conhecia não desaparecessem; pois mesmo as sentinelas sobre as muralhas[8] eram as mesmas, e ainda tão jovens como ele se lembrava delas. Quando ele entrou na cidade, passando os portões de bronze e sobre os pavimentos de ônix, os mercadores e dirigidores de camelo o saudaram como se ele nunca tivesse estado ausente; e foi o mesmo no templo turquesa de Nath-Horthath, onde os clérigos com coroas de orquídea lhe disseram que não há tempo em Ooth-Nargai, mas somente juventude perpétua. Então Kuranes andou através da Rua de Pilares para a parede em direção do mar, onde se juntavam os comerciantes e marinheiros, e homens estranhos das regiões onde o mar encontra o céu. Lá ele ficou por longo tempo, olhando fixamente para fora sobre o porto brilhante onde os rastelos faiscavam sob um céu desconhecido, e onde flutuavam levemente as galés de lugares distantes sobre a água. E ele olhou fixamente também por sobre Monte Aran se levantando regiamente desde a costa, suas inclinações mais baixas verdes com árvores balançantes e seu cume branco tocando o céu.

Mais do que nunca Kuranes desejou velejar em uma galé para os lugares distantes de que ele tinha ouvido tantos contos estranhos, e ele procurou novamente o capitão que tinha concordado em o carregar tanto tempo atrás. Ele achou o homem, Athib, sentado no mesmo baú de especiarias[9] em que ele tinha sentado anteriormente, e Athib parecia não perceber que qualquer tempo tinha passado. Então os dois remaram para uma galé no porto, e dando ordens aos remadores, começaram a navegar para fora para dentro do revolto Mar Cereneriano que leva para o céu. Por vários dias eles deslizaram ondulantemente sobre a água, até que finalmente eles vieram ao horizonte, onde o mar encontra o céu. Aqui a galé não pausou absolutamente, mas flutuou facilmente dentro do azul do céu entre nuvens lanosas coloridas com rosa. E longe sob a quilha Kuranes podia ver terras estranhas e rios e cidades de beleza excelente, espalhadas indolentemente na luz do sol que parecia nunca diminuir ou desaparecer. Finalmente Athib lhe disse que sua jornada deles estava perto de seu fim, e que eles iriam em breve entrar no porto de Serannian, a cidade de mármore rosa das nuvens, que é construída sobre aquela costa etérea onde o vento oeste flui para dentro do céu; mas enquanto as mais altas das torres entalhadas da cidade vinham em vista houve um som em algum lugar em espaço, e Kuranes acordou em seu sótão de Londres.

Por muitos meses depois disso Kuranes procurou a cidade maravilhosa de Celephais e suas galés vinculadas ao céu em vão; e embora seus sonhos o carregassem a muitos lugares grandiosos e inauditos, ninguém que ele encontrava podia lhe dizer como encontrar Ooth-Nargai, além dos Morros Tanarianos. Uma noite ele foi voando sobre montanhas escuras onde havia fogueiras de acampamento fracas, solitárias separadas a grandes distâncias, e rebanhos felpudos, estranhos com sinos tinindo nos líderes; e na parte mais selvagem desse país montanhoso, tão remoto que poucos homens podiam alguma vez ter o visto, ele achou uma parede ou calçada de pedra horrendamente antiga ziguezagueando ao longo das cordilheiras e vales; gigantesco demais para alguma vez ter se levantado por mãos humanas, e de uma tal extensão que nenhuma extremidade dela podia ser vista. Além dessa parede na alvorada cinzenta ele veio a uma terra de jardins estranhos e árvores de cereja, e quando o sol se levantou ele contemplou tal beleza de flores brancas e vermelhas, folhagem e gramado verdes, caminhos brancos, riachos de diamante, pequenos lagos azuis, pontes entalhadas, e templos pagãos[10] de telhado vermelho, que ele por um momento esqueceu Celephais em deleite íngreme. Mas ele se lembrou dela novamente quando ele caminhou abaixo um caminho branco para um pagode de telhado vermelho, e teria questionado o povo daquele país sobre isso, não tivesse ele visto que não havia pessoas lá, mas somente pássaros e abelhas e borboletas. Em uma outra noite Kuranes andou acima de uma escadaria espiral de pedra úmida infinitamente[11], e veio a uma janela de torre olhando de cima uma poderosa planície e rio iluminados pela lua cheia; e na cidade silenciosa que se espalhava fora desde a margem do rio ele pensou que ele contemplava alguma feição ou arranjamento que ele tinha conhecido anteriormente. Ele iria ter descendido e perguntado o caminho para Ooth-Nargai não tivesse uma aurora medonha estalado acima desde algum lugar remoto além do horizonte, mostrando a ruína e antiguidade da cidade, e a estagnação do rio cheio de junco, e a morte jazendo sobre aquele país, como ela tinha jazido desde que Rei Kynaratholis veio para casa de suas conquistas para achar a vingança dos deuses.

Então Kuranes procurou infrutiferamente pela cidade maravilhosa de Celephais e suas galés que navegam para Serannian no céu, enquanto isso vendo muitas maravilhas e uma vez escassamente[12] escapando do alto-clérigo não para ser descrevido, que veste uma máscara de seda amarela sobre sua face e mora todo sozinho em um monastério de pedra pré-histórico no platô de deserto frio de Leng. Com o tempo ele se tornou tão impaciente dos intervalos desertos[13] de dia que ele começou a comprar drogas com o fim de aumentar seus períodos de sono. Haxixe ajudou um grande bocado, e uma vez o enviou para uma parte de espaço onde forma não existe, mas onde gases incandescentes estudam os segredos de existência. E um gas de cor violeta lhe disse que essa parte de espaço era fora do que ele tinha chamado infinidade. O gas não tinha ouvido de planetas e organismos antes, mas identificava Kuranes meramente como um da infinidade onde matéria, energia e gravidade existem. Kuranes estava agora muito ansioso para retornar para Celephais guarnecida de minaretes, e aumentou suas doses de drogas; mas finalmente[14] ele não tinha mais dinheiro restante, e não podia comprar nenhumas drogas. Então um dia de verão ele foi despejado de seu sótão, e vagou sem rumo através das ruas, vagueando sobre uma ponte para um lugar onde as casas se tornavam mais finas e mais finas. E foi lá que satisfação[15] veio, e ele encontrou o cortejo de cavaleiros vindos de Celephais para o carregar para lá para sempre.

Belos cavaleiros eles eram, montados em cavalos ruãos e vestidos em armadura brilhante com tabardos de roupa-de-ouro curiosamente emblasonados. Tão numerosos eles eram, que Kuranes quase os tomou erradamente por um exército, mas seu líder deles lhe disse que eles eram enviados em sua honra dele; desde que era ele quem tinha criado Ooth-Nargai em seus sonhos, em qual conta ele era agora para ser apontado seu deus chefe para eternidade. Então eles deram a Kuranes um cavalo e o colocaram na cabeça da cavalgada, e todos montaram a cavalo majestosamente através dos terrenos colinosos cobertos de relva[16] de Surrey e em diante para a região onde Kuranes e seus ancestrais nasceram. Era muito estranho, mas enquanto os cavaleiros iam em diante eles pareciam galopar de volta através de Tempo; pois quando quer que eles passavam através de uma vila no crepúsculo eles viam apenas tais casas e vilas como Chaucer ou homens antes dele podiam ter visto, e algumas vezes eles viam cavaleiros a cavalo com pequenas companhias de serventes. Quando se tornou escuro eles viajaram mais rapidamente, até que logo eles estavam voando esquisitamente como se no ar. Na alvorada indistinta eles vieram sobre a vila que Kuranes tinha visto viva em sua infância, e adormecida ou morta em seus sonhos. Ela estava viva agora, e aldeões matinais cortejavam[17] enquanto os cavaleiros se moviam com esprépito rua abaixo[18] e saiam para dentro da travessa que termina no abismo de sonho. Kuranes tinha previamente entrado nesse abismo somente a noite, e se perguntou como ele iria parecer de dia; então ele assistiu ansiosamente enquanto a coluna se aproximava de sua beira. Justamente enquanto eles galopavam acima do chão ascendente para o precipício um resplendor dourado veio de algum lugar fora do leste e escondeu toda a paisagem em seus drapejamentos fulgurantes. O abismo era agora um caos fervente de esplendor rosado e cerúleo, e vozes invisíveis cantavam exultantemente enquanto o séquito cavaleiroso se lançava sobre a beira e flutuava graciosamente abaixo passando por nuvens brilhantes e coruscações argênteas. Interminavelmente abaixo os cavaleiros flutuaram, seus cavalos de batalha batendo com as patas no éter como se galopando sobre areias douradas; e então os vapores luminosos se espalharam separadamente para revelar um brilho maior, o brilho da cidade Celephais, e a costa marítima além, e o pico nevado olhando de cima o mar, e as galés pintadas alegremente que navegam fora do porto para regiões distantes onde o mar encontra o céu.

E Kuranes reinou depois disso sobre Ooth-Nargai e todas as regiões vizinhas de sonho, e manteve sua corte alternadamente em Celephais e na Serannian formada de nuvens. Ele reina lá ainda, e irá reinar felizmente para sempre, embora abaixo dos rochedos íngremes em Innsmouth as correntes[19] de canal brincavam zombeteiramente com o corpo de um vagabundo que tinha tropeçado através da vila meio-deserta na alvorada; brincavam zombeteiramente, e o lançavam sobre as rochas perto de Torres Trevor cobertas de hera, onde um cervejeiro milionário especialmente ofensivo e notavelmente gordo desfruta a atmosfera comprada de nobreza extinta.

Cf. Houaiss, Avery, Barsa.
Cf. Dicionário Houaiss da língua portuguesa.
Cf. http://michaelis.uol.com.br/moderno-ingles/ .
Cf. http://www.wordreference.com/enpt/ , Dicionário Inglês-Português (Brasil).

Notas de Tradução:

[1] plains, planícies, prados, campinas.
[2] thick, densas, grossas.
[3] eaten away, carcomida, desgastada, corroída.
[4] peering, despontantes, perscrutantes.
[5] snow-capped mountain, montanha de pico nevado, etc.
[6] alluring, atraentes, etc.
[7] snatched away, arrebatado embora, arrebatado fora, etc.
[8] ramparts, muralhas, plataformas, defesas, trincheiras, etc.
[9] spices, especiarias, temperos, condimentos.
[10] pagodas, pagodes, templos pagãos.
[11] endlessly, infinitamente, interminavelmente, etc.
[12] barely, apenas, escassamente, etc.
[13] bleak.
[14] eventually.
[15] fulfillment.
[16] downs.
[17] early villagers courtesied.
[18] clattered down the street.
[19] tides, marés, correntes, etc.

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