quarta-feira, 23 de maio de 2018

Sociedade Secundária Brasileira de Magia
De Herculano de Lima Einloft Neto.
Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2018.

Era noite em uma casa num município pequeno na região litorânea do Estado do Rio de Janeiro, por volta do ano 2015. E ali pelo bar, pela sinuca, pelas casas em volta, iam passando os forasteiros em carros mais ou menos silenciosos, se dirigindo para uma casa de muro amarelo. E uma reunião estava tomando lugar.

Lá dentro, atrás de janelas fechadas, pessoas em mantos de capuzes, cerca de quinze, debatiam a manutenção de uma sociedade de magia de que eu ora trato. Uma paca vivente caminhava pela sala. Essas pessoas eram todas comuns, no que diz respeito a roupa sob os mantos, homens de camisa e calça, mulheres de calça e camisa, e estavam ali por interesse teórico e prático no tema tratado. Era uma mistura dos antigos conhecimentos mágicos nativos-americanos, relacionados a histórias como as de Anhanga, Çuaçu ananga ou Catingueiro, Kupen-dyeb ou Homens-morcego, etc.. Um homem na mesa tocava uma membi, uma flauta feita de osso de tíbia de veado, em frente a alguns vasos com plantas.

Um caboclo nomeado João Silva conversava com a paca utilizando os sons dela. E essa paca esclarecia alguns fatos que estavam para ocorrer internacionalmente. A população paca era uma entidade, paca, uma sociedade desde há milênios consultada por tupis, aruaques e jês. Tal conhecimento tem se mantido oculto de grande parte da população, mas existem estudiosos como Souza Rodrigues, etc., que conhecem os verdadeiros segredos da fauna do Brasil. E a paca Igatingapaca dessa vez dava notícia de um ataque terrorista a acontecer em São Paulo durante uma feira de exposição de animais, pelo grupo Grupo Terrorismo Puro. Este era um grupo sem ideais que não o objetivo de espalhar o terrorismo, sem qualquer finalidade que não o terrorismo em suas assunções de responsabilidade, em suas notas à imprensa, e sem perspectiva alguma de algum dia alcançar um objetivo final, sendo portanto teoricamente eterno.

Dizia, em linguagem de paca, João Silva:

-- Mas em que dia exatamente ocorrerá o ataque?

-- Pela nossa conversa espiritual com as entidades e a mãe-terra que muito veem e muito sabem, o dia do ataque seria o segundo da feira de exposição de animais, a qual tem três dias, 25 de março. -- respondeu a paca Igatingapaca.

Silva ponderou. Em sua mente corriam pensamentos concernindo uma maneira de lidar com o problema com a menor interferência possível na rotina da sociedade brasileira, e para isso a conversa teria que se alongar. Pegou um computador em uma mala no chão. A paca foi passando nomes e endereços de pessoas relacionadas ao ataque, e seus itinerários previstos, enquanto Silva os digitava. Finda a comunicação, foi feita uma oferenda à paca Igatingapaca na forma de alimentos diversos da mata nacional e água.

Finda a reunião, os participantes foram deixando a casa de muro amarelo aos poucos, os carros saíam pela rua de terra, e em breve a Polícia Federal recebeu uma ligação do tenente Fernando de Souza, da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, que também ali estivera presente, explicando e informando o melhor que podia o problema. Os terroristas foram presos vinte dias antes do ataque, em acusações que, divulgadas, não chegaram a provocar terror na população. O trabalho da polícia era eficiente.

A sociedade de magia referida acima, que tinha nome Sociedade Secundária Brasileira de Magia, iria continuar se reunindo, estudando e produzindo textos sobre os temas de seu interesse, indefinidamente. Invocações de entidades totêmicas como araras e papagaios também estavam em seus protocolos. Os textos publicados por Barbosa Rodrigues, Curt Nimuendajú, Antonio Brandão de Amorim e Ermano Stradelli, na Revista do IHGB e etc., eram também referências da Sociedade.

terça-feira, 22 de maio de 2018

Antônio Alves de Souza
De Herculano de Lima Einloft Neto.
Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2018.

Saindo de casa depois de banhar três ratos como simpatia em um ritual, Júlia Alves os carregava em uma sacola, e seguia em direção à praça XV. Tinha seguido à risca o protocolo que fora lhe passado pela feiticeira Irene de Manaus, uma velha cabocla, conhecedora dos espíritos da floresta. Os banhos nos ratos eram oferendas ao Çuaçu ananga ou Catingueiro, o veado de cor vermelha e chifres cobertos de pêlos que invade o trânsito de automóveis em aparições que os sensitivos têm condição de perceber.

Apanhou uma barca para Niterói, e depois da viagem se aproximou da praia e colocou a sacola com os ratos aberta numa parte seca da Baía de Guanabara. Certa de que eles sobreviveriam, estava consumado o feitiço. Era agora uma questão de tempo até que sua inimiga sofresse os efeitos de uma virada de poder, conquanto esta tivesse pussangas e outras medidas defensivas, em uma disputa que já durava a essa altura mais de cinco anos.

Voltou na mesma barca e olhou no relógio que marcava dez horas da manhã. Era maio e o clima estava ameno, foi caminhando da Praça XV até um seu escritório no centro do RJ. Não ia ali com frequência, controlava de seu escritório em seu apartamento a maioria das questões referentes à consultoria da empresa. Investigações virtuais por computação eram um dos ramos da empresa, que seu cunhado tinha começado e era agora levado adiante pelos seus sobrinhos e seu filho mais velho, agora com vinte e cinco anos. Seu sobrinho Antônio Alves de Souza, de trinta e oito anos, era presentemente o sócio majoritário da Souza Consultoria Ltda..  Souza e seus irmãos tinham outros interesses, eram escritores amadores, divulgando textos pequenos à medida que iam surgindo em suas mentes, contos de ficção, crônicas, pensamentos, etc., e imprimiam seu trabalho em textos e o mantinham em suas bibliotecas.

Antônio Alves de Souza tivera interação com a Sociedade Secundária Brasileira de Magia, e estivera ultimamente estudando as manifestações de Jurupari ou Anhanga no mundo atual. Embora não temesse a arte de magia, não a desprezava e considerava os despachos e rituais de candomblé com atenção. Indo ao mercado, comprou algumas verduras e legumes para sua dieta balanceada, e seguiu caminhando pelas ruas de Botafogo até seu prédio, sem observar nada que fugisse ao normal. Era alto e usava óculos.

Também em relação com a tecnologia de informação do mundo moderno percebia Antonio Alves de Souza manifestações do mundo espiritual. Certos processos mágicos de origem jê e aruaque ele já tinha utilizado para interferir no funcionamento e estabilidade de seus computadores, de forma que seria difícil de explicar a uma pessoa que não tivesse tais percepções. Inclusive aí oferendas aos deuses celtas indo-europeus que eram ligados ao mundo mitológico nativo-brasileiro, com a magia lusitana que também é parte do patrimônio brasileiro. Endovélico já tinha sido invocado em sessões de que Souza mesmo participara em companhia de araras e papagaios espirituais Uyrá-Geropary e Kaapora, nos imóveis da SSBM na região do Estado do RJ. Pensava nas mulheres de Botafogo com que sempre pretendera se relacionar, porém as dificuldes impostas por uma única mulher que fosse o faziam se manter em um equilíbrio a distância. Entretanto, seus estudos, inclusive aí seus avanços no ramo da magia, proviam recursos que ele poderia utilizar para conseguir suas coisas a esse respeito de conquistar mulheres.

Em seu quarto e escritório, Antônio Alves de Souza se sentou em seu computador e conferiu as mensagens em suas contas de correio eletrônico. Tinha obtido resposta de um seu primo no Ceará, concernindo literatura antiga cabocla das paróquias do município de Santa Quitéria. Um livro velho de feitiços Tarairius estava para ser escaneado e uma cópia poderia ser lhe enviada. Redigiu então uma mensagem para uma de suas mulheres que eram possibilidades de namoro, Fernanda Meirelles. Ambos eram parte de uma lista de discussão sobre mitologia nativo-americana na interrede. Comunicou a Meirelles a notícia do Ceará, e lhe deu as linhas gerais da obra. Ela não era membro da Sociedade Secundária Brasileira de Magia, mas ainda assim tinha algumas noções do que acontecia pelo Brasil em termos de conhecimento oculto. Antônio  pretendia uma maior aproximação com Fernanda, que contava 31 anos, mas ele não tinha afobação.

Havia anos que Antônio Alves de Souza vinha tendo os mesmos sonhos, desde que estudara em interrede as características que unem Jurupari e Anhanga, ou Janchon, como o chamam os índios Botocudos, desde conhecer a obra de Barbosa Rodrigues e Souza Rodrigues e outros que os seguiram. Sonhava com algumas pontes ligando as janelas dos escritórios no centro do Rio de Janeiro, onde passeavam pessoas de todas as épocas, espíritos que haviam vivido há tempo e hoje eram espíritos na terra, e a visão da cidade de uma distância um pouco maior, de um observador mais afastado, ia mostrando uma unidade naquela divisão, e as pontes continuavam para os outros bairros e cobriam a cidade inteira. Algumas luzes pequenas que lhe lembravam a ideia de fogo-fátuo, como nas reuniões dos espíritos segundo alguns índios jês.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

João Pedroso Sousa
De Herculano de Lima Einloft Neto.
Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2018.

Chegavam enfim a uma clareira. Tinham adentrado o mato tijucano pelo bairro de Botafogo, e já caminhavam havia duas horas ao meio-sol da tarde carioca. É aqui, disse João Pedroso Sousa. Passou a se lembrar da trajetória que os levara até ali nas últimas semanas.

João Pedroso Sousa tinha acompanhado acontecimentos de mau agouro naquele bairro no mês anterior. Alguns cães das casas vizinhas ao mato e ao morro Dona Marta tinham fugido dos donos inesperadamente, conseguindo saltar muros através de tramas que cães não costumam conseguir, e a coincidência dos eventos suscitava uma sensação desagradável nos moradores. Quando um dos cães que tinham se mantido na casa do Sr. Oliveira fugiu e retornou trazendo pelas pernas a carcaça morta de seu ex-companheiro de residência, a vizinhança percebeu que algo esquisito realmente estava ocorrendo. O cão defunto trazia marcas de chicotadas e se configurava em morte matada, estando sujo de modo a fazer crer que estivera dentro da floresta do parque. Houve um inicio de intenção de fazer uma busca pelos cerca de dez outros cães pela mata do Parque da Tijuca, mas as embrenhadas pelo matagal traziam já o risco da violência humana, então se ficou esperando alguma outra notícia.

Sousa vivia para suas atividades intelectuais, fazendo coisas diversas para seguir com a vida. Tinha um interesse na literatura e no folclore nacional e sabia que alguns relatos dos nativo-americanos eram vívidos demais e carregados de terror, desde as descrições quinhentistas. A polícia foi acionada mas não poderia fazer buscas no mato atrás de crimes contra animais que afinal haviam fugido espontaneamente, pelo relato dos vizinhos e testemunhas. Sendo amigo dos Oliveira, Sousa tomou um interesse no caso e passou a interrogar alguns moradores do entorno do mato em Botafogo. Se surpreendeu ao perceber que havia memória de tais ocorrências entre habitantes mais antigos, pois que havia segundo a fala popular pessoas que viviam na floresta clandestinamente por alguns meses, para fins ocultos. Certos cultos de entidades nativas continuavam vivos e em parte segregados mesmo dos cultos mais conhecidos do candomblé e da umbanda. E eram esses mesmos que costumavam ser praticados na floresta, com consequências por vezes funestas para cidadãos urbanos.

"São pessoas da cidade que querem mexer com as entidades nativas", disse D. Mariangela, da Rua Bambina, que costumava visitar o entorno do Palácio Guanabara. "Fazem por razões diversas, para combater inimigos e o que valha". Sousa se mantinha frio, mas não via razão para descrer dos relatos do povo, ainda quando ocorrências estranhas poderiam mais tarde lhes dar crédito.

A família Pedroso Sousa

Toda essa conversa era familiar para João Pedroso Sousa. Fazia uns cinco anos que ele se dedicava a estudar sua genealogia materna, e tinha dessa maneira obtido informações ligadas ao sobrenatural nativo-americano em sua própria família. Sua mãe Amélia dos Santos Pedroso descendia de um português do Porto, João Pedroso Santos, que tinha obtido sesmaria no interior do estado de São Paulo, nas proximidades de Itu, na década de 1740. No Arquivo Público do Estado de São Paulo, Sousa encontrara alguns processos judiciais de resolução indefinida entre este João Pedroso Santos, seu sexto-avô e seus proprietários vizinhos. Um  manuscrito anexado posteriormente a um desses processos trazia cópia de um trabalho genealógico realizado por seu bisavô, Juliano dos Santos Pedroso Filho, que ele sabia por comunicação em interrede alguns primos terem cópia, e pela qual estava procurando. O texto genealógico relatava, entre outras informações, como Juliano Pedroso Santos, seu trisavô, n. 1841, tinha se dedicado ao estudo da língua latina pelas duas cópias que a família obtivera do Compendio de  Grammatica Latina e Portugueza de José Vicente Gomes de Moura, tendo posteriormente estudado obras de conteúdo oculto europeias, notadamente De Occulta Philosophia de Cornelio Agrippa pela cópia disponível na Biblioteca Nacional do RJ. Era tido em sua família como feiticeiro, embora não tenha entrado jamais em conflito com a sociedade por conta disso. Entretanto a tradição conta que conseguira sucesso incomum no trato com os nativo-americanos dos matagais vizinhos a sua propriedade, sem ter problemas com animais predadores ou com ataques dos índios, o que lhe rendera considerável sucesso nos negócios e uma boa fortuna, dividida entre seus oito filhos. Ademais o relacionamento comercial de Juliano Pedroso Santos com os nativo-americanos era excelente e lhe traziam peixes e frutas para revenda nas épocas de fartura, e por vezes lhe vendiam caças como capivaras que rendiam banquetes em sua propriedade. Tudo isso ficava mais complexo pelo fato de que o quinto-avô Santos Pedroso de João Pedroso Sousa, Miguel dos Santos Pedroso, tinha contraído matrimônio com a filha de um pajé dos índios Aymorés, pelo que "a ancestralidade de caráter", como dizia o texto, já lhe vinha por essa quinta-avó, batizada em São Paulo como Marta Josefa. O texto configurava, sem dizer explicitamente, uma prática de feitiçaria de origem nativa em sua própria família. Não tendo havido entretanto queixas da sociedade, a Igreja Católica não incomodara, ainda porque a família residia em área remota e era assim uma pioneira na exploração do país, o que sempre era de interesse social.

terça-feira, 8 de maio de 2018

Antonio Freire de Andrade
De Herculano de Lima Einloft Neto.
Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2018.

Antonio Freire de Andrade, notário em Porto, Portugal, passou ao Brasil em 1637, com trinta e seis anos de idade, chegando à cidade do Rio de Janeiro. O núcleo da aristocracia luso-brasileira se encontrava em São Vicente, e lá Andrade contraiu matrimônio com Luiza Alvarenga, vindo residir o casal no território fluminense. Nasceram deste casamento quatro filhos, criados em Rio de Janeiro, onde Andrade prestava serviço como notário. Passados vinte e dois anos, Antonio Freire de Andrade, então com cinquenta e oito anos de idade, deixou os negócios aos cuidados de seus filhos e um cunhado e partiu em empresa pelo interior do país. Tinha conhecimento da obra de Ambrosio Fernandes Brandão, Diálogos das Grandezas do Brasil, e de outros relatos de inscrições encontradas em rochas nos sertões do Mato Grosso. Foi acompanhado por quatro nativos tupiniquins, quatro luso-fluminenses e um capitão-do-mato de nome Francisco Alves, fluminense de terceira geração e carioca, além de seu terceiro filho, João Alvarenga de Andrade, com dezesseis anos de idade. Andrade havia se tornado razoavelmente fluente na língua tupi em seus anos de serviço no Novo Mundo, e tinha a percepção de que parte do que os nativo-americanos sabiam a respeito da terra, não era compartilhado nem mesmo com os padres jesuítas que registravam a língua e os costumes nativo-brasileiros.

A empresa era arriscada, mas Antonio de Andrade tinha experiência em excursões pelo mato, e sua comitiva não era pequena demais nem despreparada. Confiava na movimentação discreta para chegar aos objetivos, as ruínas de uma civilização pré-incaica, localizadas no atual estado do Mato Grosso. Levava papel e pena para registrar o que fosse que encontrasse de interessante. Era tambem bom desenhista. Entretanto, Andrade desconhecia a extensão daquilo que ainda existisse de tal povoação. Os índios residentes ao Mato Grosso guardavam aquela região, onde o poderio bélico português não fizera esforços demasiados para o domínio por questão mesmo de preservação arqueológica. O próprio saudoso el-Rei D. João IV, seu filho D. Afonso VI e a regente Luisa de Gusmão sabiam bem da importância deste território. Alguns bandeiristas haviam sido mortos por chegar muito próximos a entradas subterrâneas, que levavam a ruínas soterradas desde há muito e mantidas pelas tribos que descendiam dos atlantes brasileiros. Andrade em seu tempo em Porto tinha tido acesso a alguns documentos extraviados, que deixavam claro que Portugal não expunha completamente algumas informações mais profundas sobre o que guarda o território do Brasil.

Passados oito dias de cavalgada, chegaram a avistar a Serra da Mantiqueira, onde os tupiniquins conheciam algo do que as nações nativas não revelavam em geral. Existiam certas reentrâncias na pedra, que davam a impressão de ser portais de pedra, mas que eram impossíveis de abrir. Na verdade se tratavam de marcas para orientar os viajantes. Percorrendo o perímetro da serra se depararam por duas vezes com semelhantes portais, sendo que no primeiro havia inscrições em um alfabeto semelhante ao grego. Andrade as anotou devidamente. O mais velho dos tupiniquins, Abaitambe, reconhecia aquela escrita. Era a escrita antiga brasileira, de alguns de seus antepassados. Embora não utilizassem a escrita em geral nos dias correntes, os tupiniquins tinham sabedoria por tradição de que ela existia e sua relevância em seu território. Algumas das galerias subterrâneas de cidades antigas ainda persistiam com certo esplendor, guardadas por ramos tupi-guaranis ligados a feitiçaria e ao oculto.

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Incidente na Serra
De Herculano de Lima Einloft Neto.
Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2018.

Na Serra de Nova Friburgo a chuva costuma cair repentinamente logo após uma manhã de sol, e os que sabem disso também não hão de duvidar das cachoeiras e lugares naturais que se encontram nos distritos menos urbanizados de Lumiar e Boa Esperança, as lagoas, as plantações de cana e as estradas que à noite, à beira do mato, são escuras e reservadas. Há anos a estrada entre Lumiar e Boa Esperança foi asfaltada, e a história que ora relato se passa em época posterior, quando os quilômetros que ligam os dois distritos não eram mais de terra em percurso sinuoso, que durante a chuva criava poças e que cansava os caminhantes noturnos, depois de uma noite na praça de Lumiar. Ali em Boa Esperança de Baixo há condomínios que alugam casas por temporadas, à beira de um rio, e durante uma estada lá, João Castro e Antonio Freitas tiveram uma experiência que jamais esqueceram, pelo inusitado e inaudito, e hoje ainda têm dificuldade em comentar o ocorrido, pois que a descrença dos ouvintes é a regra.

A colonização suiça de Nova Friburgo, parece ter trazido algumas lendas suiças também, como os gnomos que alguns moradores gostam de dizer que habitam as encostas de mato entre Lumiar e São Pedro da Serra. Castro e Freitas vieram por dois dias para uma casa na beira do rio, para tomar chá, ler e ver a paisagem. João Castro era matemático e escritor amador, Antonio Freitas era jornalista, escritor amador e amante da natureza. Ambos tinham 40 anos de idade. Desceram do ônibus que pegaram no Rio de Janeiro, pegaram o outro ônibus para o condomínio à beira do rio, e instalaram a pouca bagagem na pequena casa. Aproveitaram o primeiro dia de forma tranquila, havia mais duas casas ocupadas no condomínio, uma por um casal, e outra por um homem. Enquanto Castro se mantinha mais no condomínio, escrevendo digitando ao computador, tomando notas e lendo seus livros, Freitas saía mais para caminhar, em busca de algum movimento, algum bar, e de observações da natureza e da arquitetura local. Nesta primeira tarde Antonio Freitas caminhou bastante até encontrar uma trilha que adentrava ao lado da estrada, trilha pela qual entrou talvez animado pelo dia nublado, e que logo se revelou um pouco mais estreita e difícil do que o esperado. A mata logo começou a fechar, e Freitas teve então receio de cobras e outros incidentes perigosos, pelo que tencionou voltar; mas sua atenção foi tomada por alguns pássaros de cores vivas que observou a uns dez metros de distância, em uma reunião que julgou no mínimo peculiar. Em baixo de uma árvore, Antonio Freitas via um grupo de dez a quinze aves, cujas espécies não soube precisar, das mais diversas cores, do tamanho de araras ou papagaios, mas de bicos longos. As havia azuis, verdes, vermelhas e amarelas, e os olhos das aves pareciam emitir um brilho tênue e estranho. Freitas esfregou os olhos, e continuou observando as aves que agora tinham o notado. Como as aves o olhassem sem fazer barulho e sem piar, e continuassem o encarando, se sentiu desconfortável, e então passou a fazer o caminho de volta. Com uma rapidez e um desconforto difícil de explicar, conseguiu sair da trilha por onde tinha entrado, e seguiu viagem pela estrada até chegar a um bar que ficava aberto. Tomou uma água, ficou algum tempo apreciando um pequeno lago no local, e começou a retornar para o condomínio pelas 16:00. Enquanto retornava, Freitas tentava rever a trilha por onde tinha passado, mas malgrado todos os seus esforços e pesquisas, não conseguiu localizar o local por onde tinha caminhado havia alguma horas.

Chegando à casa no condomínio, relatou o ocorrido a Castro, que não duvidou do que ouvia, mas achou o relato peculiar e esquisito. Se propuseram a tentar localizar a trilha novamente no dia seguinte, se houvesse tempo, tinham muitas outros planos para a estadia de fim-de-semana. Nesta noite resolveram descer para a praça de Lumiar para beber água e aproveitar o movimento, e a beleza das mulheres locais.

terça-feira, 1 de maio de 2018

Entregas
De Herculano de Lima Einloft Neto.
Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2018.

De tanto andar de bar em bar, já não sabia mais aonde ir, se deciciu a rumar para casa. Que implicações haveria por suas atitudes naquele dia? Se perguntava o quanto haviam notado sua presença no restaurante do qual saira duas horas antes, no qual havia tentado ser discreto enquanto se alimentava e esperava uma ligação telefônica. Contar com o recebimento de ligações telefônicas é a desgraça de um homem, isso tinha por certo. A ligação não chegou, e não cabia perguntar ou tentar saber por que; ademais a verdade estava muito distante para ser comprovada neste caso. Se lembrou de seu contato em Copacabana, o homem de terno que havia lhe entregado a carta às treze horas, e lhe recomendado o restaurante aberto à esquina da República do Peru, área muito frequentada pelos turistas estrangeiros que visitam o Rio de Janeiro. Prestava esse tipo de pequenos serviços a uma agência de São Paulo, com interesses internacionais, mas isso era tudo o que sabia, e recebia sempre em dinheiro, como neste dia. Uma bela soma por um serviço sobre o qual não deveria fazer perguntas, mas não precisava nunca carregar flagrantes diretos de delito, só cartas, e somente a discrição era lhe recomendada. O telefone tocaria com instruções do tipo, caminhe uma quadra em direção tal, e entregue a carta ao homem de camisa verde, calça jeans e tênis branco. Imaginava que texto podia ser tão importante para que necessitassem de um nível de indireção para a entrega, mas entendia o quanto os tempos haviam mudado, as câmeras de segurança na cidade agora eram onipresentes. Sabia que podia se tratar de serviço de queima de arquivo, eliminação, mas não era um homem num tipo de condição de escrúpulos que lhe embargassem um emprego que ademais se ele se recusasse a fazer outro certamente aceitaria.

Chegou ao seu prédio, um dos prédios de muitos apartamentos dos quais o bairro de Copacabana se encontra repleto, com por vezes até três elevadores, sempre em atividade. Sim, morava ali há alguns anos, Copacabana era um bairro em que era relativamente mais fácil ser discreto, talvez porque a privacidade seja um pouco menor para todos ali. Entrou no quitinete e se deitou na cama, decidido a pensar na vida por algumas dezenas de minutos. Era imigrante de Goiás, começava a se preocupar em ser detido pela polícia ou introduzido em algum processo penal por qualquer coisa que seus empregadores houvessem feito. Gostava de adentrar as matas virgens que ainda subsistem ao longo da cidade, na Floresta da Tijuca, até o Alto da Boa Vista, e andava armado de facão nessas ocasiões, nunca se sabe o que vai se encontrar no meio do mato, além dos animais inesperados, não há população para proporcionar defesa, ali a segurança se faz por si próprio. Andaria armado de arma de fogo mas o medo de ser detido com uma lhe impedia. O mais importante para ele nessa questão era evitar qualquer conflito. Ainda assim, sabendo o quanto era inconsequente a sua atitude, o quanto era perigoso entrar sozinho no matagal carioca, tanto mais lhe aprazia os momentos de tranquilidade que obtinha em tais percursos. Sabia o quanto era difícil conseguir um local realmente privado na cidade, e ali era exatamente isso o que conseguia, ao custo de um desagradável medo.

Pensava nisso quando deu conta de um pacote em cima de sua bancada. Rebuscou na memória que pacote era aquele, do tamanho de dois livros, mas não lembrou, de que o início de susto que tomara evoluiu para um susto de verdade. Se não tinha amnésia, alguém invadira sua propriedade. Não pretendia abrir o que quer que fosse recebido desta maneira, tinha medo de cartas-bomba. Analisou o exterior do pacote e viu que nele estava escrito: Para Manoel Silva. Era ele. Tinha uma carta que não lhe diria respeito em sua posse, ao menos o pacote estava lhe endereçado; mas o pacote lhe parecia mais perigoso. Achou toda a situação um tanto inusitada e creu que a circunstância lhe permitia violar o envelope que tinha sido lhe confiado. Não precisava afinal tanto assim do emprego, abriu o envelope e constatou aquilo que já suspeitava, não podia compreender o conteúdo, era uma mensagem criptografada; essa informação ele agora tinha por certa. Com o cabo de uma vassoura mexeu um pouco no pacote, não notou nada que configurasse perigo iminente, então o colocou em duas sacolas plásticas de supermercado, o levando assim envolto para a lixeira do apartamento.

Depois desse incidente, se passou uma semana em tranquilidade, e seus antigos empregadores não lhe contactaram mais. Achou por bem procurar uma outra coisa para ganhar dinheiro, pois começava a se sentir inseguro da estabilidade do negócio.

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Juliano de Sousa Horst
De Herculano de Lima Einloft Neto.
Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2019.

Juliano de Sousa Horst andava pelo Rio de Janeiro, conhecia a Zona Sul e parte da Zona Norte tão bem que a cada trecho recordava tudo o que ali tinha funcionado desde os tempos de menino. Se as mudanças o incomodavam, ele sabia que a geografia básica dos bairros da cidade se mantinha estável, e ancestral, e com esse pensamento, Horst se tranquilizava. Sabia também o quanto os turistas marcavam presença na Zona Sul, e os sinais pelos quais os cariocas se reconheciam em linguagem, de forma semelhante aos maçons. Horst era alto, com cerca de 1,93m, era corpulento, e usava óculos, tendo seis graus de miopia em cada um de seus dois olhos. Seu cabelo era preto e ondulado, e os seus olhos castanhos escuros. Horst era escritor amador, especializado em contos de ficção. Artur Azevedo e Lima Barreto eram referências importantes, para ele. Saltou do ônibus e se dirigiu ao prédio com fachada de pedra na Rua Barão da Torre, entre as praças Nossa Senhora da Paz e General Osório. Tocou o interfone, vou ao 302, apartamento de Mariana, disse. Lembrava das razões pelas quais estava ali, pensava na semana anterior, enquanto o elevador subia. Esperava encontrar Mariana Neves sozinha, e ela o recebeu na porta, precisavam tratar de assunto meio importante, uma viagem se apresentava para ambos, decerto que não para longe mas a ocasião pedia a atitude. Uma casa estava vaga na região serrana do RJ, em São Pedro da Serra, distrito de Nova Friburgo, e durante toda a sua vida Juliano tinha considerado aquele refúgio serrano à disposição, mas a burocracia do arranjo de um chalé ou casa conveniente não possibilitara a volta constante.

-- Meu primo Joaquim vai viajar para fora e a casa em São Pedro da Serra vai estar livre por quinze dias, nós temos de aproveitar. -- foi dizendo.

De forma surpreendente, Mariana Neves não ofereceu muita resistência, sabia que um convite nessas condições representava certa responsabilidade para o namorado. Havia meses que vinham saindo esporadicamente, sua confiança nele aumentava diariamente, e o que quer que fosse que desse errado seria creditado a ele. Horst decidiu dirigir, conhecia alguma coisa da estrada, em verdade uma bela estrada, com verdes paisagens, com árvores e montes campestres de lado a lado. Gostava de utilizar os transportes coletivos, mas a direção de um carro, um Nissan Tiida sedã prata, lhe era habilidade útil. Se lembrou de suas experiências no mundo serrano, a temperatura amena da serra, e as pousadas às beiras de rio(s). A praça de Lumiar até parecia menor depois de alguns anos, e o asfaltamento da estrada para Boa Esperança anos atrás, já percebido nas visitas anteriores de Horst a Boa Esperança, tinha sido uma coisa surpreendente, e os habitantes serranos decerto se satisfizeram com tal medida administrativa. Se lembrava das caminhadas à noite de Lumiar para Boa Esperança, no escuro, com um tanto de cerveja e destilados no corpo. Perfazendo o trajeto de carro outra vez após a idade adulta, se deu conta mais uma vez de que a distância realmente não era pouca para um fim de noite. Desde havia tempo, Horst conscientemente escolhia não consumir bebidas alcoólicas, especialmente quando estava trabalhando em seus textos, e nos períodos ou semanas antes e depois de trabalhar em seus textos. Os eventos recentes de calamidade trazida pela chuva tinham o assustado sobremaneira, mas conversando com um friburguense no Rio de Janeiro soube que os distritos fora o central tinham sido menos afetados. A chuva costuma cair forte e repentina na estrada entre Nova Friburgo e Rio de Janeiro, e isso era mais um fator a considerar.

O ar da serra era ideal para ler e escrever na natureza, Horst levava alguns livros e o computador, e um pen drive USB de memória flash para cópias de segurança. Escrever digitando ao computador naquele ambiente seria bom, ouvindo o silêncio, e até mesmo de vez em quando os sapos e grilos que se manifestavam à noite. Passaram na estrada e viram a ponte que leva à vereda do alambique, e chegaram à casa em São Pedro da Serra pelas cinco da tarde. Mariana parecia feliz com o planejamento. Horst recordava as mulheres que tinha em lembrança relacionadas àquele refúgio onde prevalecia a colonização suiça. Foram logo para Boa Esperança, para o velho bar e sinuca à beira do Poço Belo. Em conversa com o proprietário, Sr. José, se soube que algumas famílias alemãs tinham vindo nos últimos anos ali se estabelecerem, em propriedades construídas no que antes tinha sido plantações de cana. A internete em banda larga estava disponível nos distritos de Nova Friburgo desde havia tempo.

-- A tranquilidade aqui é a mesma, e desde que essa leva de famílias chegou, não parece muita coisa ter mudado. Vivem em propriedades de médio porte, usam computadores e não parecem querer incomodar ninguém. Vieram cerca de quinze famílias, mais ou menos sessenta pessoas, especialmente da região de Renânia-Palatinado. São dedicados no estudo de língua portuguesa do Brasil. -- disse Seu José.

Juliano de Sousa Horst bem sabia, os seus predecessores Horst também eram originários dessa região. As famílias de Nova Friburgo eram em geral teutas ou germânicas também, e Juliano de Sousa Horst descendia por vias femininas de linhagens masculinas luso-brasileiras, os Sousa, Lima, Ferreira, Pereira, Andrade, Garcia, Carneiro, dos Santos, Monteiro, Silva, Peixoto, Medeiros, Raposo, Alves, Pedroso, etc.; seus antepassados Horst tinham imigrado há 162 anos de Enkirch an der Mosel, Kreis Zell, Província do Reno da Prússia, para o Rio Grande do Sul, Brasil, em 1857. O bisavô de Juliano de Sousa Horst, Leopoldo Guilherme Horst, n. 1885, tinha sido sócio de uma serraria de madeira em Porto Alegre, na rua Voluntários da Pátria, junto com os irmãos de Leopoldo Guilherme Horst, Carlos Henrique Horst, n. 1874 e Albino Horst, n. 1883, serraria essa que teve origem em um depósito de madeira do trisavô de Juliano de Sousa Horst, Guilherme Horst. O tetravô de Juliano de Sousa Horst, Henrique Horst, imigrante com sua esposa e filhos, se dedicara a agricultura e exercera sua profissão de pedreiro. O avô paterno de Juliano de Sousa Horst, de mesmo nome Juliano de Sousa Horst, fora fiscal no Rio Grande do Sul. O pai de Juliano de Sousa Horst, João de Medeiros Horst, era Engenheiro Elétrico, graduado na UFRGS. Enquanto considerava os fatos, surgiu pela estrada de terra um Passat marrom, e pôde ver dois homens da parte de dentro, enquanto o veículo desacelerava e estacionava próximo ao bar. O saudaram com um aceno e foram ter com Seu José. Um engradado de guaraná, para as crianças, talvez, foi o que compraram, e logo partiram rumo a Boa Esperança de Cima. Após tão singelo evento resolveu o casal carioca ir de carro até Lumiar para um passeio. Horst se lembrava de um bar que havia naquela estrada, no passado, da curva da estrada, e do quanto podia ser interessante uma caminhada a dois por ali, e mais uma vez maldisse em pensamento o medo que as chuvas tinham trazido.

A estrada de Boa Esperança para Lumiar no passado, de terra batida, com um rio ao lado, ainda persistia em sua memória, mesmo ele já tendo visitado a região depois do asfaltamento várias vezes, e o asfaltamento não tinha modificado as encostas verdes à esquerda que iam dar na margem direita do rio. As curvas tortuosas deixavam ver trechos de belas árvores em entradas de mato fechado à direita. Juliano de Sousa Horst tinha trinta e oito anos de idade e estava bem estabelecido, vivia por rendas razoáveis e planejava ter filhos com Mariana Neves, que não se opunha à ideia. Mariana Neves tinha vinte e sete anos, e ambos compartilhavam um interesse em literatura e história. Tinham se conhecido na biblioteca da PUC-RJ, quando Juliano de Sousa Horst, já graduado como Engenheiro de Computação pela PUC-RJ, lá comparecia para consultar como ex-aluno, e o silêncio bibliotecal fora de fato um obstáculo difícil de transpor, coisa somente possível no corredor e antessala de acesso. Hoje em dia liam muito por computador e internete, e as idas àquela biblioteca tinham rareado.

Chegaram à noite à praça de Lumiar, sempre movimentada, com bom fluxo de gentes e boa quantidade de bares abertos. Entraram em um e pediram duas águas, o casal carioca. Horst tinha estado ali esporadicamente ao longo da vida, e Mariana Neves conhecia a região de passagem. Eram em verdade pessoas reservadas, desconfiadas, mas sempre gentis, e foram bem recebidos pela localidade, bondade perceptível nos detalhes, no atendimento, na hospitalidade discreta. Uma televisão estava sintonizada no telejornal da noite, e a clientela tecia comentários sobre o noticiário. Notaram um outro casal mais ao lado que lhes pareceu simpático, e com o tempo puderam lentamente ir trocando pequenos comentários e sinais, até que a conversa se entabulou. O homem tinha mais ou menos trinta e dois anos, e da mesma forma a mulher; eram locais de Nova Friburgo, sempre em trânsito entre a cidade e os distritos.

-- Vocês são do Rio de Janeiro então? É sempre bom receber cariocas, desde a chuva o movimento diminuiu muito. Eu sou Fernando, ela é Marta. -- disse o homem.
-- Somos, sim, eu sou Juliano, ela é Mariana, pois é, a chuva, coisa terrível. E ainda mais sabendo da recente imigração para os distritos em Boa Esperança. -- respondeu Horst.
-- Mas nesse respeito a tragédia não foi tão grande, esses distritos quase não foram afetados e as famílias recentemente friburguenses não sofreram com a tragédia mais do que alguma saudade do sol por alguns dias, e talvez a queda temporária das linhas de telefone e internete.

A tendência migratória contínua dava certa satisfação a Horst, por saber que aqueles que ali vinham se estabelecer eram seus parentes por linhagem. Seu fascínio por Nova Friburgo começara cedo, e era apreciador do clima frio, ou fresco, que a serra proporcionava. Especialmente no verão carioca subir a serra de Nova Friburgo era uma atitude que aliviava os sentidos. Voltaram para a casa em São Pedro da Serra por volta de vinte e uma horas.

No dia seguinte, foram andar pelas caminhadas que a região oferece.

Cf. Ludwig, Alfredo, Uma viagem pelo Rio Grande do Sul (3º vol). Tipografia do Centro S.A.- Centro da Boa Imprensa do RGS, Porto Alegre, 1943, p. 83-84, A família Einloft.

sábado, 10 de fevereiro de 2018


Em Uma Terra Estranha
De Anton Chekhov.
Tradução de língua russa para língua inglesa.
De Constance Garnett.
De The Schoolmaster and Other Stories, https://archive.org/details/schoolmasterand00garngoog .
Tradução de língua inglesa para língua portuguesa do Brasil.
De Herculano de Lima Einloft Neto.
Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2018.


Domingo, meio-dia. Um proprietário de terras, chamado Kamyshev, está sentado em sua sala de jantar, deliberadamente comendo seu almoço em uma mesa luxuosamente equipada. Monsieur Champoun, um francês velho, suavemente barbeado, asseado, limpo, está dividindo a refeição com ele. Este Champoun tinha uma vez sido um tutor na casa de Kamyshev, tinha ensinado a seus filhos boas maneiras, a pronúncia correta de língua francesa, e dançar: depois quando os filhos de Kamyshev tinham crescido e se tornado tenentes, Champoun tinha se tornado alguma coisa como uma empregada doméstica do sexo masculino. Os deveres do tutor passado não eram complicados. Ele tinha de estar propriamente vestido, de cheirar a perfume, de ouvir a fala ininteligível inativa de Kamyshev, de comer e beber e dormir --e aparentemente isso era tudo. Por isso ele recebia um quarto, sua comida, e um salário indefinido.

Kamyshev come e como usual fala ininteligivelmente a esmo. "Danação!" ele diz, limpando as lágrimas que vieram dentro de seus olhos depois de uma bocada de presunto grossamente coberto com mostarda. "Ough! Ela entrou em minha cabeça e em todas minhas juntas. Sua mostarda francesa não iria fazer isso, você sabe, se você comesse o pote inteiro."

"Alguns gostam da francesa, alguns preferem a russa..." Champoun coloca brandamente.

"Ninguém gosta de mostarda francesa a não ser franceses. E um francês irá comer qualquer coisa, o que quer que você dê a ele -- sapos e ratos e percevejos negros... brrr! Você não gosta desse presunto, por exemplo, porque ele é russo, mas se um fosse para lhe dar um pouco de vidro assado e dizer a você que ele era francês, você iria o comer e estalar seus lábios... Para seu pensamento toda coisa russa é horrível."

"Eu não digo isso."

"Toda coisa russa é horrível, mas se é francesa --- o say tray zholee[1]! Para seu pensamento não há nenhum país melhor do que França, mas para minha mente... Ora, o que é França, para dizer a verdade sobre ela? Um pequeno pedaço de terra. Nosso capitão de polícia foi enviado para lá, mas em um mês ele pediu para ser transferido: não havia lugar nenhum para fazer uma volta! Um pode dirigir ao redor do todo de sua França em um dia, enquanto aqui quando você dirige para fora de seu portão -- você não pode ver nenhum fim para a terra, você pode percorrer continuamente..."

"Sim, monsieur, Russia é um país imenso."

"Para estar certo ela é! Para o seu pensamento não há nenhumas pessoas melhores do que os franceses. Pessoas inteligentes, bem-educadas! Civilização! Eu concordo, os franceses são bem-educados com maneiras elegantes... isso é verdade... um francês nunca permite a si mesmo ser rude: ele entrega a uma dama uma cadeira no minuto certo, ele não come lagostim com seu garfo, ele não cospe no chão, mas... não há o mesmo espírito nele! não o espírito nele! Eu não sei como o explicar a você mas, como quer que um seja para o expressar, não há nada em um francês de ... alguma coisa ... (o falante floreia seus dedos) ... de alguma coisa ... fanática. Eu me lembro que eu li em algum lugar que vocês todos têm inteligência adquirida de livros, enquanto nós russos temos inteligência inata. Se um russo estudar as ciências propriamente, nenhum de seus professores franceses é páreo para ele."

"Talvez," diz Champoun, como se fosse relutantemente.

"Não, não talvez, mas certamente! É inútil seu franzir as sobrancelhas, é a verdade que eu estou falando. A inteligência russa é uma inteligência inventiva. Somente de curso ele não é dado uma passagem livre para isso, e ele não é nenhuma mão em jactância. Ele irá inventar alguma coisa -- e a quebrar ou a dar para os filhos brincarem com, enquanto seu francês irá inventar alguma coisa sem sentido e fazer um grande barulho para o mundo todo o ouvir. O outro dia Iona o cocheiro esculpiu um homem pequeno de madeira, se você puxar o homem pequeno por um fio ele joga palhaçadas impróprias: Mas Iona não se gaba disso... eu não gosto de franceses como uma regra. Eu não estou me referindo a você, mas falando geralmente... Eles são um povo imoral! Por fora eles parecem homens, mas eles vivem como cachorros... Tome casamento por exemplo. Conosco, uma vez que você está casado, você se fixa a sua mulher, e não há conversa sobre isso, mas Deus sabe como é com vocês. O marido está sentado o dia todo em um café, enquanto sua esposa enche a casa com franceses, e se põe a dançar o can-can com eles."

"Isso não é verdade!" Champoun protesta, irrompendo e incapaz de se conter. "O princípio da família é altamente estimado em França."

"Nós sabemos tudo sobre esse princípio! Você deveria estar envergonhado por o defender: um deveria ser imparcial: um porco é sempre um porco... Nós precisamos agradecer aos alemães por terem os batido... Sim de fato, Deus os abençoe por isso."

"Nesse caso, monsieur, eu não entendo..." diz o francês pulando acima com olhos flamejantes, "se você odeia os franceses por que você me mantém?"

"O que sou eu para fazer com você?"

"Me deixe ir, e eu irei ir de volta para França."

"O que-e? Mas você supõe que eles o deixariam entrar em França agora? Ora, você é um traidor para seu país! A um tempo Napoleão é seu homem grande, a outro Gambetta... Quem diabos pode os entender?"

"Monsieur," diz Champoun em francês, gaguejando e esmagando seu guardanapo de mesa em suas mãos, "meu inimigo pior não poderia ter pensado de um insulto maior do que o ultraje que você acaba de fazer a meus sentimentos! Tudo está acabado!"

E com um balanço trágico de seus braços o francês joga o guardanapo de jantar sobre a mesa majestosamente, e anda para fora da sala com dignidade.

Três horas depois a mesa está posta de novo, e os serventes trazem para dentro o jantar. Kamyshev senta só à mesa. Depois do copo preliminar ele sente um desejo de falar ininteligivelmente. Ele quer conversar, mas ele não tem nenhum ouvinte.

"O que está Alphonse Ludovikovitch fazendo?" ele pergunta ao lacaio.

"Ele está preparando sua mala, senhor."

"Que tolo! Deus nos perdoe!" diz Kamyshev, e vai para dentro para o francês.

Champoun está sentado sobre o chão de seu quarto, e com mãos trêmulas está preparando em sua mala seu linho, garrafas de perfume, livros de oração, suspensórios, gravatas... Toda sua figura correta, seu tronco, sua armação de cama e a mesa -- todos têm um ar de elegância e efeminância. Grandes lágrimas estão caindo desde seus olhos azuis grandes dentro da mala.

"Para onde você está indo?" pergunta Kamyshev, depois de ficar parado por um pouco.

O francês não diz nada.

"Você quer ir embora?" Kamyshev continua. "Bem, você sabe, mas ... eu não vou me aventurar a o deter. Mas o que é estranho é, como você vai viajar sem um passaporte? Eu me pergunto! Você sabe que eu perdi seu passaporte. Eu o enfiei em algum lugar entre alguns papéis, e ele está perdido... E eles são estritos sobre passaportes entre nós. Antes de você ter ido três ou quatro milhas eles saltam sobre você."

Champoun levanta sua cabeça e olha desconfiadamente para Kamyshev.

"Sim... você irá ver! Eles irão ver por sua face que você não tem um passaporte, e perguntar imediatamente: Quem é esse? Alphonse Champoun. Nós conhecemos esse Alphonse Champoun. Você não iria gostar de ir sob escolta policial para algum lugar mais perto de casa!"

"Você está de piada?"

"Que motivo tenho eu para dizer piadas? Por que deveria eu? Somente note agora; é um compacto, não comece a se lamentar então e escrever cartas. Eu não vou mover um dedo quando eles o levarem em algemas!"

Champoun pula para cima e, pálido e de olhos arregalados, começa a passear para cima e para baixo do quarto.

"O que você está fazendo comigo?" ele diz em desespero, segurando sua cabeça. "Meu Deus! Amaldiçoada seja aquela hora quando o pensamento fatal de deixar meu país entrou em minha cabeça!..."

"Venha, venha, venha... Eu estava brincando!" diz Kamyshev em um tom mais baixo. "Pessoa estranha ele é; ele não entende uma piada. Um não pode dizer uma palavra!"

"Meu caro amigo!" grita Champoun, tranquilizado pelo tom de Kamyshev. "Eu juro que eu sou devotado a Rússia, a você e a seus filhos... Os deixar é tão amargo para mim quanto morte ela mesma! Mas toda palavra que você pronuncia me esfaqueia ao coração!"

"Ah, sua pessoa estranha! Se eu abuso dos franceses, que razão tem você para tomar ofensa? Você é realmente uma pessoa estranha! Você deveria seguir o exemplo de Lazar Isaakitch, meu tenente. Eu o chamo de uma coisa e de outra, um judeu, e um cafajeste miserável, e eu faço uma orelha de porco do rabo de meu casaco, e o pego por seus cachos judaicos. Ele não toma ofensa."

"Mas ele é um escravo! Por um copeque ele está pronto a suportar qualquer insulto!"

"Venha, venha, venha... isso é suficiente! Paz e concórdia!"

Champoun passa pó em sua face manchada de lágrimas e vai com Kamyshev para a sala de jantar. O primeiro curso é comido em silêncio, depois do segundo a mesma execução começa de novo, e então os sofrimentos de Champoun não têm fim.

Cf. Avery, Houaiss, Dicionário Barsa.
Cf. Dicionário Houaiss da língua portuguesa.
Cf. http://michaelis.uol.com.br/ .
Cf. http://michaelis.uol.com.br/moderno-ingles/ .
Cf. http://www.wordreference.com/enpt/ , Dicionário Inglês-Português (Brasil).

Notas de Tradução:

[1] do francês c'est très joli.

sábado, 20 de janeiro de 2018


O Mestre-escola
De Anton Chekhov.
Tradução de língua russa para língua inglesa.
De Constance Garnett.
De The Schoolmaster and other stories, https://archive.org/details/schoolmasterand00garngoog .
Tradução de língua inglesa para língua portuguesa do Brasil.
De Herculano de Lima Einloft Neto.
Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2018.

Fyodor Lukitch Sysoev, o mestre de escola de fábrica mantida à custa da firma de Kulikin, estava se preparando para o jantar anual. Todo ano depois da examinação de escola a junta de gerentes dava um jantar a que o inspetor de escolas elementares, todos que tinham conduzido as examinações, e todos os gerentes e chefes de turma da fábrica estavam presentes. Apesar de seu caráter oficial, esses jantares eram sempre bons e vívidos, e os convidados sentavam um tempo longo neles; esquecendo distinções de posto e somente recordando seus labores meritórios, eles comiam até que eles estivessem cheios, amigavelmente bebiam, conversavam até que eles estivessem todos roucos e se separavam tarde da noite, ensurdecendo o estabelecimento da fábrica todo com seu cantar e o som de seus beijos. De tais jantares Sysoev tinha tomado parte em treze, como ele tinha sido esse número de anos mestre de escola de fábrica.

Agora, se preparando para o décimo-quarto, ele estava tentando se fazer parecer tão festivo e correto quanto possível. Ele tinha gastado uma hora inteira escovando seu novo terno preto, e gastado quase tanto tempo em frente de um espelho, enquanto ele colocava uma camisa elegante; os botões não iriam entrar nos buracos-de-botão, e esta circunstância chamou adiante uma tempestade perfeita de reclamações, ameaças e reprovações a sua esposa.

Sua pobre esposa, se alvoroçando ao redor dele, se exauria com os esforços dela. E de fato ele, também, estava exausto no fim. Quando suas botas polidas foram trazidas a ele da cozinha ele não tinha a força para puxá-las para seus pés. Ele tinha que se deitar e tomar água.

"Quão fraco você se tornou!" suspirava sua esposa. "Você não deveria ir a esse jantar absolutamente."

"Sem conselho, por favor!" o mestre-escola raivosamente a cortou.

Ele estava em um temperamento muito ruim, pois ele tinha estado muito desagradado com as examinações recentes. As examinações tinham se saído esplendidamente; todos os garotos da divisão sênior tinham ganhado certificados e prêmios; ambos os gerentes da fábrica e os oficiais de governo estavam satisfeitos com os resultados; mas isso não era suficiente para o mestre-escola. Ele estava vexado que Babkin, um garoto que nunca cometeu um erro em escrita, tinha feito três erros no ditado; Sergeyev, outro garoto, tinha estado tão excitado que ele não podia lembrar dezessete vezes treze; o inspetor, um homem inexperiente e jovem, tinha escolhido um artigo difícil para ditado, e Lyapunov, o mestre de uma escola vizinha, a quem o inspetor tinha pedido para ditar, não tinha se comportado como um "bom camarada"; mas em ditando tinha, como se fosse, engolido as palavras e não tinha as pronunciado como escritas.

Depois de puxar para seus pés suas botas com a assistência de sua esposa, e olhar a si mesmo uma vez mais no espelho, o mestre-escola pegou seu bastão nodoso e partiu para o jantar. Justo antes da casa do gerente da fábrica, onde a festividade era para tomar lugar, ele teve um pequeno infortúnio. Ele foi tomado com um acesso violento de tosse... Ele foi tão agitado por isso que o chapéu voou fora de sua cabeça e o bastão caiu fora de sua mão; e quando o inspetor da escola e os professores, ouvindo sua tosse, correram fora da casa, ele estava sentado no degrau de baixo, banhado em perspiração.

"Fyodor Lukitch, é você?" disse o inspetor, surpreso. "Você... veio?"

"Por que não?"

"Você deveria estar em casa, meu caro companheiro. Você não está absolutamente bem hoje..."

"Eu estou justamento o mesmo hoje como eu estava ontem. E se minha presença não é agradável a você, eu posso voltar."

"Oh, Fyodor Lukitch, você não deve falar desse jeito! Por favor entre. Por que, a função é realmente em sua honra, não na nossa. E nós estamos deleitados em o ver. De curso nós estamos!..."

Dentro, tudo estava pronto para o banquete. Na sala-de-jantar grande adornada com oleografias alemãs e cheirando a gerânios e verniz havia duas mesas, uma mais grande para o jantar e uma mais pequena para os hors-d'oeuvres (NdT:entradas). A luz quente de meio-dia fracamente permeava através das cortinas abaixadas... o crepúsculo do quarto, a vistas suiças nas cortinas, os gerânios, as fatias finas de salsicha nos pratos, tudo tinha um ar sentimental feminino, ingênuo, e estava tudo em harmonia com o mestre da casa, um alemão pequeno bondoso com um estômago pequeno redondo e olhos pequenos oleosos, afetuosos. Adolf Andreyitch Bruni (esse era o nome dele) estava se alvoroçando em volta da mesa de hors-d'oeuvres tão zelosamente como se ela fosse uma casa pegando fogo, enchendo as taças de vinho, enchendo os pratos, e tentando de todo jeito agradar, divertir, e mostrar seus sentimentos amigáveis. Ele batia com as palmas nas pessoas no ombro, olhava dentro de seus olhos, casquinava, esfregava suas mãos, de fato era tão agradável quanto um cão amigável.

"Quem eu contemplo? Fyodor Lukitch!" ele disse em uma voz convulsiva, em vendo Sysoev. "Quão deleitável! Você veio apesar de sua doença. Gentis-homens, me deixem os congratular, Fyodor Lukitch veio!"

Os professores de escola já estavam se juntando ao redor da mesa e comendo os hors-d'oeuvres. Sysoev franziu as sobrancelhas; ele estava desagradado que seus colegas tinham começado a comer e beber sem esperar por ele. Ele notou entre eles Lyapunov, o homem que tinha ditado na examinação, e indo para ele, começou:

"Não foi agir como um camarada! Não, de fato! Pessoas distinguidas não ditam desse jeito!"

"Bom Deus, você ainda está harpejando sobre isso!" disse Lyapunov, e ele franziu as sobrancelhas. "Você não está cansado disso?"

"Sim, ainda harpejando sobre isso! Meu Babkin nunca cometeu erros! Eu sei por que você ditou desse jeito. Você simplesmente queria que meus pupilos fossem derrubados, de modo que sua escola pudesse parecer melhor do que a minha. Eu sei tudo sobre isso!..."

"Por que você está tentando levantar uma disputa?" Lyapunov falou de modo ríspido. "Por que diabos você me importuna?"

"Venham, gentis-homens," se interpôs o inspetor, fazendo uma face triste. "Vale a pena ficar tão esquentado por uma ninharia? Três erros... nenhum erro... importa?"

"Sim, importa. Babkin nunca cometeu erros."

"Ele não vai deixar para lá," Lyapunov continuou, resfolegando raivosamente. "Ele toma vantagem de sua posição como um inválido e nos importuna todos até a morte. Bem, senhor, eu não vou considerar você estar doente."

"Deixe minha doença em paz!" gritou Sysoev, raivosamente. "O que ela tem a ver com você? Eles todos ficam o repetindo para mim: doença! doença! doença!... Como se eu precisasse de sua simpatia! Além disso, de onde você pegou a noção de que eu esteja doente? Eu estava doente antes das examinações, isso é verdade, mas agora eu completamente me recuperei, não há nada restando disso além de fraqueza."

"Você reganhou sua saúde, bem, graças a Deus," disse o professor de escritura, Padre Nikolay, um clérigo jovem em uma sotaina cor-de-canela vaidosa e calças compridas por fora de suas botas. "Você deveria se regozijar, mas você está irritável e assim por diante."

"Você é um bonito, também," Sysoev o interrompeu. "Perguntas deveriam ser diretas, claras, mas você se mantém perguntando charadas. Essa não é a coisa a fazer!"

Por esforços combinados eles foram bem sucedidos em o suavizar e o fazer sentar à mesa. Ele ficou um tempo longo decidindo o que beber, e puxando uma face torta bebeu uma taça de vinho de algum licor verde; então ele puxou um pouco de torta para ele, e zangadamente pegou fora do interior um ovo com cebola nele. À primeira bocada lhe pareceu que não havia sal nele. Ele polvilhou sal sobre ele e de uma vez empurrou embora como se a torta estivesse muito salgada.

No jantar Sysoev estava sentado entre o inspetor e Bruni. Depois do primeiro curso os brindes começaram, de acordo com o costume estabelecido velho.

"Eu o considero meu dever propício," o inspetor começou, "propor um voto de agradecimento aos diretores de escola ausentes, Daniel Petrovitch e... e... e..."

"E Ivan Petrovitch," Bruni o fez recordar.

"E Ivan Petrovitch Kulikin, que não dão com má vontade nenhum custo para a escola, e eu proponho beber a sua saúde..."

"Por minha parte," disse Bruni, pulando acima como se ele tivesse sido picado, "Eu proponho um brinde à saúde do inspetor honrado de escolas elementares, Pavel Gennadievitch Nadarov!"

Cadeiras foram empurradas para trás, faces irradiaram com sorrisos, e o tinir usual de taças começou.

O terceiro brinde sempre caia para Sysoev. E nessa ocasião, também, ele se levantou e começou a falar. Parecendo grave e limpando sua garganta, ele primeiro de tudo anunciou que ele não tinha o dom de eloquência e que ele não estava preparado para fazer um discurso. Depois ele disse que durante os quatorze anos em que ele tinha sido mestre-escola tinha havido muitas intrigas, muitos ataques desleais, e mesmo relatórios secretos sobre ele para as autoridades, e que ele conhecia seus inimigos e aqueles que tinham informado contra ele, e que ele não iria mencionar seus nomes, "por medo de estragar o apetite de alguém"; que apesar dessas intrigas a escola Kulikin tinha o primeiro lugar na província inteira "não somente de um ponto de vista moral, mas também de um material."

"Em todos outros lugares," ele disse, "mestres-escola ganham duzentos ou trezentos rublos, enquanto eu ganho quinhentos, e além do mais minha casa foi redecorada e mesmo mobiliada ao custo da firma. E esse ano todas as paredes tiveram os papéis substituídos..."

Mais adiante o mestre-escola engrandeceu sobre a liberalidade com que os pupilos eram providos com materiais de escrita nas escolas de fábrica como comparadas com as escolas Zemstvo e de Governo. E por tudo isso a escola estava individada, em sua opinião, não aos chefes da firma, que viviam no exterior e escassamente sabiam de sua existência, mas a um homem que, apesar de sua origem alemã e fé Luterana, era um russo em coração.

Sysoev falou finalmente, com pausas para pegar sua respiração e com pretensões a retórica, e seu discurso foi entediante e desagradável. Ele diversas vezes se referiu a certos inimigos dele, tentou deixar pistas, se repetiu, tossiu, e floreou seus dedos inconvenientemente. Finalmente ele estava exausto e em uma perspiração e ele começou a falar convulsivamente, em uma voz baixa como se para si mesmo, e terminou seu discurso não inteiramente coerentemente: "E então eu proponho a saúde de Bruni, isso é Adolf Andreyitch, que está aqui, entre nós... falando geralmente... vocês entendem..."

Quando ele terminou todos deram um suspiro fraco, como se alguém tivesse polvilhado aguau fria e limpado o ar. Bruni só aparentemente não tinha nenhum sentimento desagradável. Irradiando e rolando seus olhos sentimentais, o alemão apertou a mão de Sysoev com sentimento e estava novamente tão amigável como um cão.

"Oh, eu lhe agradeço," ele disse, com uma ênfase no 'oh', deitando sua mão esquerda em seu coração. "Eu estou muito feliz que você me entenda! Eu, com meu coração inteiro, lhe desejo todas coisas boas. Mas eu deveria somente observar; você exagera minha importância. A escola deve sua condição florescente somente a você, meu amigo honrado, Fyodor Lukitch. Não fosse por você ela não iria ser em nenhum jeito distinguida de outras escolas! Você pensa que o alemão está pagando um cumprimento, o alemão está dizendo alguma coisa educada. Ha-ha! Não, meu caro Fyodor Lukitch, eu sou um homem honesto e nunca faço discursos lisonjeadores. Se nós lhe pagamos quinhentos rublos por ano isso é porque você é valorizado por nós. Não é assim? Gentis-homens, o que eu digo é verdadeiro, não é? Nós não deveríamos pagar a ninguém mais tanto assim... Ora, uma escola boa é uma honra para a fábrica!"

"Eu preciso sinceramente confessar que sua escola é realmente excepcional," disse o inspetor. "Não pense que isso seja bajulação. De qualquer jeito, eu nunca encontrei outra como ela em minha vida. Enquanto eu sentava na examinação eu estava cheio de admiração... Crianças maravilhosas! Elas sabem grande quantidade e respondem brilhantemente, e ao mesmo tempo elas são de algum jeito especiais, não constrangidas, sinceras... Um pode ver que elas o amam, Fyodor Lukitch. Você é um mestre-escola até a essência de seus ossos. Você deve ter nascido um professor. Você tem todos os dons--vocação inata, experiência longa, e amor por seu trabalho... É simplesmente maravilhoso, considerando o estado fraco de sua saúde, que energia, que entendimento... que perseverança, você entende, que confiança você tem! Alguma pessoa no comitê de escola disse verdadeiramente que você era um poeta em seu trabalho... Sim, um poeta você é!"

E todos presentes no jantar começaram como um homem a falar do talento extraordinário de Sysoev. E como se uma represa tivesse sido rompida, se seguiu uma enxurrada de palavras entusiásticas, sinceras tais como homens não pronunciam quando eles estão controlados por sobriedade cautelosa e prudente. O discurso de Sysoev e seu temperamento intolerável e a expressão malvada, hórrida em sua face foram todos esquecidos. Todos falavam livremente, mesmo os professores novos silenciosos e tímidos, jovens oprimidos, acometidos-de-pobreza, que nunca falavam ao inspetor sem se endereçar a ele como "sua honra." Era claro que em seu próprio círculo Sysoev era uma pessoa de consequência.

Tendo estado acostumado a sucesso e louvor pelos quatorze anos em que ele tinha sido mestre-escola, ele ouvia com indiferença ao entusiasmo barulhento de seus admiradores.

Foi Bruni que bebeu no louvor em vez de o mestre-escola. O alemão pegou toda palavra, irradiou, bateu palmas, e modestamente enrubesceu como se o louvor se referisse não ao mestre-escola, mas a ele.

"Bravo! bravo!" ele gritava. "Isso é verdade! Você compreendeu meu significado!... Excelente!..."

Ele olhou para dentro dos olhos do mestre-escola como se ele quisesse partilhar sua felicidade com ele. Por fim ele não podia se conter mais; ele pulou de pé, e, sobrepujando todas as outras vozes com seu tenor pequeno penetrante, gritou:

"Gentis-homens! Me permitam falar! Sh-h! A tudo que vocês dizem eu posso fazer somente uma resposta: o gerenciamento da fábrica não irá se esquecer do que ele deve a Fyodor Lukitch!..."

Todos estavam em silêncio. Sysoev levantou seus olhos para a cara rosada do alemão.

"Nós sabemos como o apreciar," Bruni continuou, baixando sua voz. "Em resposta a suas palavras eu deveria lhe dizer que... a família de Fyodor Lukitch irá ser provida para e que uma soma de dinheiro foi colocada no banco um mês atrás para esse objetivo."

Sysoev olhou de modo inquiridor para o alemão, a seus colegas, como se incapaz de entender por que sua família deveria ser provida para e não ele mesmo. E imediatamente em todas as faces, em todos os olhos imóveis curvados sobre ele, ele leu não a simpatia, não a comiseração que ele não podia suportar, mas alguma coisa outra, alguma coisa suave, tenra, mas ao mesmo tempo intensamente sinistra, como uma verdade terrível, alguma coisa que em um instante o tornou frio por toda parte e encheu sua alma com desespero impronunciável. Com uma face distorcida, pálida ele subitamente pulou acima e agarrou em sua cabeça. Por um quarto de minuto ele ficou desse jeito, olhou fixamente com horror para um ponto fixo diante dele como se ele visse a morte vindo rápidode que Bruni estava falando, então sentou e irrompeu em lágrimas.

"Venha, venha!... O que é?" ele ouviu vozes agitadas dizendo. "Água! beba um pouco de água!"

Um tempo curto passou e o mestre-escola se tornou mais calmo, mas a festa não recuperou sua vivacidade prévia. O jantar terminou em silêncio triste, e muito mais cedo do que em ocasiões prévias.

Quando ele chegou em casa Sysoev primeiro de tudo olhou a si mesmo no espelho.

"De curso não havia nenhuma necessidade para eu desfigurar de pranto a face desse jeito!" ele pensava, olhando a suas bochechas afundadas e seus olhos com anéis negros sob eles. "Minha face é de uma cor muito melhor hoje do que ontem. Eu estou sofrendo de anaemia e catarro do estômago, e minha tosse é somente uma tosse de estômago."

Tranquilizado, ele lentamente começou a se despir, e passou um tempo longo escovando seu terno preto novo, então cuidadosamente o dobrou e o pôs no baú de gavetas.

Então ele foi para a mesa onde jazia uma pilha dos livros-de-exercício de seus pupilos, e pegando o de Babkin, sentou e caiu a contemplar a caligrafia infantil bela...

E entrementes, enquando ele estava examinando os livros de exercício, o doutor de distrito estava sentado na sala próxima e dizendo a sua esposa em um sussurro que um homem não deveria ser permitido de sair para jantar que não tinha em toda probabilidade mais do que uma semana de vida.


Cf. Avery, Houaiss, Dicionário Barsa.
Cf. Dicionário Houaiss da língua portuguesa.
Cf. http://michaelis.uol.com.br/ .
Cf. http://michaelis.uol.com.br/moderno-ingles/ .
Cf. http://www.wordreference.com/enpt/ , Dicionário Inglês-Português (Brasil).

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018


O Álbum
De Anton Chekhov.
Tradução de língua russa para língua inglesa.
De Constance Garnett.
De The Schoolmaster And Other Stories, https://ebooks.adelaide.edu.au/c/chekhov/anton/schoolmaster/chapter20.html ou https://archive.org/details/schoolmasterand00garngoog .
Tradução de língua inglesa para língua portuguesa do Brasil.
De Herculano de Lima Einloft Neto.
Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2018.

Kraterov, o conselheiro titular, tão fino e delgado quanto o pináculo do almirantado, passou a frente e, se endereçando a Zhmyhov, disse:

"Sua Excelência! Movidos e tocados ao fundo de nossos corações pelo jeito com que você nos governou durante anos longos, e por seu cuidado paternal...."

"Durante o curso de mais de dez anos ..." Zakusin fez lembrar.

"Durante o curso de mais de dez anos, nós, seus subordinados, nesse tão memorável para nós...er...dia, pedimos a sua Excelência para aceitar em sinal de nosso respeito e gratidão profunda este álbum com nossos retratos nele, e expressamos nossa esperança de que pela duração de sua vida distinguida, que por anos longos, longos por vir, até o dia de sua morte você possa não nos abandonar..."

"Com seu aconselhamento paternal no caminho de justiça e progresso..." adicionou Zakusin, limpando com um pano de sua testa a perspiração que tinha subitamente aparecido nela; ele estava evidentemente desejando falar, e em toda probabilidade tinha um discurso pronto. "E," ele encerrou, "possa seu padrão voar por anos longos, longos na carreira de gênio, indústria, e consciência social."

Uma lágrima gotejou abaixo da bochecha esquerda enrugada de Zhmyhov.

"Gentis-homens!" ele disse em uma voz trêmula, "Eu não esperava, eu não tinha ideia que vocês iriam celebrar meu jubileu modesto... Eu estou tocado de fato... muito... Eu não irei esquecer este momento até o dia de minha morte, e me creiam... me creiam, amigos, que ninguém é tão desejoso de seu bem-estar como eu sou... e se houve alguma coisa... foi para seu benefício."

Zhmyhov, o conselheiro civil verdadeiro, beijou o conselheiro titular Kraterov, que não tinha esperado uma tal honra, e se tornou pálido com deleite. Então o chefe fez um gesto que significava que ele não poderia falar por emoção, e derramou lágrimas como se um álbum caro não tivesse sido presenteado a ele, mas ao contrário, tomado dele... Então quando ele tinha se recuperado um pouco e dito algumas palavras a mais cheias de sentimento e dado a todos sua mão para apertar, ele foi para o andar de baixo dentre altos e alegres gritos de aplauso, entrou na carruagem dele e se dirigiu embora, seguido pelas bençãos deles. Enquanto ele estava sentado em sua carruagem ele estava consciente de uma enxurrada de sentimentos felizes tais como ele não tinha nunca conhecido antes, e uma vez mais ele derramou lágrimas.

Em casa deleites novos o esperavam. Lá sua família, seus amigos, e conhecidos tinham lhe preparado uma tal ovação que parecia a ele que ele realmente tinha sido de muito grande serviço a seu país, e que se ele não tivesse nunca existido seu país iria talvez ter estado em um muito mau jeito. O jantar de jubileu foi feito de brindes, discursos, e lágrimas. Em curto, Zhmyhov não tinha nunca esperado que seus méritos fossem tão calorosamente apreciados.

"Gentis-homens!" ele disse antes da sobremesa, "duas horas atrás eu fui recompensado por todos os sofrimentos que um homem tem que suportar que é o servente, para assim dizer, não de rotina, nem da letra, mas de dever! Através da duração toda de meu serviço eu tenho constantemente aderido ao princípio; - o público não existe para nós, mas nós para o público, e hoje eu recebi a mais alta recompensa! Meus subordinados me presentearam com um álbum... vejam! Eu fiquei tocado."

Faces festivas se curvaram sobre o álbum e começaram a o examinar.

"É um álbum bonito," disse a filha de Zhmyhov Olya, "ele deve ter custado cinquenta rublos, eu creio. Oh, é encantador! Você deve me dar o álbum, papai, você está ouvindo? Eu irei tomar conta dele, é tão bonito."

Depois do jantar Olya carregou fora o álbum para seu quarto e o fechou em sua gaveta de mesa. O dia seguinte ela tirou os funcionários fora dele, os atirou sobre o chão, e colocou seus amigos de escola no lugar deles. Os uniformes de governo deram lugar para capas femininas brancas. Kolya, o filho pequeno de sua Excelência, pegou os funcionários e pintou suas roupas de vermelho. Aqueles que não tinham bigode ele presenteou com bigodes verdes e adicionou barbas marrons aos sem barba. Quando não havia nada de sobra para pintar ele cortou os homens pequenos fora do papelão, furou seus olhos com um alfinete, e começou a brincar de soldados com eles. Depois de cortar fora o conselheiro titular Kraterov, ele o fixou sobre uma caixa de fósforos e o carregou nesse estado para o escritório de seu pai.

"Papai, um monumento, olhe!"

Zhmyhov irrompeu em riso, guinou para a frente, e, olhando ternamente para a criança, lhe deu um beijo morno na bochecha.

"Lá, seu trapaceiro, vá e mostre a mamãe; deixe mamãe ver também."

Cf. Avery, Houaiss, Dicionário Barsa.
Cf. Dicionário Houaiss da língua portuguesa.
Cf. http://www.wordreference.com/enpt/ , Dicionário Inglês-Português (Brasil).