O Mestre-escola
De Anton Chekhov.
Tradução de língua russa para língua inglesa.
De Constance Garnett.
De The Schoolmaster and other stories, https://archive.org/details/schoolmasterand00garngoog .
Tradução de língua inglesa para língua portuguesa do Brasil.
De Herculano de Lima Einloft Neto.
Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2018.
Fyodor Lukitch Sysoev, o mestre de escola de fábrica mantida à custa da firma de Kulikin, estava se preparando para o jantar anual. Todo ano depois da examinação de escola a junta de gerentes dava um jantar a que o inspetor de escolas elementares, todos que tinham conduzido as examinações, e todos os gerentes e chefes de turma da fábrica estavam presentes. Apesar de seu caráter oficial, esses jantares eram sempre bons e vívidos, e os convidados sentavam um tempo longo neles; esquecendo distinções de posto e somente recordando seus labores meritórios, eles comiam até que eles estivessem cheios, amigavelmente bebiam, conversavam até que eles estivessem todos roucos e se separavam tarde da noite, ensurdecendo o estabelecimento da fábrica todo com seu cantar e o som de seus beijos. De tais jantares Sysoev tinha tomado parte em treze, como ele tinha sido esse número de anos mestre de escola de fábrica.
Agora, se preparando para o décimo-quarto, ele estava tentando se fazer parecer tão festivo e correto quanto possível. Ele tinha gastado uma hora inteira escovando seu novo terno preto, e gastado quase tanto tempo em frente de um espelho, enquanto ele colocava uma camisa elegante; os botões não iriam entrar nos buracos-de-botão, e esta circunstância chamou adiante uma tempestade perfeita de reclamações, ameaças e reprovações a sua esposa.
Sua pobre esposa, se alvoroçando ao redor dele, se exauria com os esforços dela. E de fato ele, também, estava exausto no fim. Quando suas botas polidas foram trazidas a ele da cozinha ele não tinha a força para puxá-las para seus pés. Ele tinha que se deitar e tomar água.
"Quão fraco você se tornou!" suspirava sua esposa. "Você não deveria ir a esse jantar absolutamente."
"Sem conselho, por favor!" o mestre-escola raivosamente a cortou.
Ele estava em um temperamento muito ruim, pois ele tinha estado muito desagradado com as examinações recentes. As examinações tinham se saído esplendidamente; todos os garotos da divisão sênior tinham ganhado certificados e prêmios; ambos os gerentes da fábrica e os oficiais de governo estavam satisfeitos com os resultados; mas isso não era suficiente para o mestre-escola. Ele estava vexado que Babkin, um garoto que nunca cometeu um erro em escrita, tinha feito três erros no ditado; Sergeyev, outro garoto, tinha estado tão excitado que ele não podia lembrar dezessete vezes treze; o inspetor, um homem inexperiente e jovem, tinha escolhido um artigo difícil para ditado, e Lyapunov, o mestre de uma escola vizinha, a quem o inspetor tinha pedido para ditar, não tinha se comportado como um "bom camarada"; mas em ditando tinha, como se fosse, engolido as palavras e não tinha as pronunciado como escritas.
Depois de puxar para seus pés suas botas com a assistência de sua esposa, e olhar a si mesmo uma vez mais no espelho, o mestre-escola pegou seu bastão nodoso e partiu para o jantar. Justo antes da casa do gerente da fábrica, onde a festividade era para tomar lugar, ele teve um pequeno infortúnio. Ele foi tomado com um acesso violento de tosse... Ele foi tão agitado por isso que o chapéu voou fora de sua cabeça e o bastão caiu fora de sua mão; e quando o inspetor da escola e os professores, ouvindo sua tosse, correram fora da casa, ele estava sentado no degrau de baixo, banhado em perspiração.
"Fyodor Lukitch, é você?" disse o inspetor, surpreso. "Você... veio?"
"Por que não?"
"Você deveria estar em casa, meu caro companheiro. Você não está absolutamente bem hoje..."
"Eu estou justamento o mesmo hoje como eu estava ontem. E se minha presença não é agradável a você, eu posso voltar."
"Oh, Fyodor Lukitch, você não deve falar desse jeito! Por favor entre. Por que, a função é realmente em sua honra, não na nossa. E nós estamos deleitados em o ver. De curso nós estamos!..."
Dentro, tudo estava pronto para o banquete. Na sala-de-jantar grande adornada com oleografias alemãs e cheirando a gerânios e verniz havia duas mesas, uma mais grande para o jantar e uma mais pequena para os hors-d'oeuvres (NdT:entradas). A luz quente de meio-dia fracamente permeava através das cortinas abaixadas... o crepúsculo do quarto, a vistas suiças nas cortinas, os gerânios, as fatias finas de salsicha nos pratos, tudo tinha um ar sentimental feminino, ingênuo, e estava tudo em harmonia com o mestre da casa, um alemão pequeno bondoso com um estômago pequeno redondo e olhos pequenos oleosos, afetuosos. Adolf Andreyitch Bruni (esse era o nome dele) estava se alvoroçando em volta da mesa de hors-d'oeuvres tão zelosamente como se ela fosse uma casa pegando fogo, enchendo as taças de vinho, enchendo os pratos, e tentando de todo jeito agradar, divertir, e mostrar seus sentimentos amigáveis. Ele batia com as palmas nas pessoas no ombro, olhava dentro de seus olhos, casquinava, esfregava suas mãos, de fato era tão agradável quanto um cão amigável.
"Quem eu contemplo? Fyodor Lukitch!" ele disse em uma voz convulsiva, em vendo Sysoev. "Quão deleitável! Você veio apesar de sua doença. Gentis-homens, me deixem os congratular, Fyodor Lukitch veio!"
Os professores de escola já estavam se juntando ao redor da mesa e comendo os hors-d'oeuvres. Sysoev franziu as sobrancelhas; ele estava desagradado que seus colegas tinham começado a comer e beber sem esperar por ele. Ele notou entre eles Lyapunov, o homem que tinha ditado na examinação, e indo para ele, começou:
"Não foi agir como um camarada! Não, de fato! Pessoas distinguidas não ditam desse jeito!"
"Bom Deus, você ainda está harpejando sobre isso!" disse Lyapunov, e ele franziu as sobrancelhas. "Você não está cansado disso?"
"Sim, ainda harpejando sobre isso! Meu Babkin nunca cometeu erros! Eu sei por que você ditou desse jeito. Você simplesmente queria que meus pupilos fossem derrubados, de modo que sua escola pudesse parecer melhor do que a minha. Eu sei tudo sobre isso!..."
"Por que você está tentando levantar uma disputa?" Lyapunov falou de modo ríspido. "Por que diabos você me importuna?"
"Venham, gentis-homens," se interpôs o inspetor, fazendo uma face triste. "Vale a pena ficar tão esquentado por uma ninharia? Três erros... nenhum erro... importa?"
"Sim, importa. Babkin nunca cometeu erros."
"Ele não vai deixar para lá," Lyapunov continuou, resfolegando raivosamente. "Ele toma vantagem de sua posição como um inválido e nos importuna todos até a morte. Bem, senhor, eu não vou considerar você estar doente."
"Deixe minha doença em paz!" gritou Sysoev, raivosamente. "O que ela tem a ver com você? Eles todos ficam o repetindo para mim: doença! doença! doença!... Como se eu precisasse de sua simpatia! Além disso, de onde você pegou a noção de que eu esteja doente? Eu estava doente antes das examinações, isso é verdade, mas agora eu completamente me recuperei, não há nada restando disso além de fraqueza."
"Você reganhou sua saúde, bem, graças a Deus," disse o professor de escritura, Padre Nikolay, um clérigo jovem em uma sotaina cor-de-canela vaidosa e calças compridas por fora de suas botas. "Você deveria se regozijar, mas você está irritável e assim por diante."
"Você é um bonito, também," Sysoev o interrompeu. "Perguntas deveriam ser diretas, claras, mas você se mantém perguntando charadas. Essa não é a coisa a fazer!"
Por esforços combinados eles foram bem sucedidos em o suavizar e o fazer sentar à mesa. Ele ficou um tempo longo decidindo o que beber, e puxando uma face torta bebeu uma taça de vinho de algum licor verde; então ele puxou um pouco de torta para ele, e zangadamente pegou fora do interior um ovo com cebola nele. À primeira bocada lhe pareceu que não havia sal nele. Ele polvilhou sal sobre ele e de uma vez empurrou embora como se a torta estivesse muito salgada.
No jantar Sysoev estava sentado entre o inspetor e Bruni. Depois do primeiro curso os brindes começaram, de acordo com o costume estabelecido velho.
"Eu o considero meu dever propício," o inspetor começou, "propor um voto de agradecimento aos diretores de escola ausentes, Daniel Petrovitch e... e... e..."
"E Ivan Petrovitch," Bruni o fez recordar.
"E Ivan Petrovitch Kulikin, que não dão com má vontade nenhum custo para a escola, e eu proponho beber a sua saúde..."
"Por minha parte," disse Bruni, pulando acima como se ele tivesse sido picado, "Eu proponho um brinde à saúde do inspetor honrado de escolas elementares, Pavel Gennadievitch Nadarov!"
Cadeiras foram empurradas para trás, faces irradiaram com sorrisos, e o tinir usual de taças começou.
O terceiro brinde sempre caia para Sysoev. E nessa ocasião, também, ele se levantou e começou a falar. Parecendo grave e limpando sua garganta, ele primeiro de tudo anunciou que ele não tinha o dom de eloquência e que ele não estava preparado para fazer um discurso. Depois ele disse que durante os quatorze anos em que ele tinha sido mestre-escola tinha havido muitas intrigas, muitos ataques desleais, e mesmo relatórios secretos sobre ele para as autoridades, e que ele conhecia seus inimigos e aqueles que tinham informado contra ele, e que ele não iria mencionar seus nomes, "por medo de estragar o apetite de alguém"; que apesar dessas intrigas a escola Kulikin tinha o primeiro lugar na província inteira "não somente de um ponto de vista moral, mas também de um material."
"Em todos outros lugares," ele disse, "mestres-escola ganham duzentos ou trezentos rublos, enquanto eu ganho quinhentos, e além do mais minha casa foi redecorada e mesmo mobiliada ao custo da firma. E esse ano todas as paredes tiveram os papéis substituídos..."
Mais adiante o mestre-escola engrandeceu sobre a liberalidade com que os pupilos eram providos com materiais de escrita nas escolas de fábrica como comparadas com as escolas Zemstvo e de Governo. E por tudo isso a escola estava individada, em sua opinião, não aos chefes da firma, que viviam no exterior e escassamente sabiam de sua existência, mas a um homem que, apesar de sua origem alemã e fé Luterana, era um russo em coração.
Sysoev falou finalmente, com pausas para pegar sua respiração e com pretensões a retórica, e seu discurso foi entediante e desagradável. Ele diversas vezes se referiu a certos inimigos dele, tentou deixar pistas, se repetiu, tossiu, e floreou seus dedos inconvenientemente. Finalmente ele estava exausto e em uma perspiração e ele começou a falar convulsivamente, em uma voz baixa como se para si mesmo, e terminou seu discurso não inteiramente coerentemente: "E então eu proponho a saúde de Bruni, isso é Adolf Andreyitch, que está aqui, entre nós... falando geralmente... vocês entendem..."
Quando ele terminou todos deram um suspiro fraco, como se alguém tivesse polvilhado aguau fria e limpado o ar. Bruni só aparentemente não tinha nenhum sentimento desagradável. Irradiando e rolando seus olhos sentimentais, o alemão apertou a mão de Sysoev com sentimento e estava novamente tão amigável como um cão.
"Oh, eu lhe agradeço," ele disse, com uma ênfase no 'oh', deitando sua mão esquerda em seu coração. "Eu estou muito feliz que você me entenda! Eu, com meu coração inteiro, lhe desejo todas coisas boas. Mas eu deveria somente observar; você exagera minha importância. A escola deve sua condição florescente somente a você, meu amigo honrado, Fyodor Lukitch. Não fosse por você ela não iria ser em nenhum jeito distinguida de outras escolas! Você pensa que o alemão está pagando um cumprimento, o alemão está dizendo alguma coisa educada. Ha-ha! Não, meu caro Fyodor Lukitch, eu sou um homem honesto e nunca faço discursos lisonjeadores. Se nós lhe pagamos quinhentos rublos por ano isso é porque você é valorizado por nós. Não é assim? Gentis-homens, o que eu digo é verdadeiro, não é? Nós não deveríamos pagar a ninguém mais tanto assim... Ora, uma escola boa é uma honra para a fábrica!"
"Eu preciso sinceramente confessar que sua escola é realmente excepcional," disse o inspetor. "Não pense que isso seja bajulação. De qualquer jeito, eu nunca encontrei outra como ela em minha vida. Enquanto eu sentava na examinação eu estava cheio de admiração... Crianças maravilhosas! Elas sabem grande quantidade e respondem brilhantemente, e ao mesmo tempo elas são de algum jeito especiais, não constrangidas, sinceras... Um pode ver que elas o amam, Fyodor Lukitch. Você é um mestre-escola até a essência de seus ossos. Você deve ter nascido um professor. Você tem todos os dons--vocação inata, experiência longa, e amor por seu trabalho... É simplesmente maravilhoso, considerando o estado fraco de sua saúde, que energia, que entendimento... que perseverança, você entende, que confiança você tem! Alguma pessoa no comitê de escola disse verdadeiramente que você era um poeta em seu trabalho... Sim, um poeta você é!"
E todos presentes no jantar começaram como um homem a falar do talento extraordinário de Sysoev. E como se uma represa tivesse sido rompida, se seguiu uma enxurrada de palavras entusiásticas, sinceras tais como homens não pronunciam quando eles estão controlados por sobriedade cautelosa e prudente. O discurso de Sysoev e seu temperamento intolerável e a expressão malvada, hórrida em sua face foram todos esquecidos. Todos falavam livremente, mesmo os professores novos silenciosos e tímidos, jovens oprimidos, acometidos-de-pobreza, que nunca falavam ao inspetor sem se endereçar a ele como "sua honra." Era claro que em seu próprio círculo Sysoev era uma pessoa de consequência.
Tendo estado acostumado a sucesso e louvor pelos quatorze anos em que ele tinha sido mestre-escola, ele ouvia com indiferença ao entusiasmo barulhento de seus admiradores.
Foi Bruni que bebeu no louvor em vez de o mestre-escola. O alemão pegou toda palavra, irradiou, bateu palmas, e modestamente enrubesceu como se o louvor se referisse não ao mestre-escola, mas a ele.
"Bravo! bravo!" ele gritava. "Isso é verdade! Você compreendeu meu significado!... Excelente!..."
Ele olhou para dentro dos olhos do mestre-escola como se ele quisesse partilhar sua felicidade com ele. Por fim ele não podia se conter mais; ele pulou de pé, e, sobrepujando todas as outras vozes com seu tenor pequeno penetrante, gritou:
"Gentis-homens! Me permitam falar! Sh-h! A tudo que vocês dizem eu posso fazer somente uma resposta: o gerenciamento da fábrica não irá se esquecer do que ele deve a Fyodor Lukitch!..."
Todos estavam em silêncio. Sysoev levantou seus olhos para a cara rosada do alemão.
"Nós sabemos como o apreciar," Bruni continuou, baixando sua voz. "Em resposta a suas palavras eu deveria lhe dizer que... a família de Fyodor Lukitch irá ser provida para e que uma soma de dinheiro foi colocada no banco um mês atrás para esse objetivo."
Sysoev olhou de modo inquiridor para o alemão, a seus colegas, como se incapaz de entender por que sua família deveria ser provida para e não ele mesmo. E imediatamente em todas as faces, em todos os olhos imóveis curvados sobre ele, ele leu não a simpatia, não a comiseração que ele não podia suportar, mas alguma coisa outra, alguma coisa suave, tenra, mas ao mesmo tempo intensamente sinistra, como uma verdade terrível, alguma coisa que em um instante o tornou frio por toda parte e encheu sua alma com desespero impronunciável. Com uma face distorcida, pálida ele subitamente pulou acima e agarrou em sua cabeça. Por um quarto de minuto ele ficou desse jeito, olhou fixamente com horror para um ponto fixo diante dele como se ele visse a morte vindo rápidode que Bruni estava falando, então sentou e irrompeu em lágrimas.
"Venha, venha!... O que é?" ele ouviu vozes agitadas dizendo. "Água! beba um pouco de água!"
Um tempo curto passou e o mestre-escola se tornou mais calmo, mas a festa não recuperou sua vivacidade prévia. O jantar terminou em silêncio triste, e muito mais cedo do que em ocasiões prévias.
Quando ele chegou em casa Sysoev primeiro de tudo olhou a si mesmo no espelho.
"De curso não havia nenhuma necessidade para eu desfigurar de pranto a face desse jeito!" ele pensava, olhando a suas bochechas afundadas e seus olhos com anéis negros sob eles. "Minha face é de uma cor muito melhor hoje do que ontem. Eu estou sofrendo de anaemia e catarro do estômago, e minha tosse é somente uma tosse de estômago."
Tranquilizado, ele lentamente começou a se despir, e passou um tempo longo escovando seu terno preto novo, então cuidadosamente o dobrou e o pôs no baú de gavetas.
Então ele foi para a mesa onde jazia uma pilha dos livros-de-exercício de seus pupilos, e pegando o de Babkin, sentou e caiu a contemplar a caligrafia infantil bela...
E entrementes, enquando ele estava examinando os livros de exercício, o doutor de distrito estava sentado na sala próxima e dizendo a sua esposa em um sussurro que um homem não deveria ser permitido de sair para jantar que não tinha em toda probabilidade mais do que uma semana de vida.
Cf. Avery, Houaiss, Dicionário Barsa.
Cf. Dicionário Houaiss da língua portuguesa.
Cf. http://michaelis.uol.com.br/ .
Cf. http://michaelis.uol.com.br/moderno-ingles/ .
Cf. http://www.wordreference.com/enpt/ , Dicionário Inglês-Português (Brasil).
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