quinta-feira, 17 de maio de 2018

João Pedroso Sousa
De Herculano de Lima Einloft Neto.
Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2018.

Chegavam enfim a uma clareira. Tinham adentrado o mato tijucano pelo bairro de Botafogo, e já caminhavam havia duas horas ao meio-sol da tarde carioca. É aqui, disse João Pedroso Sousa. Passou a se lembrar da trajetória que os levara até ali nas últimas semanas.

João Pedroso Sousa tinha acompanhado acontecimentos de mau agouro naquele bairro no mês anterior. Alguns cães das casas vizinhas ao mato e ao morro Dona Marta tinham fugido dos donos inesperadamente, conseguindo saltar muros através de tramas que cães não costumam conseguir, e a coincidência dos eventos suscitava uma sensação desagradável nos moradores. Quando um dos cães que tinham se mantido na casa do Sr. Oliveira fugiu e retornou trazendo pelas pernas a carcaça morta de seu ex-companheiro de residência, a vizinhança percebeu que algo esquisito realmente estava ocorrendo. O cão defunto trazia marcas de chicotadas e se configurava em morte matada, estando sujo de modo a fazer crer que estivera dentro da floresta do parque. Houve um inicio de intenção de fazer uma busca pelos cerca de dez outros cães pela mata do Parque da Tijuca, mas as embrenhadas pelo matagal traziam já o risco da violência humana, então se ficou esperando alguma outra notícia.

Sousa vivia para suas atividades intelectuais, fazendo coisas diversas para seguir com a vida. Tinha um interesse na literatura e no folclore nacional e sabia que alguns relatos dos nativo-americanos eram vívidos demais e carregados de terror, desde as descrições quinhentistas. A polícia foi acionada mas não poderia fazer buscas no mato atrás de crimes contra animais que afinal haviam fugido espontaneamente, pelo relato dos vizinhos e testemunhas. Sendo amigo dos Oliveira, Sousa tomou um interesse no caso e passou a interrogar alguns moradores do entorno do mato em Botafogo. Se surpreendeu ao perceber que havia memória de tais ocorrências entre habitantes mais antigos, pois que havia segundo a fala popular pessoas que viviam na floresta clandestinamente por alguns meses, para fins ocultos. Certos cultos de entidades nativas continuavam vivos e em parte segregados mesmo dos cultos mais conhecidos do candomblé e da umbanda. E eram esses mesmos que costumavam ser praticados na floresta, com consequências por vezes funestas para cidadãos urbanos.

"São pessoas da cidade que querem mexer com as entidades nativas", disse D. Mariangela, da Rua Bambina, que costumava visitar o entorno do Palácio Guanabara. "Fazem por razões diversas, para combater inimigos e o que valha". Sousa se mantinha frio, mas não via razão para descrer dos relatos do povo, ainda quando ocorrências estranhas poderiam mais tarde lhes dar crédito.

A família Pedroso Sousa

Toda essa conversa era familiar para João Pedroso Sousa. Fazia uns cinco anos que ele se dedicava a estudar sua genealogia materna, e tinha dessa maneira obtido informações ligadas ao sobrenatural nativo-americano em sua própria família. Sua mãe Amélia dos Santos Pedroso descendia de um português do Porto, João Pedroso Santos, que tinha obtido sesmaria no interior do estado de São Paulo, nas proximidades de Itu, na década de 1740. No Arquivo Público do Estado de São Paulo, Sousa encontrara alguns processos judiciais de resolução indefinida entre este João Pedroso Santos, seu sexto-avô e seus proprietários vizinhos. Um  manuscrito anexado posteriormente a um desses processos trazia cópia de um trabalho genealógico realizado por seu bisavô, Juliano dos Santos Pedroso Filho, que ele sabia por comunicação em interrede alguns primos terem cópia, e pela qual estava procurando. O texto genealógico relatava, entre outras informações, como Juliano Pedroso Santos, seu trisavô, n. 1841, tinha se dedicado ao estudo da língua latina pelas duas cópias que a família obtivera do Compendio de  Grammatica Latina e Portugueza de José Vicente Gomes de Moura, tendo posteriormente estudado obras de conteúdo oculto europeias, notadamente De Occulta Philosophia de Cornelio Agrippa pela cópia disponível na Biblioteca Nacional do RJ. Era tido em sua família como feiticeiro, embora não tenha entrado jamais em conflito com a sociedade por conta disso. Entretanto a tradição conta que conseguira sucesso incomum no trato com os nativo-americanos dos matagais vizinhos a sua propriedade, sem ter problemas com animais predadores ou com ataques dos índios, o que lhe rendera considerável sucesso nos negócios e uma boa fortuna, dividida entre seus oito filhos. Ademais o relacionamento comercial de Juliano Pedroso Santos com os nativo-americanos era excelente e lhe traziam peixes e frutas para revenda nas épocas de fartura, e por vezes lhe vendiam caças como capivaras que rendiam banquetes em sua propriedade. Tudo isso ficava mais complexo pelo fato de que o quinto-avô Santos Pedroso de João Pedroso Sousa, Miguel dos Santos Pedroso, tinha contraído matrimônio com a filha de um pajé dos índios Aymorés, pelo que "a ancestralidade de caráter", como dizia o texto, já lhe vinha por essa quinta-avó, batizada em São Paulo como Marta Josefa. O texto configurava, sem dizer explicitamente, uma prática de feitiçaria de origem nativa em sua própria família. Não tendo havido entretanto queixas da sociedade, a Igreja Católica não incomodara, ainda porque a família residia em área remota e era assim uma pioneira na exploração do país, o que sempre era de interesse social.

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