terça-feira, 17 de fevereiro de 2015


Mãe Tapuia.
Medeiros e Albuquerque.
De Mãe Tapuia, http://www.brasiliana.usp.br/bbd/handle/1918/00171100#page/1/mode/1up .
'A Marcio Nery'.
Transcrição de Herculano de Lima Einloft Neto.

Iamos subindo o rio. Passavamos nesse momento uma garganta estreitissima, quando um tronco de arvore nos fechou o caminho. A corrente era naquelle logar pouco profunda; via-se a areia do leito a tão pequena distancia da superficie, que dalli até ás nascentes era facil ir a váo. O tronco, era impossivel arredal-o. Mettemo-nos resolutamente na agua, tomámos em mãos a pequenissima canôa de fundo chato, carregámo-la por terra até além do empecilho e continuámos a subir.

As margens eram de matta densa e virgem. Distinguiam-se apenas os dous renques de arvores e mal entre elles divisavam-se outras e outras indefinidamente. Raizes nodosas e informes serpenteavam dentro do rio, cheias de curvas e cotovellos, assustando ás vezes quando a trepidação da agua parecia fazel-as mover-se como enormes cobras. As ramarias de um e outro lado encontravam-se formando sobre nós um docel de folhagem, que o sol rasgava a custo aqui e alli, abrindo na agua clara poças douradas.

Parasitas vermelhas e azues pendiam desatadas em festões; cipós, de caule em caule, teciam rêdes intrincadas; longas 'barbas de velho' escorriam dos galhos altos, dando-lhes um ar triste de melancolia e vetustez. Vinha de todos os pontos ao mesmo tempo um chilrear confuso de passaros : e, si uns, de quando em quando, cortavam o espaço deante de nós, outros, abrindo vôo atravez dos ramos mais elevados, rasgavam a cupola e perdiam-se no ceu azul, adivinhado apenas dalli onde nós estavamos. Borboletas iam e vinham, subiam e desciam, na azafama multicor das azas leves, agitando-se e pousando em perpetuo afan. E passaros ou borboletas, ao passarem sobre o rio, desdobravam-se pelo reflexo, voando dentro da agua, nadando no ar sereno...

Chegámos emfim. Meus dous companheiros, Pedro e Thiago, eram dous caboclos amazonenses de sangue cruzado, dous curibocas escuros, quasi bronzeados, filhos de paes portuguezes e mães indias. Eram tão graves e serios, que nem mesmo sabiam rir, fechados como viviam em um mutismo indolente e inerte, indifferentes a tudo...

Atámos a canôa -- a 'montaria', como lá lhe chamam no Amazonas -- e trilhámos emfim terra firme : um atalho da floresta. Tinhamos ainda uma boa legua para andar e mettemo-nos a caminho decididamente : o Pedro na frente, eu no centro e o Thiago fechando a marcha. Não se dizia palavra. Ouvia-se sómente o pisar de folhas seccas e, do caboclo que ia adeante, o quebrar dos galhos, que por acaso bracejavam para a estrada, estorvando-a.

Tinhamos andado cerca de meia hora, quando o Pedro, voltando-se, apontou á esquerda e disse ao irmão :

-- 'Parésque' é alli a tapéra da 'véia'...

E seguiu, emquanto o outro se virava com interesse. Olhei tambem. Vi um casebre miseravel, feito de troncos de arvores e coberto de sapê. Grandes ramos sobre o tecto impediam que a herva secca fosse levada pelo vento. Do abandono e ruina em que jazia, davam evidentes provas a porta desmantelada, quasi a cahir, e a herva, em torno, crescendo alta e abundante, invadindo tudo, sem uma trilha qualquer calcada de pés humanos.

Mas o que havia de notavel era na frente uma cruz enorme feita de dous immensos galhos, atados um ao outro com embiras fortissimas. O ramo vertical estava fundamente enterrado no chão, e em volta do sopé, para garantir melhor a estabilidade, pedras pesadas erguiam-se em monticulo.

Iamos depressa; passámos rapidamente. Ficou-me, porém, a curiosidade e indaguei do Thiago de quem fôra aquella maloca, hoje abandonada. O curiboca contou singelamente.

Morava alli uma tapuia velha com dous netinhos. Morrera-lhe a filha, deixando apenas á sua solicitude aquellas duas crianças: uma dellas -- um pequerrucho -- com alguns mezes sómente e a outra, uma menina, com 10 annos. A velha, que mal podia comsigo, acolheu-os, entretanto; e mezes correram de perfeita paz. Uma noite, porém, a tapuia, picada de jararáca, entrou em casa arrastando-se. Matára a cobra, mas fôra mordida em uma das pernas, que lhe doia horrivelmente.

Mandou depressa a menina ao sitio do coronel Carvalho -- sitio vizinho, para onde nós iamos -- buscar remedio contra a mordedura. O remedio era uma 'pussanga' infallivel que ella mesmo preparára e de que, todavia, não tinha em casa nesse momento. Mas a pequena -- era já quasi noite -- perdeu-se no caminho e só no outro dia chegou ao seu destino, guiada por um 'regatão' que a encontrou. Quando, pois, ella veiu, acompanhada de mais gente, já era tarde.

Encontrou a velha espichada no chão, meio núa, inchada, com o rosto contorcido de dôr, as orbitas reviradas e sangrentas, por entre os dentes brancos uma espuma vermelha e negra... As mãos crispadas enterravam-se no chão; os pés estavam torcidos em uma contractura horrorosa... Os seios magros, flacidos, pelhanquentos, appareciam hediondos e descobertos... O pequenino, pelo habito de illudir o appetite mamando aquellas têtas estereis de velha, tinha ainda uma dellas entre os labios.

Farto de chupal-a, querendo talvez acordar a mãe-tapuia, cravára os dentinhos; o sangue máu e envenenado contaminára-o. Estava morto tambem, tambem inchado...

O curiboca contou tudo isso em meia duzia de palavras rudes e simples. Voltámos ao silencio. Ouvia-se sómente o pisar de folhas seccas, e do caboclo que ia adeante o quebrar dos galhos que por acaso bracejavam para a estrada, estorvando-a...