segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015


Os caçadores de ratazanas.
De Horacio Quiroga.
De El Salvaje, http://www.medellindigital.gov.co/Mediateca/repositorio%20de%20recursos/Quiroga,%20Horacio/Quiroga_Horacio-El%20Salvaje.pdf, ou El Salvaje, Alianza Losada.
Tradução de língua espanhola para língua portuguesa do Brasil.
De Herculano de Lima Einloft Neto.
Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2015.

Uma sesta de inverno, as víboras de cascavel, que dormiam estendidas sobre a greda[1], se enrolaram bruscamente ao ouvir insólito ruído. Como a visão não é sua agudeza particular, as víboras se mantiveram imóveis, enquanto prestavam ouvido.

- É o ruído que faziam aqueles... - murmurou a fêmea.

- Sim, são vozes de homem; são homens - afirmou o macho.

E passando uma por cima da outra se retiraram vinte metros. Desde ali miraram. Um homem alto e loiro e uma mulher loira e corpulenta haviam se acercado e falavam observando os arredores. Logo, o homem mediu o solo a grandes passos, em tanto que a mulher cravava estacas nos extremos de cada reta. Conversaram depois, assinalando-se mutuamente lugares distintos, e por fim se afastaram.

- Vão a viver aqui - disseram as víboras - Teremos que ir-nos. Em efeito, ao dia seguinte chegaram os colonos com um filho de três anos e uma carreta em que havia catres, caixotes, ferramentas soltas e galinhas atadas à grade. Instalaram a barraca, e durante semanas trabalharam todo o dia. A mulher interrompia-se para cozinhar, e o filho, um ursinho branco, gordo e loiro, ensaiava de um lado a outro sua marcha de pato infantil.

Tal foi o esforço da gente aquela, que ao cabo de um mês tinham poço, galinheiro e rancho prontos ainda que a este faltavam ainda as portas. Depois, o homem ausentou-se por todo um dia, voltando ao seguinte com oito bois, e a chácara começou.

As víboras, entretanto, não se decidiram a ir-se de sua paragem natal. Costumavam chegar até a linda do pasto carpido, e desde ali miravam a tarefa do matrimônio. Um entardecer em que a família inteira havia ido aa chácara, as víboras, animadas pelo silêncio, se aventuraram a cruzar o perigoso páramo e entraram no rancho. Recorreram-no, com curiosidade cautelosa, esfregando sua pele áspera contra as paredes.

Mas ali havia ratazanas; e desde então tomaram carinho aa casa. Chegavam todas as tardes até o limite do pátio e esperavam atentas a que aquela ficasse só. Raras vezes tinham essa dita. E a mais, deviam se precaver das galinhas com frangos, cujos gritos, se as vissem, delatariam sua presença.

De este modo, um crepúsculo em que a larga espera havia-as distraído, foram descobertas por uma galinheta[2], que depois de manter um momento o bico estendido, fugiu a toda ala aberta, gritando. Suas companheiras compreenderam o perigo sem ver, e a imitaram.

O homem, que voltava do poço com um balde, se deteve ao ouvir os gritos. Mirou um momento, e deixando o balde no solo se encaminhou à paragem suspeitoso. Ao sentir sua aproximação, as víboras quiseram fugir, mas unicamente uma teve o tempo necessário, e o colono achou só ao macho. O homem jogou uma rápida olhada ao redor buscando uma arma e chamou, os olhos fixos no grande rolo escuro:

- Hilda! Alcança-me a enxada, ligeiro! É uma serpente de cascavel! A mulher correu e entregou ansiosa a ferramenta a seu marido. Atiraram logo longe, mais além do galinheiro, o corpo morto, e a fêmea o achou por casualidade ao outro dia. Cruzou e recruzou cem vezes por cima dele, e se afastou ao fim, vindo a instalar-se como sempre na linda do pasto, esperando pacientemente que a casa ficasse só.

A sesta calcinava a paisagem em silêncio; a víbora havia cerrado os olhos amodorrada, quando de pronto se fechou vivamente: acabava de ser descoberta de novo pelas galinhetas, que ficaram essa vez girando em torno seu, gritando todas a contratempo. A víbora manteve-se quieta, prestando ouvido. Sentiu ao momento ruído de passos -a Morte- Creu não ter tempo de fugir, e se aprestou com toda sua energia vital a defender-se.

Na casa dormiam todos, menos o garoto. Ao ouvir os gritos das galinhetas, apareceu na porta, e o sol queimante o fez cerrar os olhos. Titubeou um instante, preguiçoso, e ao fim se dirigiu com sua marcha de pato a ver a suas amigas as galinhetas. Na metade do caminho se deteve, indeciso de novo, evitando o sol com o braço. Mas as galinhetas continuavam em alarme girante, e o ursinho loiro avançou.

De pronto lançou um grito e caiu sentado. A víbora, presta de novo a defender sua vida, deslizou-se dois metros e bateu em retirada. Viu aa mãe em combinação e os braços desnudos assomar-se inquieta; a viu correr para seu filho, levantá-lo e gritar aterrada.

- Otto, Otto! O há picado uma víbora!

Viu chegar ao homem, pálido, e o viu levar em seus braços aa criatura atontada. Olhou a carreira da mulher ao poço, suas vozes. E ao momento, depois de uma pausa, seu alarido desgarrador:

- Filho meu!...

Notas de Tradução:
[1] greda, tipo de argila, barro ou calcário; greda branca, cré, etc..
[2] gallineta, galinha de Guiné, galinha d'angola, galinheta, etc..

Cf. Dicionário Collins Gem, Espanhol-Português, Português-Espanhol, Disal.
Cf. http://michaelis.uol.com.br/escolar/espanhol/ .
Cf. http://www.wordreference.com/ .
Cf. http://www.rae.es/recursos/diccionarios/drae .
Cf. http://www.priberam.pt/dlpo/Default.aspx , norma brasileira.
Cf. www.google.com.br .