sábado, 28 de janeiro de 2017


As Tribos Índias de Guiana - Mitologia e Contos lendários, Trecho
De W. H. Brett.
De The Indian Tribes of Guiana - Mythology and Legendary Tales , p. 377, https://archive.org/details/indiantribesofgu00bret .
Tradução de língua inglesa para língua portuguesa do Brasil.
De Herculano de Lima Einloft Neto.
Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2017.

(...)

Os Índios que têm estado muito em contato com civilização estão rapidamente esquecendo as tradições antigas de sua raça. Mas esses contos ainda florescem no interior distante, e a região de pântano melancólica se estendendo para o Orinoco. Nas vilas dessas selvas distantes, como ainda não visitadas por homem civilizado, essas lendas, preservadas através de muitas gerações, são ainda repetidas pelos anciãos, se reclinando em suas redes sobre as fogueiras de noite, para suas crianças ;---que, não tendo nenhum outro conhecimento, implicitamente acreditam nelas e cuidadosamente as preservam e as transmitem.

De um assim instruído em infância pelos antigos de sua tribo, eu obtive a lenda seguinte. Ela irá, eu penso, dar uma ideia toleravelmente correta dessas "histórias de pessoas velhas", como a raça que surge algo desdenhosamente as chama. Ela é uma fábula em que, como naquelas de Esopo, animais figuram grandemente ; e algumas partes são muito absurdas, como era de ser esperado nos contos fantasiosos com que aquelas crianças de crescimento maior divertem suas horas de lazer. O Acawoio que a repetiu, enquanto se esforçando para manter um aspecto muito grave, como era adequado para a natureza geral do tema, evidentemente gostou de algumas partes do recital.

"No começo deste mundo os pássaros e bestas foram criados por Makonaima,---o grande espírito a quem nenhum homem há visto. Eles, àquele tempo, estavam todos dotados com a dádiva da fala. Sigu, o filho de Makonaima, foi colocado para governar sobre eles. Todos viviam em harmonia juntos e se submetiam a seu domínio gentil. Eles eram enviados diariamente para se alimentarem nas florestas a redor, e em sua volta cada um trazia uma porção da melhor comida que pudesse encontrar como um ato de homenagem respeitosa a seu protetor e senhor.

"As produções selvagens da floresta eram então a única comida de homem e besta. Cultivação era desconhecida. Mas Makonaima, para surpreender suas criaturas com sua generosidade, estava fazendo surgir da terra uma árvore enorme e maravilhosa. Cada ramo dessa  árvore grande produzia um tipo diferente de fruta: enquanto de e em volta de seu tronco cresciam bananas, bananas-da-terra, e cassava[1]; com milho, e trigo[2] de todos tipos. Inhames e outros comestíveis também cresciam de e encadeados em volta das raízes desta árvore famosa, que (embora homens brancos não a conheçam) é o estoque original desde onde surgiram 'todas' as plantas agora cultivadas entre as nações da terra.

"O acouri[3], trotando inquisitivamente ao redor com suas pernas esguias, ágeis, e olhos pretos-brilhantes, primeiro descobriu esta árvore grande. Diariamente ele vinha para o local, e egoistamente comia sua fartadela, sem fazê-lo conhecido para o benefício público. Sua condição excelente, contudo, e alguns restos de fruta deliciosa aderindo a seus lábios, causaram a verdade de ser suspeitada apesar de suas negações.

"Sigu de acordo comissionou o pica-pau para o manter em vista. O pica-pau, um pássaro bem-intencionado e honesto, o fez perseverantemente, porém falhou em o detectar. Por ter uma grande afeição por formigas-de-madeiras e outros insetos, ele não pôde resistir a tentação de examinar todo ramo seco no caminho. O cauteloso acouri, ouvindo um tap-tap contínuo sobre sua cabeça onde quer que ele fosse, não iria visitar a árvore aquele dia.

"O rato foi então enviado adiante, que se provou um detetive excelente. Ele trouxe para casa espécimens da fruta melhor, condenou o acouri, na presença de Sigu e a comunidade toda, de egoismo e falsidade, e os conduziu para aquele chão-de-alimentação escolhido.

"Todos ficaram satisfeitos, e desejosos de desfrute contínuo até que o todo devesse ser consumido. Mas Sigu, dotado com razão, e consciente de gerações futuras, determinou cortar abaixo a árvore, e reabastecer a terra toda ao redor por plantando toda muda de planta e semente que ela fornecesse. Na última tarefa ele empregou todas as bestas e pássaros por algum tempo, isso sendo para o bem público.---Essa foi a primeira tentativa sobre terra de cultivação.

"Todos assistiram voluntariamente exceto Iwarrika" (o macaco), "que sendo muito preguiçoso e cheio de maldade, evitou sua porção do labor, e por seus truques frustrava os esforços dos outros. Como ele não iria fazer nenhum bem, Sigu, para o manter de fazer mal, por fim o enviou para uma ribeira para pegar água, lhe dando somente uma 'quake'[4], ou cesta de trabalho ornamental com claros ou aberturas no material[5], para a trazer dentro.

"O tôco da árvore maravilhosa foi visto de ser ôco, e a cavidade enchida com água, contendo a prole de toda variedade de peixe de água-doce. (Até àquele período peixes tinham somente existido no grande mar de sal.) Sigu determinou estocar com eles todas as ribeiras e lagos sobre terra, em tão justa uma maneira que toda variedade de peixe escolhido devesse ser vista em cada um." Mas esta intenção,--tão equitativa e benevolente para gerações futuras,--foi inesperadamente frustrada. "A água na cavidade, sendo conectada com uma fonte ou reservatório subterrânea, começou a transbordar. Para parar seu aumento, ele apressadamente construiu uma cesta hermeticamente tecida[6] do tipo chamado 'wallamba' (ou warrampa), com a qual ele cobriu o tôco, e isto, por certo poder mágico, restringiu a fonte inchante dentro.

"Iwarrika, o macaco maligno, cansado de sua tarefa sem lucro, retornou secretamente. Vendo a wallamba invertida, ele imaginou que ela cobrisse a fruta mais selecionada, especialmente reservada para o refrescamento de seu mestre quando o labor de plantar devesse ter terminado. Para natureza-de-macaco a tentação assim oferecida foi irresistível. Ali estavam as mais finas guloseimas, e ninguém perto! Uma tal chance poderia nunca acontecer novamente. Então ele apressadamente forçou acima a cobertura mágica, e o outro instante estava arfando e lutando em terror abjeto e espanto, sendo subvertido[7] e quase afogado por uma torrente poderosa que rompeu adiante, e desde uma abertura rapidamente aumentante sobre-espalhou-se ao redor da terra.(1)

"Coligindo seu pequeno rebanho junto para os salvar das águas que subiam, Sigu os levou para o ponto mais alto de terra, em que cresciam algumas palmeiras cocorite enormes. Selecionando a mais alta destas, ele fez os pássaros e animais trepadores ascenderem. Os animais que não podiam trepar, e que não eram anfíbios, ele colocou em uma caverna com uma entrada muito estreita. Esta ele fechou cuidadosamente, e selou com cera, depois de dar aos internos[8] um chifre longo com que furar a cera, e conferir se as águas estavam acima de seu nível ou não." O que eles fizeram para AR não nos é informado.

"Sigu, tendo assim feito seu melhor para a segurança de todos, escalou a cocorite; sendo levado pela água que subia aos ramos mais altos. Uma noite terrível, ou preferivelmente período de escuridão e tempestade igual em duração a muitos dias e noites, então decorreu, durante a qual todos sofreram intensamente de frio e fome.

"Arowta" (1) (o macaco vermelho grande, erradamente chamado o babuíno, um animal não de grande beleza, mas, como parece, de natureza sensível) "agudamente sentiu esse estado doloroso de coisas, e estando finalmente quase sobrepujado por seus sentimentos, deu expansão a sua própria miséria, e aumentou aquela de todos em volta, por gritando na maneira mais horrível. Seus gritos horríveis,--saindo desde sua garganta distendida, e aumentando com seu terror--se tornaram ensurdecedores, quando finalmente ele achou seus pés e rabo, e o ramo a que eles apertadamente se seguravam, imersos nas águas inchantes.

"O bom Sigu, ansioso pela segurança de todos, pacientemente suportou isto e todo outro desconforto, e de tempo em tempo deixava cair as sementes da cocorite dentro da água, que ele poderia julgar pelo som de sua elevação. Finalmente os períodos que transcorriam antes que o splash fosse ouvido se tornaram mais longos e mais longos. Então finalmente foi ouvido o som surdo das sementes golpeando a terra macia, e ao mesmo tempo os pássaros, cada um com sua própria nota peculiar, começaram alegremente a saudar a aproximação do dia."

1 A crença dos nativos de Hayti, que as águas do dilúvio universal romperam adiante de uma cucurbitácea[9] grande, em que um cacique tinha colocado os ossos de seu filho único (depois de o matar por traição), e que foi acidentamente atirada abaixo por alguns intrometidos que desejavam espiar[10] dentro dela, era ainda mais absurda do que o acima. Na água inchante e peixes achados dentro da cucurbitácea pelo cacique previamente ao acidente, e seu cuidado depois dessa descoberta para a manter fechada, há uma grande semelhança a esta lenda Acawoio, embora todas as outras circunstâncias são largamente diferentes. (Ver Columbus de Irving, livro vi. cap. x,)

1 Chamado pelos Caribs Arawáta.--As palavras Araguáto e Alouáte, por que alguns escritores designam o 'Mycetes' ou macaco gritador[11], são derivadas da acima.

As aventuras que se seguiram--como o waracabba, ou pássaro-trompetista faminto, desobedecendo Sigu, se aventurou na terra na luz indistinta para procurar comida; e teve suas pernas, até então de tamanho respeitável, imediatamente cobertas e devoradas por legiões de formigas famintas saindo de seus ninhos, de forma que pouco além dos esguios ossos parecidos com gravetos permaneceu ;--como Sigu resgatou seu trompetista desafortunado, e com infinito problema acendeu uma faísca de fogo, que, enquanto ele procurava por combustível, o marudi (ou ave-de-arbusto[12]) devorou em engano por um inseto vermelho brilhante;--como o jacaré, que tinha justamente vindo em terra firme para prestar seus respeitos, sendo acusado, por causa de sua feiúra e mau caráter geral, de ter maliciosamente a engolido, teve sua língua puxada para fora pelas raízes que, por olhando abaixo de sua garganta, a verdade pudesse ser averiguada em uma maneira muito satisfatória (ao menos para os outros) ;-- como o marudi foi então demonstrado de ser o culpado real pela faísca brilhante que ficou presa em sua garganta, causando o barbilhão vermelho brilhante ou aumento da pele exterior;--essas e as várias faltas ou infortúnios dos outros pássaros e animais não precisam mais ser relatadas além.

É suficiente dizer, deva qualquer um ser cético, que os Índios podem apontar para seus efeitos, que são manifestos e visíveis para todos no dia presente. Pois "os marudis todos carregam em suas gargantas a marca vermelha da pressa azarada de seu ancestral ;--os waracabbas perpetuam, em suas esguias desculpas para pernas, os efeitos do infortúnio que aconteceu ao primeiro trompetista ;--e todos os jacarés" (assim os Índios dizem) "são, até este dia, destituídos de línguas."

De maneira semelhante, os esforços estrênuos do "babuíno" para expressar suas tristezas durante a enchente nós devemos supor de ter ocasionado esse inchaço da garganta (ou expansão óssea parecida com tambor da laringe) que é vista em seus descendentes, e lhes permite, em notas rugidoras dignas de seu progenitor, expressar seus sentimentos, quando quer que eles estejam excitados, ou, perto da manhã, sintam fome e frio.

O macaco, cujas propensões disonestas causaram a enchente, permaneceu não-curado de sua inatividade, amor por maldade, e furtar, e transmitiu essas qualidades não diminuídas para suas crianças. Ele parece, contudo, ter adquirido um horror profundo de um mergulho, que eles também totalmente partilham, e irão manifestar a qualquer um o administrando a eles.

"O plano de cultivo de Sigu prosperou, já que as plantas todas cresceram depois que as águas tinham baixado ; mas os peixes de água-doce, tendo sido dispersados e deixados a si mesmos, acharam seu caminho para as ribeiras tão irregularmente, que muitos rios são até hoje destituídos dos tipos mais selecionados."

Desta maneira os Acawoios e outros Índios fantasiosamente, e com algum humor, se empenham em dar a razão de o que quer que lhes pareça notável em natureza, e enxertam essas fantasias em tradições do Dilúvio, e o que carrega alguma semelhança àquela da "era dourada".

Para essa lenda existe uma segunda parte repetida por alguns, em que a mãe de Sigu aparece, e dois irmãos malvados que o odeiam e o perseguem, que ele suporta com paciência invencível. Eles o espancam até a morte, o queimam até cinzas, e o enterram vivo; mas com todos os seus esforços malvados não podem dar um fim dele, já que ele revive continuamente. Depois de suportar toda maneira de ferimentos, ele finalmente ascende para uma montanha alta e precipitosa, subindo mais alto e mais alto até que ele se perde de vista. Essas adições ao conto original podem ter surgido desde alguns relatos imperfeitos, ouvidos pelos ancestrais de Europeus, dos sofrimentos de santos, ou dAquele que é mais alto do que todos santos. Como os antigos Gregos atribuiam a seu semi-deus Hercules, e os heróis de sua própria mitologia, os feitos maravilhosos que eles ouviam dos heróis de outras terras, assim na história de Sigu, o personagem heróico dos Acawoios, o que quer que grandemente golpeasse sua fantasia deles iria naturalmente ser incorporado, em alguma forma alterada, depois que sua fonte verdadeira tivesse sido esquecida.--Eu posso adicionar que foi uma surpresa agradável para mim achar, na mitologia de tão selvagem uma raça, um herói tão geralmente paciente e benevolente como ele é representado.

Para permitir ao leitor julgar justamente dos contos legendários dessa tribo importante, eu tenho dado o acima quase em totalidade, não obstante a puerilidade de algumas porções.

(...)

Cf. Houaiss, Avery, Dicionário Barsa.
Cf. Dicionário Houaiss da língua portuguesa.

Notas de Tradução:

[1] cassava, mandioca.
[2] corn, trigo na Inglaterra.
[3] acouri, accouri, agouti, cutia.
[4] 'quake'.
[5] open-work basket.
[6] closely-woven.
[7] being overturned.
[8] inmates.
[9] 'gourd'.
[10] peep.
[11] howling monkey.
[12] bush-fowl.

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