O Doutor
De Anton Chekhov.
Tradução de língua russa para língua inglesa.
De Constance Garnett.
De Love and Other Stories (Tales of Chekhov Vol XIII), Ecco Press, ou https://archive.org/details/LoveAndOtherStoriestalesOfChekovVolXiii .
Tradução de língua inglesa para língua portuguesa do Brasil.
De Herculano de Lima Einloft Neto.
Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2017.
Estava quieto na sala de estar, tão quieto que uma mosca-caseira que tinha voado para dentro desde fora podia ser distintamente ouvida escovando contra o teto. Olga Ivanovna, a dama da vila, estava de pé pela janela, olhando para fora para os canteiros-de-flores e pensando. Dr. Tsvyetkov, que era seu doutor tão bem como um velho amigo, e tinham mandado o buscar para tratar o filho dela Misha, estava sentando em uma poltrona e balançando seu chapéu, que ele segurava em ambas mãos, e ele também estava pensando. Exceto eles, não havia uma alma na sala de estar ou nos quartos adjacentes. O sol tinha se posto, e as sombras da noite começavam a se assentar nos cantos sob a mobília e nas cornijas.
O silêncio foi quebrado por Olga Ivanovna.
"Nenhum infortúnio mais terrível pode ser imaginado," ela disse, sem se virar da janela. "Você sabe que vida não tem valor para mim absolutamente separada do garoto."
"Sim, eu sei isso," disse o doutor.
"Nenhum valor absolutamente," disse Olga Ivanovna, e sua voz tremeu. "Ele é tudo para mim. Ele é minha alegria, minha felicidade, minha riqueza. E se, como você diz, eu cessar de ser uma mãe, se ele ... morrer, não irá haver nada restante de mim senão uma sombra. Eu não posso sobrevivê-lo."
Apertando[1] suas mãos, Olga Ivanovna andou de uma janela para a outra e continuou:
"Quando ele nasceu, eu queria mandá-lo embora para o Hospital de Crianças Enjeitadas, você lembra disso, mas, meu Deus, como pode aquele tempo ser comparado com agora? Então eu era vulgar, estúpida, cabeça-leve[2], mas agora eu sou uma mãe, você entende? Eu sou uma mãe, e isso é tudo que eu me importo de saber. Entre o presente e o passado há um golfo impassável.
Silêncio se seguiu novamente. O doutor mudou seu assento da cadeira para o sofá e brincando impacientemente com seu chapéu, manteve seus olhos fixos sobre Olga Ivanovna. De sua face podia ser visto que ele queria falar, e estava esperando por um momento adequado.
"Você está silencioso, mas ainda eu não desisto de esperança," disse a dama, se virando. "Por que está você silencioso?"
Eu deveria ser tão grato de qualquer esperança como você, Olga, mas não há nenhuma," Tsvyetkov respondeu, "nós precisamos olhar a verdade horrível na face. O garoto tem um tumor no cérebro, e nós precisamos tentar nos preparar para sua morte, pois casos tais nunca se recuperam."
"Nikolay, você está certo de que você não está enganado?"
"Tais questões não levam a nada. Eu estou preparado para responder tantas quanto você quiser, mas isso não irá o fazer nada melhor para nós."
Olga Ivanovna pressionou sua face para dentro das cortinas da janela, e começou a chorar amargamente. O doutor se levantou e andou várias vezes para cima e para baixo da sala de estar, então foi para a mulher que chorava, e levemente tocou seu braço. Julgando de seus movimentos incertos, da expressão de sua face melancólica, que parecia escura no crepúsculo do anoitecer, ele queria dizer alguma coisa.
"Ouça, Olga," ele começou. "Me dispense a atenção de um minuto; há alguma coisa que eu preciso lhe perguntar. Você não pode me atender agora, contudo. Eu irei vir depois, mais tarde ...." Ele se sentou de novo, e afundou em pensamento. O chôro implorante, amargo, como o chôro de uma pequena garota, continuava. Sem esperar que ele acabasse, Tsvyetkov arquejou um suspiro e saiu andando da sala de estar. Ele foi para dentro do quarto de crianças para Misha. O garoto estava deitando sobre suas costas como antes, olhando fixamente um ponto como se ele estivesse escutando. O doutor se sentou na cama e sentiu seu pulso.
"Misha, sua cabeça dói?" ele perguntou.
Misha respondeu, não de uma vez: "Sim. Eu me mantenho sonhando."
"O que você sonha?"
"Todos tipos de coisas...."
O doutor, que não sabia como falar com mulheres chorosas ou com crianças, passou a mão por sua cabeça queimando, e murmurou:
"Deixe para lá, pobre garoto, deixe para lá.... Um não pode ir através de vida sem doença...Misha, quem sou eu--você me conhece?
Misha não respondeu.
"Dói sua cabeça muito mal?"
"Mu-uito. Eu me mantenho sonhando."
Depois de o examinar e pôr algumas questões para a empregada doméstica que estava cuidando da criança doente, o doutor foi lentamente de volta para a sala de estar. Lá estava por agora escuro, e Olga Ivanovna, de pé pela janela, parecia como uma silhueta.
"Devo eu acender a luz?" perguntou Tsvyetkov.
Nenhuma resposta se seguiu. A mosca-doméstica ainda estava escovando contra o teto. Nenhum som flutuava para dentro desde o lado de fora como se o mundo todo, como o doutor, estivesse pensando, e não pudesse trazer si mesmo a falar. Olga Ivanovna não estava chorando agora, mas como antes, olhando fixamente para o canteiro-de-flores em silêncio profundo. Quando Tsvyetkov foi até ela, e através do crepúsculo olhou de relance à sua face pálida, exausta com pesar, sua expressão foi tal como ele tinha visto antes durante os ataques de dor de cabeça doente, estupeficante, aguda dela.
"Nikolay Trofimitch!" ela se endereçou a ele, "e o que você acha de uma consulta?"
"Muito bem; eu irei a arranjar amanhã."
Do tom do doutor podia ser facilmente visto que ele punha pouca fé no benefício de uma consulta. Olga Ivanovna teria lhe perguntado alguma outra coisa, mas seus soluços a impediram. Novamente ela pressionou sua face para dentro da cortina da janela. Naquele momento, as partes musicais de uma banda tocando no clube flutuaram adentro distintamente. Eles podiam ouvir não apenas os instrumentos de sopro, mas até mesmo os violinos e as flautas.
"Se ele está com dor, por que ele está silencioso?" perguntou Olga Ivanovna. "O dia todo, nenhum som, ele nunca reclama, e nunca chora. Eu sei que Deus irá tomar o pobre garoto de nós porque nós não soubemos como o prezar. Um tal tesouro!"
A banda terminou a marcha, e um minuto depois começou a tocar uma valsa vívida para a abertura do baile.
"Bom Deus, não pode nada realmente ser feito?" gemeu Olga Ivanovna. "Nikolay você é um doutor e deveria saber o que fazer! Você precisa entender que eu não posso suportar a perda dele! Eu não posso sobreviver a isso."
O doutor, que não sabia como falar a mulheres chorosas, arquejou um suspiro, e andou a passos largos lentamente pela sala de estar. Seguiu uma sucessão de pausas opressivas interpostas com chôro e as questões que não levam a nada. A banda já tinha tocado uma quadrilha, uma polca, e outra quadrilha. Ficou bastante escuro. No quarto adjacente, a empregada doméstica acendeu a lâmpada; e todo o tempo o doutor mantinha seu chapéu em suas mãos, e parecia tentando dizer alguma coisa. Várias vezes Olga Ivanovna saiu para ir a seu filho, sentou ao lado dele por meia-hora, e voltou de novo para a sala-de-estar; ela estava continuamente se quebrando em lágrimas e lamentações. O tempo se arrastava agonizantemente, e parecia como se a noite não tivesse fim.
À meia-noite, quando a banda tinha tocado o cotilhão e parado de todo, o doutor ficou pronto para ir.
"Eu irei vir novamente amanhã," ele disse, pressionando a mão fria da mãe. "Você vá para cama."
Depois de pôr seu sobretudo pesado na passagem e pegar sua bengala, ele parou, pensou um minuto, e foi de volta para a sala de estar.
"Eu irei vir amanhã, Olga," ele repetiu em uma voz trêmula. "Você está ouvindo?"
Ela não respondeu, e parecia como se pesar tivesse a roubado de todo poder de falar. Em seu sobretudo pesado e com sua bengala em sua mão, o doutor sentou ao lado dela, e começou em um meio-sussurro tenro, suave, que era completamente fora de manutenção com sua figura dignificada, pesada:
"Olga! Por causa de seu sofrimento que eu partilho.... Agora, quando falsidade é criminosa, eu lhe rogo para me dizer a verdade. Você tem sempre declarado que o garoto é meu filho. É isso a verdade? "
Olga Ivanovna ficou silenciosa.
"Você tem sido a uma conexão em minha vida," o doutor continuou, "e você não pode imaginar quão profundamente meu sentimento é ferido por falsidade. ... Venha, eu lhe peço, Olga, por uma vez em sua vida, me diga a verdade.... Nestes momentos um não pode mentir. Me diga que Misha não é meu filho. Eu estou esperando."
"Ele é."
A face de Olga Ivanovna não podia ser vista, mas em sua voz o doutor podia ouvir hesitação. Ele suspirou.
"Mesmo em momentos tais você pode se trazer a dizer uma mentira," ele disse em sua voz ordinária. "Não há nada sagrado para você! Escute, me entenda....Você tem sido a uma única conexão em minha vida. Sim, você era depravada, vulgar, mas eu não tenho amado ninguém mais além de você em minha vida. Esse amor trivial, agora que eu estou envelhecendo, é o um ponto luminoso solitário em minhas memórias. Por que você o escurece com enganação? Para quê é isso?"
"Eu não lhe entendo."
"Oh meu Deus!" gritou Tsvyetkov. "Você está mentindo, você entende muito bem!" ele gritou mais alto, e ele começou a andar a passos largos pela sala de estar, agitando raivosamente sua bengala. "Ou você se esqueceu? Então eu irei lhe relembrar! Os direitos de um pai ao garoto são igualmente partilhados comigo por Petrov e Kurovsky o advogado, que ainda fazem a você uma ajuda de custo pela educação do filho deles, justamente como eu faço! Sim, de fato! Eu sei de tudo isso inteiramente bem! Eu perdôo seu mentir no passado, o que ele importa? Mas agora quando você envelheceu, neste momento quando o garoto está morrendo, seu mentir me reprime! Quanto eu sinto de que eu não posso falar, quão muito eu sinto!"
O doutor desabotoou seu sobretudo, e ainda andando a passos largos por lá, disse:
"Mulher desgraçada[3]! Mesmo tais momentos não têm nenhum efeito sobre ela! Mesmo agora ela mente tão livremente como nove anos atrás no Restaurante Eremitério! Ela está com medo de que se ela me disser a verdade eu deixe de lado de dar dinheiro a ela, ela acha que se ela não mentisse eu não deveria amar o garoto! Você está mentindo! É contemptível!"
O doutor bateu o chão com sua bengala, e gritou:
"É repugnante! Criatura corrupta, torta! Eu preciso desprezar você, e eu deveria estar envergonhado de meu sentimento! Sim! Seu mentir pregou em minha garganta esses nove anos, eu tenho o suportado, mas agora é demais -- demais."
Do canto escuro onde Olga Ivanovna estava sentando veio o som de chôro. O doutor cessou de falar e limpou sua garganta. Um silêncio seguiu. O doutor lentamente abotoou acima seu sobretudo, e começou a procurar por seu chapéu que ele tinha deixado cair enquanto ele andava por lá.
"Eu perdi a cabeça[4]," ele murmurou, se dobrando abaixo para o chão. "Eu inteiramente perdi de vista o fato de que você não pode me atender agora....Deus sabe o que eu tenho dito....Não tome qualquer notícia disso, Olga."
Ele achou seu chapéu e foi para o canto escuro.
"Eu magoei você," ele disse em um meio-sussurro tenro, suave, "mas uma vez mais eu lhe peço, me diga a verdade; não deveria haver mentira entre nós....Eu deixei escapar para fora, e agora você sabe que Petrov e Kurovsky não são nenhum segredo para mim. Então agora é fácil para você me dizer a verdade."
Olga Ivanovna pensou um momento, e com hesitação perceptível, disse:
"Nikolay, eu não estou mentindo -- Misha é seu filho."
"Meu Deus," gemeu o doutor, "então eu vou lhe dizer alguma coisa mais: Eu tenho mantido sua carta a Petrov em que você o chama pai de Misha! Olga, eu sei a verdade, mas eu quero a ouvir de você! Você está ouvindo?"
Olga Ivanovna não fez nenhuma réplica, mas continuou chorando. Depois de esperar por uma resposta o doutor deu de ombros e saiu fora.
"Eu irei vir amanhã," ele falou da passagem.
Todo o caminho para casa, enquanto ele estava sentado em sua carruagem, ele estava dando de ombros e murmurando:
"Que pena que eu não sei como falar! Eu não tenho o dom de persuadir e convencer. É evidente que ela não me entende já que ela mente! É evidente! Como posso eu a fazer ver? Como?"
Cf. Houaiss, Avery, Dicionário Barsa.
Cf. Dicionário Houaiss da língua portuguesa.
Cf. http://www.wordreference.com/enpt/ , Dicionário Inglês-Português (Brasil).
Cf. http://michaelis.uol.com.br/moderno-ingles/ .
Notas de tradução:
[1] wringing, torcendo, apertando.
[2] feather-headed, cabeça leve, cabeça-de-vento, etc.
[3] wretched, desgraçada, miserável.
[4] I lost my temper, eu perdi a cabeça, eu perdi meu temperamento.
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