segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

João Antônio Sousa de Andrade
De Herculano de Lima Einloft Neto.
Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2019.

João Antônio Sousa de Andrade tinha 38 anos, e se ocupava em ler e escrever digitando ao computador. Um dia teve a ideia de usar de vez em quando o programa de internete Google Maps para passear virtualmente na cidade em que morava, Rio de Janeiro. Andrade procurava correr o mínimo de risco possível em seu cotidiano. Usando o Google Maps, transitava virtualmente pela cidade nas vielas mais vazias das áreas mais distantes, e noutras ruas, onde notava vultos interessantes, e imaginava o que fariam aquelas pessoas, e a que propósito estariam andando quando tinham sido fotografadas pelo Google.

Uma vez, passeando virtualmente por perto de seu apartamento no bairro da Gávea, Andrade viu uma vizinha no Google Maps que reconheceu, mesmo com o rosto borrado pelo programa. Era Tatiana Freitas, esposa de seu conhecido de infância Marcelo Telles Ribeiro. Porém, o programa tinha a fotografado no instante mesmo em que saía do prédio de Andrade, em visita que, gostaria ele, continuasse em sigilo. Mas se tratava apenas de um indício circunstancial, pensava Andrade. Uma boa desculpa era o de que precisava. Mas tinha de combinar a mesma com Tatiana Freitas.

Dito e feito, na próxima vez em que encontrou Tatiana a sós na rua, comentou com ela da indiscrição do programa, e lhe recomendou que se Marcelo Telles Ribeiro suspeitasse de alguma coisa, ela deveria dizer que estava se informando sobre apartamentos disponíveis para aluguel com Andrade, o qual lhe pedira ajuda. Havia oportunamente um apartamento vago no prédio de Andrade, e Andrade poderia muito bem estar tomando como interesse seu próprio o aluguel do mesmo, fosse porque fosse.

Acontece que Marcelo Telles Ribeiro não usava o Google Maps, e a fotografia em questão jamais chegou a seu conhecimento. Tatiana Freitas continuou fazendo suas visitas indiscretas ao apartamento de Andrade, e tudo corria na maior tranquilidade. Já tinham uma desculpa boa para qualquer suspeita que houvesse de seu caso. A desculpa funcionaria mesmo com o apartamento referido já alugado, pois Marcelo Telles Ribeiro não iria tentar se certificar da alegação, pelo que Andrade deduzia.

Jamais Ribeiro ficou sabendo do caso de Andrade e Tatiana Freitas, e a desculpa combinada jamais teve de ser usada.

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