domingo, 16 de fevereiro de 2014

A Coisa Danada

Ambrose Bierce
De "In the Midst of Life", http://www.gutenberg.org/files/23172/23172-h/23172-h.htm .
Tradução de língua Inglesa para língua Portuguesa do Brasil de
Herculano de Lima Einloft Neto.
Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2014.

I

Pela luz de uma vela de sebo, que tinha sido colocada sobre uma extremidade de uma mesa grosseira, um homem estava lendo alguma coisa escrita em um livro. Era um velho livro de contas, muito gasto; e a escrita não era, aparentemente, muito legível, pois o homem algumas vezes segurava a página perto da chama da vela para obter uma luz mais forte sobre ela. A sombra do livro iria então atirar em obscuridade uma metade do cômodo, escurecendo um número de faces e figuras; pois além do leitor, oito outros homens estavam presentes. Sete deles se sentavam contra as paredes grosseiras de tronco, silenciosos e imóveis, e, o cômodo sendo pequeno, não muito longe da mesa. Estendendo um braço qualquer um deles poderia ter tocado o oitavo homem, que estava deitado na mesa, face para cima, parcialmente coberto por um lençol, seus braços a seus lados. Ele estava morto.

O homem com o livro não estava lendo em voz alta, e ninguém falava; todos pareciam estar esperando por alguma coisa ocorrer; o homem morto somente estava sem expectativa. Desde a escuridão vazia de fora entravam, através da abertura que servia para uma janela, todos os sempre não-familiares barulhos da noite no sertão--a nota longa, sem-nome de um coiote distante; o tremor quietamente pulsante de insetos incansáveis em árvores; estranhos gritos de pássaros da noite, tão diferentes daqueles dos pássaros do dia; o zumbido de grandes besouros errantes, e todo aquele coro misterioso de pequenos sons que parecem sempre ter sido mas meio ouvidos quando eles pararam subitamente, como se conscientes de uma indiscrição. Mas nada de tudo isto era notado naquela companhia; seus membros não eram sobremaneira inclinados a interesse inerte em matérias sem nenhuma importância prática; isso era óbvio em toda linha de suas faces enrugadas---óbvio mesmo na luz obscurecida de uma única vela. Eles eram evidentemente homens da vizinhança---fazendeiros e homens de floresta.

A pessoa lendo era um pouco diferente; um iria ter dito dele que ele era do mundo, mundano, embora houvesse isso em sua roupa que atestava um certo companheirismo com os organismos de seu ambiente. Seu paletó iria dificilmente ter passado em San Francisco: seus calçados não eram de origem urbana, e o chapéu que estava perto dele no chão (ele era o único descoberto) era tal que se um o tivesse considerado como um artigo de mero adorno pessoal ele iria ter perdido seu sentido. Em expressão o homem era preferivelmente cativante, com somente uma sugestão de severidade; embora isso ele possa ter assumido ou cultivado, como apropriado para um em autoridade. Pois ele era um magistrado[1]. Era por virtude de seu ofício que ele tinha possessão do livro em que ele estava lendo; ele tinha sido achado entre as posses do homem morto--em sua cabana, onde o inquérito estava agora acontecendo.

Quando o magistrado tinha terminado de ler ele pôs o livro dentro de seu bolso de peito. Naquele momento a porta foi empurrada aberta e um homem jovem entrou. Ele, claramente, não era de nascimento e criação montanhesa: ele estava vestido como aqueles que residem em cidades. Sua roupa estava empoeirada, todavia, como de viagem. Ele tinha, de fato, estado dirigindo duramente para atender ao inquérito.

O magistrado fez sinal com a cabeça; ninguém mais o cumprimentou.

"Nós esperamos por você," disse o magistrado. "É necessário ter feito com este negócio esta noite."

O homem jovem sorriu. "Eu sinto por tê-los mantido esperando," ele disse. "Eu fui embora, não para evadir suas invocações, mas para enviar para meu jornal um relato do que eu suponho que eu sou chamado de volta para relatar."

O magistrado sorriu.

"O relato que você enviou para seu jornal," ele disse, "difere provavelmente daquele que você irá dar aqui sob juramento."

"Isso," replicou o outro, preferivelmente quentemente e com um visível afogueamento, "é como você escolher. Eu usei papel de cópia e tenho uma cópia do que eu enviei. Não foi escrito como notícia, pois ele é inacreditável, mas como ficção. Ele pode ir como uma parte de meu testemunho sob juramento."

"Mas você diz que ele é inacreditável."

"Isso não é nada para você, senhor, se eu também jurar que ele é verdade."

O magistrado não foi aparentemente muito afetado pelo manifesto ressentimento do homem jovem. Ele esteve silencioso por alguns momentos, seus olhos sobre o chão. Os homens pelos lados da cabana conversavam em sussurros, mas raramente retiravam seu olhar fixo da face do defunto. Presentemente o magistrado levantou seus olhos e disse: "Nós iremos continuar o inquérito."

Os homens retiraram seus chapéus. A testemunha foi jurada.

"Qual é o seu nome?" o magistrado perguntou.

"William Harker."

"Idade?"

"Vinte e sete."

"Você conhecia o falecido, Hugh Morgan?"

"Sim."

"Você estava com ele quando ele morreu?"

"Perto dele."

"Como isso aconteceu---sua presença, eu digo?"

"Eu estava visitando-o em seu lugar para atirar e pescar. Uma parte de meu propósito, todavia, era estudá-lo, e seu modo de vida ímpar, solitário. Ele parecia um bom modelo para um personagem em ficção. Eu algumas vezes escrevo estórias."

"Eu algumas vezes as leio."

"Obrigado."

"Estórias em geral--não as suas."

Alguns dos jurados riram. Contra um pano de fundo sombrio humor mostra altas luzes. Soldados nos intervalos de batalha riem facilmente, e um chiste na câmara mortuária conquista por surpresa.

"Relate as circunstâncias da morte deste homem," disse o magistrado. "Você pode usar quaiquer notas ou memoranda que você quiser."

A testemunha entendeu. Puxando um manuscrito de seu bolso de peito ele o segurou perto da vela, e virando as folhas até que ele encontrasse a passagem que ele queria, começou a ler.

II

"...O sol tinha mal surgido quando nós deixamos a casa. Nós estávamos procurando por codornizes, cada um com uma espingarda de caça, mas nós tínhamos somente um cachorro. Morgan disse que nosso melhor chão era além de uma certa cordilheira que ele apontou, e nós a atravessamos por uma trilha através do 'chaparral'. No outro lado era chão comparativamente plano, grossamente coberto com aveias selvagens. Enquanto nós emergíamos do 'chaparral', Morgan não estava senão umas poucas jardas adiantado. Subitamente, nós ouvimos, a uma distância pequena para nossa direita, e parcialmente na frente, um barulho como de algum animal se agitando nos arbustos, que nós podíamos ver que eram violentamente agitados.

"Nós surpreendemos um veado,' disse. 'Eu quisera que nós tivéssemos trazido um rifle.'

"Morgan, que tinha parado e estava intentamente vigiando o chaparral agitado, não disse nada, mas tinha engatilhado ambos os barris de sua espingarda, e a estava segurando em preperação para mirar. Eu o pensei um pouco excitado, o que me surpreendeu, pois ele tinha uma reputação de frieza excepcional, mesmo em momentos de súbito e iminente perigo.

"O, venha!' eu disse. 'Você não vai encher um veado com tiro-de-codorniz, vai?'

"Ainda ele não respondeu; mas, apanhando uma vista de sua face como ele a virava um pouco em minha direção, eu fui atingido pela palidez dela. Então eu entendi que nós tínhamos negócio sério em mãos, e minha primeira conjetura foi que nós tínhamos 'nos atirado sobre' um urso pardo. Eu avancei para o lado de Morgan, engatilhando minha espingarda enquanto eu me movia.

"Os arbustos estavam agora quietos, e os sons tinham cessado, mas Morgan estava tão atento para o lugar como antes.

"O que é isso? O que diabos é isso?' eu perguntei.

"Essa Coisa Danada!' ele replicou, sem virar sua cabeça. Sua voz era rouca e não-natural. Ele tremia visivelmente.

"Eu estava prestes a falar mais, quando eu observei as aveias selvagens perto do lugar do distúrbio se movendo do modo mais inexplicável. Eu posso dificilmente o descrever. Pareciam como se movidas por uma ação de vento, que não apenas as entortava, mas as pressionava abaixo---as esmagava de modo que elas não levantavam, e esse movimento estava lentamente se prolongando diretamente em nosso sentido.

"Nada que eu alguma vez tinha visto tinha me afetado tão estranhamente como esse fenômeno não-familiar e inexplicável, contudo eu sou incapaz de recordar qualquer senso de medo. Eu me lembro--e o digo aqui porque, singularmente o suficiente, eu me lembrei então--que uma vez, em olhando descuidadamente para fora de uma janela aberta, eu momentaneamente confundi uma árvore pequena perto a mão por uma de um grupo de árvores maiores a uma pequena distância afastadas. Ela parecia do mesmo tamanho que as outras, mas, sendo mais distintamente e acuradamente definida em massa e detalhe, parecia fora de harmonia com elas. Era uma mera falsificação da lei de perspectiva aérea, mas me assustou, quase me terrificou. Nós tanto confiamos na operação ordenada de leis naturais familiares que qualquer suspensão aparente delas é notada como uma ameaça a nossa segurança, um alerta de calamidade impensável. Então agora o movimento aparentemente sem causa da ervagem, e a lenta, não-desviante aproximação da linha de distúrbio eram distintamente inquietantes. Meu companheiro parecia realmente assustado, e eu podia dificilmente creditar meus sentidos quando eu o vi subitamente jogar sua espingarda para seus ombros e atirar ambos barris na grama agitada! Antes que a fumaça da descarga tivesse se dissipado eu ouvi um grito alto selvagem--um grito como o de um animal selvagem--e, atirando sua espingarda sobre o chão, Morgan afastou-se com um salto e correu rapidamente desde o ponto. No mesmo instante eu fui atirado violentamente ao chão pelo impacto de alguma coisa não vista na fumaça--alguma substância mole, pesada que parecia atirada contra mim com grande força.

"Antes que eu pudesse me por sobre meus pés e recuperar minha espingarda, que parecia ter sido batida de minhas mãos, eu ouvi Morgan gritando afora como se em agonia mortal, e se misturando com seus gritos estavam tais sons selvagens roucos  como um ouve de cães brigando. Inexprimivelmente terrificado, eu lutei para meus pés e olhei na direção do retiro de Morgan; e possa o céu em misericórdia me poupar de outra vista como aquela! A uma distância de menos de trinta jardas estava meu amigo, abaixado sobre um joelho, sua cabeça jogada para trás em um ângulo assustador, sem chapéu, seu cabelo longo em desordem e seu corpo todo em movimento violento de lado para lado, para trás e para frente. Seu braço direito estava levantado e lhe parecia faltar a mão--ao menos, eu não podia ver nenhuma. O outro braço estava invisível. A vezes, como minha memória agora relata essa cena extraordinária, eu não podia discernir senão uma parte de seu corpo; era como se ele tivesse sido parcialmente borrado--eu não posso de outro modo o expressar--então uma mudança de sua posição iria trazer tudo para vista novamente.

"Tudo isso precisa ter ocorrido dentro de poucos segundos, ainda nesse tempo Morgan assumiu todas as posturas de um lutador determinado conquistado por peso e força superiores. Eu não via nada a não ser ele, e o via não sempre distintamente. Durante o incidente inteiro seus gritos e maldições eram ouvidos, como se através de um alvorôço envolvente de tais sons de raiva e fúria como eu não tinha nunca ouvido da garganta de homem ou bruto!

"Por um momento somente eu estive irresoluto, então, jogando abaixo minha espingarda, eu corri adiante para a assistência de meu amigo. Eu tinha uma crença vaga de que ele estava sofrendo de um acesso ou alguma forma de convulsão. Antes que eu pudesse alcançar seu lado ele estava prostrado e quieto. Todos sons tinham cessado, mas, com um sentimento de tal terror como mesmo esses eventos aterradores não tinham inspirado, eu agora via o mesmo movimento misterioso das aveias selvagens prolongando-se desde a área esmagada em volta do homem prostrado no sentido da borda de um bosque. Foi somente quando ele tinha atingido o bosque que eu fui capaz de retirar meus olhos e olhar para meu companheiro. Ele estava morto."

III

O magistrado se levantou de seu assento e ficou de pé ao lado do homem morto. Levantando uma ponta do lençol ele o puxou fora, expondo o corpo inteiro, todo nu e mostrando na luz de vela um amarelo argiloso. Ele tinha, todavia, largas maculações de preto-azulado, obviamente causadas por sangue extravasado de contusões. O peito e lados pareciam como se eles tivessem sido batidos com uma maça. Havia lacerações medonhas; a pele estava rasgada em tiras e retalhos.

O magistrado moveu-se a redor para a extremidade da mesa e desfez um lenço de seda, que tinha sido passado sob o queixo e amarrado com um nó sobre o topo da cabeça. Quando o lenço foi retirado ele expôs o que tinha sido a garganta. Alguns dos jurados que tinham se levantado para obter uma vista melhor se arrependeram de sua curiosidade, e viraram embora suas faces. Testemunha Harker foi para a janela aberta e inclinou-se para fora através do peitoril, medroso e doente. Deixando cair o lenço sobre o pescoço do homem morto, o magistrado passou para um ângulo do cômodo, e desde uma pilha de roupa produziu uma peça de roupa depois da outra, cada uma das que ele segurava acima um momento para inspeção. Todas estavam rasgadas, e endurecidas com sangue. Os jurados não fizeram uma inspeção mais próxima. Eles pareciam preferivelmente desinteressados. Eles tinham, em verdade, visto tudo isso antes; a única coisa que era nova para eles sendo o testemunho de Harker.

"Gentis-homens," o magistrado disse, "nós não temos mais nenhuma evidência, eu penso. Seu dever já foi explicado para vocês; se não há nada que vocês desejem perguntar vocês podem ir para fora e considerar seu veredito."

O primeiro jurado se levantou--um homem alto, barbudo de sessenta, grosseiramente vestido.

"Eu deveria gostar de fazer uma pergunta, Sr. Magistrado," ele disse. "De que asilo essa sua última testemunha escapou?"

"Sr. Harker," disse o magistrado, gravemente e tranquilamente, "de que asilo você escapou por último?"

Harker afogueou-se carmim novamente, mas não disse nada, e os sete jurados levantaram-se e solenemente marcharam em fila para fora da cabana.

"Se você terminou de me insultar, senhor," disse Harker, tão logo como ele e o oficial foram deixados sós com o homem morto, "eu suponho que eu estou em liberdade para ir?"

"Sim."

Harker começou a sair, mas pausou, com sua mão no trinco da porta. O hábito de sua profissão era forte nele--mais forte de que seu senso de dignidade pessoal. Ele virou ao redor e disse:

"O livro que você tem aí--eu o reconheço como o diário de Morgan. Você parecia grandemente interessado nele; você lia nele enquanto eu estava testemunhando. Posso eu vê-lo? O público iria gostar--"

"O livro não irá cortar nenhuma figura nessa matéria," replicou o oficial, deslizando-o para dentro do bolso de seu paletó; "todas as entradas nele foram feitas antes da morte do escritor."

Enquanto Harker passava para fora da casa o juri reentrou e ficou por volta da mesa sobre que o agora coberto corpo se mostrava sob o lençol com acurada definição. O primeiro jurado sentou-se perto da vela, produziu de seu bolso de peito um lápis e pedaço de papel, e escreveu preferivelmente laboriosamente o veredito seguinte, que com graus vários de esforço todos assinaram:

"Nós, o júri, achamos que os restos vêm a sua morte nas mãos de um leão montanhês, mas alguns de nós pensam, ao mesmo tempo, que eles tiveram convulsões."

IV

No diário do tardio Hugh Morgan estão certas entradas interessantes tendo, possivelmente, um valor científico como sugestões. No inquérito sobre seu corpo o livro não foi posto em evidência; possivelmente o magistrado o pensou não valoroso confundir o júri. A data da primeira das entradas mencionadas não pode ser verificada; a parte superior da folha está rasgada fora; a parte da entrada remanescente é como segue:

"... iria correr em um meio círculo, mantendo sua cabeça voltada sempre no sentido do centro e de novo ele iria ficar parado, latindo furiosamente. Finalmente ele correu embora para dentro da moita cerrada tão rápido como ele podia ir. Eu pensei a princípio que ele tinha enlouquecido, mas em retornando para a casa não achei nenhuma outra alteração em sua maneira do que o que era obviamente devido a medo de punição.

"Pode um cachorro ver com seu nariz? Impressionam odores algum centro olfatório com imagens da coisa os emitindo? . . .

"2 de Set.--Olhando para as estrelas noite passada enquanto elas se levantavam acima da crista da cordilheira a leste da casa, eu as observei sucessivamente desaparecer--da esquerda para a direita. Cada uma não foi eclipsada senão um instante, e somente umas poucas ao mesmo tempo, mas ao longo de todo o comprimento da cordilheira todas que estavam dentro de um grau ou dois da crista foram borrados. Foi como se alguma coisa tivesse passado ao longo entre mim e elas; mas eu não podia a ver, e as estrelas não eram espessas o suficiente para definir seu contorno. Ugh! Eu não gosto disso. . . ."

As entradas de diversas semanas estão faltando, três folhas estando rasgadas do livro.

"27 de Set.--Isso esteve por volta daqui novamente--eu acho evidências de sua presença todo dia. Eu assisti novamente toda a noite passada na mesma cobertura, arma a mão, duplamente carregada com chumbo grosso. Na manhã as pegadas frescas estavam lá, como antes. Ainda assim eu iria ter jurado que eu não dormi--de fato, eu dificilmente durmo absolutamente. É terrível, insuportável! Se essas experiências surpreendentes são reais eu devo enlouquecer; se elas são fantasiosas eu estou louco já.

"3 de Out.--Eu não devo ir--isso não deve me dirigir embora. Não, esta é 'minha' casa, minha terra. Deus odeia um covarde....

"5 de Out.--Eu não posso mais suportá-lo; eu convidei Harker para passar umas poucas semanas comigo--ele tem uma cabeça nivelada. Eu posso julgar por sua maneira se ele me pensa louco.

"7 de Out.--Eu tenho a solução do problema; ela veio a mim noite passada--subitamente, como por revelação. Quão simples--quão terrivelmente simples!
"Há sons que nós não podemos ouvir. A qualquer das duas extremidades da escala há notas que não movem nenhum acorde desse instrumento imperfeito, o ouvido humano. Elas são muito altas[2] ou muito graves. Eu tenho observado um bando de melros ocupando uma copa de árvore inteira--os topos de várias árvores--e todos em canção total. Subitamente--em um momento--em absolutamente o mesmo instante--todos se lançam no ar e voam embora. Como? Eles não podiam todos ver um ao outro--copas de árvore inteiras se interpunham. Em ponto nenhum podia um líder ter estado visível para todos. Precisa ter havido um sinal de alerta ou comando, alto e estridente sobre a barulhada, mas por mim inaudito. Eu tenho observado, também, o mesmo vôo simultâneo quando todos estavam silenciosos, entre não apenas melros, mas outros pássaros--codornizes, por exemplo, largamente separadas por arbustos--mesmo em lados opostos de uma colina.

"É sabido para homens-de-mar que um grupo de baleias se aquecendo ou se divertindo na superfície do oceano, a milhas uma da outra, com a convexidade da terra entre elas, irá algumas vezes mergulhar no mesmo instante--todas idas para fora de vista em um momento. O sinal foi soado--muito grave para o ouvido do marinheiro no tôpo do mastro e seus camaradas no convés--que entretanto sentem suas vibrações no navio como as pedras de uma catedral são movidas pelo baixo do órgão.

"Como com sons, também com cores. A cada extremidade do espectro solar o químico pode detetar a presença do que são conhecidos como raios 'actínicos'. Eles representam cores--cores integrais na composição de luz--que nós somos incapazes de discernir. O olho humano é um instrumento imperfeito; sua extensão é mas umas poucas oitavas da 'escala cromática' real Eu não estou louco; existem cores que nós não podemos ver.

"E, Deus me ajude! a Coisa Danada é de uma tal cor!"

Notas:

[1]coroner, magistrado encarregado de investigar casos de morte suspeita.
[2]high, alto, agudo.

 Cf. Houaiss, Avery, Barsa.