Da cura da velhice física e suas consequências
De Herculano de Lima Einloft Neto.
Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 2020.
Foi em 2028 que a cura da velhice física, uma mistura de ervas e plantas como estévia, maracujá e capim-cidreira com algumas outras mais obscuras, conhecida por alguns índios macro-jê ainda isolados na Amazônia, foi finalmente popularizada. Produzida industrialmente a baixo custo, a cura da velhice física foi distribuída por toda a população e sua exportação fez do Brasil um dos países mais ricos do mundo. O efeito do medicamento era o de manter a pessoa com idade física de 38 anos, enquanto os conhecimentos adquiridos eram mantidos. A população brasileira rapidamente aumentou para meio bilhão de pessoas nos 20 anos posteriores pois as pessoas não morriam mais de velhice, e rejuvenesciam para 38 anos físicos, tomando o medicamento em pauta. Começaram a entrar em vigor no Brasil as primeiras leis anti-conceptivas para impedir um aumento insustentável da população.
O primeiro resultado disso, como se pode imaginar, foi o de fazer da morte algo ainda mais trágico do que já era. Em 2048 as pessoas morriam por doenças como câncer e por acidentes de trânsito ou homicídio, enquanto muitos já atingiam a marca de 110 anos e contando. Com a cura definitiva do câncer surgindo ca. 2053, a morte se tornou mais rara e ainda mais trágica. As pessoas passaram a morrer principalmente por acidentes e homicídios.
Em 2108, pessoas começaram a atingir a marca de 170 anos. A experiência de vida dessas pessoas lhes conferia uma sabedoria que só os mais velhos e sábios alcançavam nos tempos da velhice física. Foram tomando lugar eminente na sociedade brasileira os velhos de mente.
Como os nativos-americanos já conheciam a cura da velhice física, a sociedade logo se deu conta de que algumas pessoas eram mais velhas do que confessavam. As idades bíblicas de Matusalém e outros foram novamente acreditadas. Passaram a surgir boatos de que Jesus Cristo nunca desaparecera e caminhava ainda entre nós, disfarçado para não chamar atenção.
A sociedade passou a esperar que a solução da ressurreição fosse alcançada, para que se pudesse reviver as pessoas mortas e assim falar de vida potencialmente eterna terrena. Porém muito tempo passou sem que essa solução aparecesse. As mulheres mantinham a capacidade de conceber por toda a vida, contudo ter filhos foi pouco a pouco se tornando mais e mais contra a lei. O mundo ainda temeria um cataclismo, como houvera no passado, com os dinossauros, um dilúvio bíblico, um ataque alienígena, etc.
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